Pagamentos Avançam, Mas Cadastro Incompleto Mantém Pressão Sobre Tarifas dos “Chapas”

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  • A FEMATRO assegura que não existe exclusão deliberada e que todos os operadores licenciados e documentalmente regularizados têm direito à compensação. Porém, a diferença entre os 2.362 transportadores abrangidos pela base inicialmente paga e um universo estimado entre 3.600 e 3.800 operadores, associada aos atrasos, novos processos e decisões locais de reajustar tarifas, mostra que o mecanismo ainda não alcançou estabilidade operacional.

Questões-Chave

  • A FEMATRO afirma que todos os operadores licenciados, cadastrados e com documentação regularizada são elegíveis;
  • A AMT mantém como referência pública 2.362 operadores abrangidos pelo programa no Grande Maputo;
  • O primeiro desembolso ultrapassou 110 milhões de Meticais, dentro de uma dotação anunciada de 144 milhões;
  • A FEMATRO estima que o universo de operadores cadastrados se situa entre 3.600 e 3.800, deixando mais de mil processos fora da primeira base paga;
  • O Ministério dos Transportes e Logística indicou que pretende regularizar as compensações dos operadores elegíveis até sexta-feira;
  • A paralisação de algumas rotas, a 27 de Julho, expôs o custo social dos atrasos e a insuficiência da frota pública;
  • Marracuene aprovou, esta quarta-feira, tarifas entre 18 e 34 Meticais, mostrando que o reajuste do preço continua a avançar em algumas jurisdições.

A Federação Moçambicana das Associações dos Transportadores Rodoviários, FEMATRO, garante que não existe uma política de exclusão no pagamento das compensações destinadas aos operadores do transporte público urbano, mas reconhece que o processamento dos valores continua a decorrer de forma gradual.

Segundo a organização, todos os transportadores devidamente licenciados e com a documentação regularizada têm direito ao benefício. A federação afirma ter remetido, na segunda-feira, todas as listas que se encontravam na sua posse à Agência Metropolitana de Transportes, não mantendo qualquer relação de beneficiários por encaminhar.

A FEMATRO acrescenta que parte significativa dos operadores que aguardavam pelo pagamento terá sido contemplada entre segunda e terça-feira. Contudo, não apresentou um número actualizado de beneficiários, indicando que essa informação deveria ser divulgada pelo Governo depois da consolidação dos desembolsos.

Até ao fecho desta análise, a actualização oficial prometida com o novo total de operadores e viaturas compensados ainda não se encontrava publicamente disponível nos canais consultados. A referência mais consistente continua, por isso, a ser a base de 2.362 transportadores anteriormente confirmada pela Agência Metropolitana de Transportes e pelo Ministério dos Transportes e Logística. 

Governo Aponta Para Regularização Até Sexta-feira

Numa actualização divulgada através dos seus canais institucionais, o Ministério dos Transportes e Logística indicou que as compensações devidas aos operadores elegíveis deverão estar regularizadas até sexta-feira.

A informação representa uma resposta às reclamações que culminaram na paralisação parcial de algumas rotas em Maputo e Matola, na segunda-feira, 27 de Julho. 

A AMT afirmou, entretanto, que está em curso uma nova fase de pagamentos e que os processos dos operadores ainda não contemplados permanecem em tramitação, aguardando a conclusão das verificações administrativas.

A agência também anunciou estar a fiscalizar as viaturas que receberam a compensação, procurando confirmar se continuam efectivamente em circulação e a prestar o serviço público para o qual o apoio foi concedido. 

Esta verificação é importante porque o mecanismo não constitui uma transferência financeira sem contrapartida. A compensação foi criada para manter as tarifas, assegurar a disponibilidade de transporte e mitigar o aumento dos custos operacionais provocado pela subida dos combustíveis.

Uma viatura paga que não circula não produz o benefício público esperado. Do mesmo modo, um operador que continua a transportar passageiros, mas permanece fora da base por atrasos administrativos, suporta integralmente um custo que o Estado se comprometeu a compensar.

Primeira Base Abrangeu 2.362 Operadores

O programa foi anunciado em Maio, depois de o preço do gasóleo ter aumentado 45,5% e a gasolina 12,1%, provocando paralisações e pressão para o reajuste das tarifas.

O Governo e a FEMATRO acordaram substituir, temporariamente, a subida das passagens por uma compensação financeira aos operadores licenciados. O mecanismo previa aproximadamente 35,5 mil Meticais por viatura semicolectiva e valores que poderiam atingir 141 mil Meticais para autocarros de maior capacidade

Em Junho, o Ministério dos Transportes e Logística anunciou ter pago mais de 110 milhões de Meticais a 2.362 operadores do Grande Maputo.

