
Moçambique Tem Potencial, Mas A “Complicometria” Continua A Travar O Investimento
Na XXI Conferência Anual do Sector Privado, Onório Manuel deslocou o debate das potencialidades para a capacidade de execução. A sua mensagem foi que Governo e empresas conhecem os recursos e as oportunidades do País, mas continuam separados pela questão fundamental: por que razão tanta riqueza ainda não produz desenvolvimento proporcional? A resposta passa por redefinir responsabilidades, reduzir burocracia e custos, garantir estabilidade e permitir que o sector privado transforme investimento em produção, emprego, inovação e receitas fiscais.
- O Governo deve concentrar-se em criar confiança, garantir estabilidade, remover obstáculos, promover concorrência e facilitar o investimento.
- Ao sector privado cabe transformar essas condições em riqueza, emprego, inovação, produção e receitas fiscais.
- Burocracia excessiva, custos elevados, infra-estruturas deficientes, falta de divisas, baixa produtividade e crédito limitado continuam a reduzir o investimento.
- O crédito ao sector privado permanece próximo de 16% do PIB, enquanto a Prime Rate se mantém em 15,50%, antes dos spreads bancários.
- A resposta estrutural exige estabilidade macroeconómica, agricultura produtiva, industrialização, conteúdo local efectivo, capital humano, energia competitiva, turismo e infra-estruturas eficientes.
Moçambique não enfrenta um problema de desconhecimento das suas potencialidades. Os recursos naturais, a posição estratégica, os corredores logísticos, o potencial energético, a terra arável e a população jovem são amplamente reconhecidos pelo Governo, pelo sector privado e pelos parceiros internacionais.
O problema é outro: por que razão essas vantagens ainda não se traduziram num processo suficientemente amplo de industrialização, diversificação produtiva, criação de emprego, aumento das exportações e melhoria sustentada das condições de vida?
Foi a partir desta questão que Onório Manuel estruturou a sua apresentação na XXI Conferência Anual do Sector Privado, realizada em Maputo. Em vez de voltar a enumerar oportunidades, procurou identificar o mecanismo institucional que separa o potencial dos resultados.
“Não vou falar das potencialidades, das oportunidades que Moçambique dispõe, porque tenho a plena certeza de que todos nós sabemos disso”, afirmou. “Não há divergência absolutamente nenhuma entre o Governo e o sector privado sobre as potencialidades de Moçambique.”
A divergência, acrescentou, surge quando se procura explicar por que razão, “mesmo com tanta riqueza”, o País ainda não alcançou o nível de desenvolvimento correspondente aos recursos de que dispõe.
A intervenção introduziu uma leitura simples, mas economicamente importante: Governo e sector privado partilham o mesmo objectivo de desenvolvimento, mas não possuem a mesma função.
O Estado deve criar as condições institucionais, macroeconómicas e regulatórias que permitam o investimento. As empresas devem utilizar essas condições para produzir, inovar, contratar trabalhadores, competir, exportar e pagar impostos.
Quando esta divisão de responsabilidades é confundida, o Estado tende a interferir excessivamente na actividade produtiva, enquanto as empresas passam a depender de protecção, privilégios ou relações administrativas. O resultado é uma economia com pouca concorrência, reduzida produtividade e limitada capacidade de transformação.
O Estado Não Pode Ser Árbitro E Jogador
Onório Manuel retomou uma formulação utilizada pelo Presidente da República durante a Conferência: o Governo não pode ser “jogador com o apito na boca”.
A metáfora sintetiza um dos problemas centrais da organização económica. O Estado define as regras, fiscaliza o seu cumprimento, concede licenças, cobra impostos, adjudica contratos e, em determinados sectores, participa directamente através de empresas públicas.
Esta acumulação de funções pode gerar conflitos de interesse quando uma instituição pública regula um mercado no qual outra entidade estatal também concorre.
Um árbitro económico credível deve aplicar as mesmas regras aos operadores públicos e privados, impedir práticas anticoncorrenciais, proteger consumidores e assegurar que as decisões administrativas não favoreçam empresas específicas.
Isso não significa retirar completamente o Estado da economia. Existem sectores estratégicos, infra-estruturas essenciais e falhas de mercado que justificam participação pública.
Significa, porém, separar claramente as funções de formulação de políticas, regulação, fiscalização e operação empresarial.
Quando o Estado participa directamente no mercado, deve fazê-lo sob regras transparentes, sem acesso privilegiado a contratos, crédito, garantias ou informação que distorça a concorrência.
A competitividade depende não apenas da existência de empresas, mas da qualidade do campo em que concorrem.
Um Contrato De Responsabilidades Entre Governo E Empresas
A apresentação estabeleceu uma divisão funcional bastante clara.
“Esperamos que o Governo crie confiança, garanta estabilidade e, acima de tudo, remova os obstáculos, promova concorrência e facilite investimento”, declarou Onório Manuel.
Ao sector privado, acrescentou, cabe “criar riqueza, emprego, inovação e receitas fiscais”.
Esta formulação pode ser interpretada como um contrato económico entre o Estado e as empresas.
A responsabilidade pública começa pela estabilidade. Empresas não conseguem realizar investimentos de longo prazo quando enfrentam inflação imprevisível, acesso incerto a moeda externa, alterações frequentes das regras ou dúvidas sobre a capacidade do Estado de cumprir contratos e pagar fornecedores.
A segunda responsabilidade é a remoção de obstáculos. Isso inclui reduzir exigências redundantes, coordenar instituições, digitalizar processos, simplificar licenças e tornar os prazos administrativos verificáveis.
A terceira é a promoção da concorrência. Um ambiente empresarial favorável não é aquele em que todas as empresas são protegidas, mas aquele em que operadores eficientes conseguem entrar, crescer e disputar mercados em condições justas.
O sector privado, por sua vez, não pode limitar-se a solicitar incentivos, protecção e financiamento público. Deve demonstrar capacidade para investir, aumentar produtividade, cumprir obrigações fiscais, respeitar trabalhadores, inovar e competir.
O desenvolvimento liderado pelas empresas exige, assim, compromissos recíprocos. O Governo não deve complicar a produção; as empresas não devem transformar o diálogo público-privado num mecanismo de procura de privilégios.
A “Complicometria” Como Custo Económico
O momento mais expressivo da apresentação ocorreu quando Onório Manuel recuperou o conceito de “complicómetro”, utilizado anteriormente pelo Presidente da República para descrever a tendência de criar obstáculos administrativos.
Segundo o orador, a pesquisa posterior mostrou que existe até uma espécie de “complicometria”, na qual alguns funcionários se destacariam pela capacidade de tornar os procedimentos mais difíceis.
“Nós não viemos aqui para reclamar, viemos aqui propor soluções”, ressalvou. Mas defendeu que esta cultura administrativa deve ser “extinta de uma vez por todas”.
A expressão é humorística, mas descreve um custo económico concreto.
A burocracia não é composta apenas pelo número de formulários ou documentos exigidos. Inclui o tempo gasto, as deslocações, a incerteza sobre os procedimentos, as interpretações divergentes e a necessidade de obter autorizações sucessivas de instituições que nem sempre partilham informação.
Cada dia adicional necessário para obter uma licença representa capital imobilizado. Cada exigência duplicada aumenta os custos administrativos. Cada decisão sem prazo acrescenta risco ao projecto.
Em empresas de grande dimensão, estes custos podem ser absorvidos por departamentos jurídicos e administrativos. Nas pequenas e médias empresas, recaem directamente sobre o proprietário ou gestor, retirando tempo à produção, às vendas, à inovação e à gestão financeira.
A burocracia excessiva também cria desigualdades. Empresas com maior dimensão, influência ou acesso institucional conseguem navegar melhor pelo sistema. Os pequenos operadores enfrentam mais atrasos e custos proporcionais superiores.