A distribuição incluiu 1.487 viaturas com capacidade entre 15 e 25 passageiros, que receberam mais de 52 milhões de Meticais, e 731 veículos de 26 a 35 lugares, contemplados com quase 40 milhões.

Foram igualmente abrangidos 40 meios com lotação entre 31 e 85 passageiros, 93 autocarros e três veículos articulados. O Executivo afirmou ter disponibilizado 144 milhões de Meticais para financiar o primeiro mês do programa na região metropolitana. 

O Governo declarou, na altura, que tinha processado os pagamentos para a totalidade dos transportadores constantes da base de dados submetida pela FEMATRO.

Esta afirmação não é necessariamente incompatível com as reclamações posteriores. O problema parece estar na diferença entre os operadores incluídos na primeira base validada e o universo mais amplo que foi sendo licenciado, regularizado e submetido posteriormente.

Diferença Entre Bases Explica Parte Do Conflito

A FEMATRO estima que o universo de operadores cadastrados ronde entre 3.600 e 3.800 transportadores, acima dos 2.362 incluídos na base inicialmente paga.

Segundo o porta-voz da federação, Jorge Manhiça, os novos operadores licenciados não entram automaticamente no sistema de compensações. Os seus documentos devem ser verificados, integrados nas listas das associações, validados pela FEMATRO e encaminhados à AMT para processamento. 

A diferença entre as duas bases ultrapassa mil operadores. Isto não demonstra, por si só, que todos estejam injustamente privados do pagamento. Parte poderá ter concluído o licenciamento depois do primeiro processamento, submetido documentos fora do prazo ou apresentado processos ainda sujeitos a verificação.

Mostra, porém, que a expressão “não existe exclusão” precisa de ser interpretada com precisão.

Pode não existir exclusão deliberada entre os operadores que cumprem todos os requisitos e já foram integrados na base final. Mas permanece uma exclusão operacional temporária para quem trabalha, suporta os custos do combustível e ainda aguarda a conclusão do circuito administrativo.

Para o transportador, a distinção entre exclusão formal e atraso de cadastro produz pouca diferença financeira enquanto o pagamento não entra na conta.

Licenciamento Não Produz Pagamento Automático

O Município de Maputo iniciou um processo de licenciamento gratuito dos transportadores semicolectivos, procurando formalizar operadores e permitir o seu acesso às compensações.

A autarquia esclareceu, no entanto, que a sua responsabilidade termina no licenciamento e no envio das bases de dados. O processamento e o pagamento são atribuídos à AMT, enquanto as associações e a FEMATRO participam na organização e validação dos processos. 

Esta cadeia envolve, portanto, pelo menos cinco intervenientes: operador, associação, FEMATRO, município e AMT, além do Ministério dos Transportes e Logística enquanto entidade política e financeira.

Quanto maior for o número de entidades, maior será a necessidade de uma plataforma comum, com dados actualizados, responsabilidades claras e possibilidade de acompanhamento do processo pelo beneficiário.

Sem esse sistema, um operador pode ser licenciado pelo município, constar da lista da associação e, ainda assim, não saber se o seu processo já foi validado, remetido, aprovado ou devolvido para correcção.

A regularização documental não deve terminar num processo físico ou numa folha de cálculo isolada. Precisa de produzir um número de referência através do qual o operador consiga acompanhar o estado da candidatura e identificar concretamente a pendência existente.

Paralisação Expôs O Custo Da Falha Administrativa

A paralisação parcial de segunda-feira afectou diversas rotas de Maputo e Matola, obrigando passageiros a recorrer a táxis por aplicativo, mototáxis e txopelas a preços consideravelmente superiores aos do transporte semicolectivo.

Segundo o jornal Evidências, algumas viagens alternativas chegaram a custar entre 350 e 700 Meticais, num contexto em que a frota municipal foi reforçada, mas se mostrou insuficiente para responder à procura. 

A FEMATRO afirmou não ter convocado a paralisação e considerou-a injustificada, alegando que os pagamentos estavam a ser regularizados. A federação reconheceu, contudo, atrasos no pagamento correspondente a Junho e advertiu que, se a compensação não for efectuada dentro dos prazos, poderá voltar a discutir o reajuste tarifário. 

O episódio demonstra que a compensação não é apenas uma relação financeira entre o Governo e os proprietários das viaturas.

Quando o pagamento falha, o impacto é transmitido aos trabalhadores que chegam atrasados, estudantes que não alcançam as escolas, pacientes que perdem consultas e pequenos comerciantes que enfrentam maiores custos de deslocação.

A previsibilidade do desembolso constitui, assim, uma condição da mobilidade urbana.

Tarifas Avançam Em Algumas Jurisdições

O modelo de compensação também não possui aplicação uniforme em todo o País.

Quando anunciou o primeiro pagamento, o Ministério dos Transportes e Logística revelou que Xai-Xai, Inhambane e Chimoio tinham optado por não aderir ao mecanismo, preferindo ajustar as tarifas como resposta ao aumento dos custos operacionais. 

Esta quarta-feira, 29 de Julho, a Assembleia Municipal de Marracuene aprovou um novo esquema tarifário para transportes semicolectivos e autocarros municipais.

A tarifa mínima foi fixada em 18 Meticais, enquanto os trajectos mais longos poderão custar 34 Meticais. A autarquia enquadrou a decisão num processo de concertação com os operadores, destinado a assegurar maior eficiência e fiabilidade do serviço.

A decisão de Marracuene não confirma, por si só, que os seus operadores estejam totalmente fora das compensações. Mostra, contudo, que o reajuste tarifário continua a ser utilizado paralelamente às transferências públicas.

O País começa, deste modo, a apresentar modelos diferentes: municípios que adoptam novas tarifas, localidades abrangidas por compensações e operadores que, mesmo em zonas cobertas, aguardam integração nas bases de pagamento.

Esta fragmentação pode produzir diferenças significativas no preço da mobilidade entre territórios e dificultar a gestão das rotas intermunicipais.

Compensar Ou Reajustar São Escolhas Com Custos Diferentes

A compensação procura proteger o passageiro de uma subida imediata da tarifa, transferindo para o Orçamento Público parte do aumento dos combustíveis.

O benefício social é directo: famílias de baixo rendimento preservam, temporariamente, o custo das deslocações.

Contudo, o modelo cria três exigências permanentes. Primeiro, o Estado deve assegurar recursos suficientes. Segundo, os pagamentos precisam de ocorrer em datas previsíveis. Terceiro, a base de beneficiários deve acompanhar continuamente a entrada e saída de operadores.

Quando estes elementos falham, a tarifa permanece administrativamente congelada, mas o custo do serviço continua a aumentar. O transportador absorve a diferença até ao momento em que reduz a circulação, degrada a manutenção da viatura ou pressiona por um reajuste.

A subida tarifária transfere imediatamente o custo para o passageiro, reduzindo a pressão fiscal e a dependência do operador em relação ao Estado. Porém, pode diminuir a capacidade de mobilidade dos agregados familiares e aumentar o custo de acesso ao emprego, educação e saúde.

Nenhuma das duas opções é gratuita. A escolha exige clareza sobre quem suporta o custo, durante quanto tempo e mediante quais contrapartidas.

Mecanismo Precisa De Um Quadro Público De Execução

A estabilidade do programa beneficiaria da publicação regular de um quadro com o número de operadores licenciados, processos recebidos, candidaturas validadas, pagamentos concluídos e casos pendentes.

O mesmo quadro deveria indicar o valor desembolsado por período, categoria de viatura e município, assim como as razões mais frequentes para a não aprovação.

A actualização permitiria distinguir atraso do Estado, falha de documentação, duplicação de registos, viaturas inactivas e novos operadores ainda não incorporados.

Também reduziria o espaço para versões contraditórias. O Governo poderia demonstrar os pagamentos realizados; a FEMATRO acompanharia as listas remetidas; e os transportadores saberiam exactamente onde se encontra cada processo.

A fiscalização da circulação, já iniciada pela AMT, deveria ser ligada a indicadores de serviço: número de dias de operação, rotas cobertas, horários, lotação autorizada e reclamações dos passageiros.

A Regularização Precisa De Produzir Previsibilidade

A declaração da FEMATRO de que não existe exclusão ajuda a esclarecer que a elegibilidade permanece aberta aos operadores legalizados e documentalmente regulares.

As actualizações mais recentes mostram, porém, que o problema se deslocou para a velocidade de integração dos processos, a diferença entre bases de dados e a regularidade dos pagamentos.

A promessa governamental de concluir a regularização até sexta-feira poderá reduzir a tensão imediata. Mas a sustentabilidade do mecanismo exige que a próxima compensação não volte a depender de paralisações, reclamações públicas ou reconciliações extraordinárias de listas.

O sector necessita de um calendário fixo, cadastro único e informação verificável.

Sem esses instrumentos, a compensação continuará a funcionar como resposta de emergência ao preço dos combustíveis, em vez de se consolidar como um mecanismo previsível de política pública para preservar a mobilidade urbana.