Deste modo, a “complicometria” pode funcionar como uma barreira à entrada, proteger empresas estabelecidas e limitar a concorrência.
Nem Toda A Regulação É Um Obstáculo
Uma leitura crítica exige, contudo, distinguir burocracia desnecessária de regulação indispensável.
Licenças ambientais, normas de segurança, obrigações laborais, padrões sanitários e controlos tributários desempenham funções económicas e sociais importantes. Protegem trabalhadores, consumidores, recursos naturais e a concorrência leal.
O problema não é a existência de regras, mas a má qualidade da regulação.
Uma regra torna-se contraproducente quando não responde a um risco claramente identificado, duplica controlos já realizados, impõe custos desproporcionais ou permite interpretações arbitrárias.
A solução não deve ser simplesmente eliminar procedimentos. Deve substituí-los por uma regulação mais inteligente, proporcional e baseada no risco.
Actividades de baixo risco podem beneficiar de licenciamento simplificado ou declarações electrónicas. Sectores de maior risco ambiental, financeiro ou sanitário precisam de controlo mais rigoroso.
A Inspecção Única das Actividades Económicas poderá reduzir sobreposições, desde que não se limite a reunir várias inspecções numa única instituição sem simplificar os critérios, os calendários e as responsabilidades.
O verdadeiro indicador de reforma não será o número de organismos reorganizados, mas a redução do tempo, dos custos e da incerteza enfrentados pelas empresas.
Os Obstáculos Formam Um Sistema
Onório Manuel identificou seis constrangimentos principais: burocracia excessiva, custos elevados de produção, infra-estruturas deficientes, escassez de divisas, baixa produtividade e dificuldade de acesso ao financiamento.
Estes problemas não actuam isoladamente. Reforçam-se mutuamente.
Uma empresa com acesso limitado ao crédito tem dificuldade em investir em equipamentos que aumentariam a produtividade. A baixa produtividade eleva os custos unitários e reduz a capacidade de competir. A falta de competitividade limita as exportações. Menos exportações significam menor geração de divisas. A escassez de moeda externa dificulta a importação de máquinas, matérias-primas e tecnologias necessárias para elevar a produtividade.
A burocracia prolonga este ciclo ao atrasar investimentos e aumentar os custos. Infra-estruturas deficientes encarecem a energia, o transporte e a logística. Os custos adicionais reduzem margens e tornam as empresas menos bancáveis.
Esta interdependência explica por que razão reformas isoladas frequentemente produzem resultados abaixo do esperado.
Reduzir uma taxa não resolve a falta de financiamento. Criar uma linha de crédito não é suficiente quando as empresas não dispõem de energia fiável. Construir uma estrada pode ter impacto limitado se os procedimentos aduaneiros continuarem lentos.
A competitividade é sistémica. Depende da combinação entre instituições, financiamento, infra-estruturas, competências e mercados.
Crédito Reduzido Para Uma Economia Que Quer Ser Produtiva
O financiamento continua a representar um dos maiores limites à transformação empresarial.
Segundo o Banco Mundial, o crédito ao sector privado permanece próximo de 16% do Produto Interno Bruto, reflectindo o custo elevado do financiamento e a concorrência exercida pelo endividamento público sobre a liquidez do sistema bancário.
A Prime Rate do sistema financeiro moçambicano permanece em 15,50% em Julho. A esta taxa são adicionados os spreads definidos pelos bancos de acordo com o risco de cada cliente e operação, levando o custo efectivo dos empréstimos empresariais para níveis significativamente superiores.
Neste contexto, empresas que pretendem adquirir equipamentos, construir unidades industriais ou financiar capital circulante enfrentam custos difíceis de compatibilizar com as margens de muitos sectores produtivos.
O problema é particularmente grave na agricultura e na indústria, onde os investimentos possuem períodos mais longos de recuperação.
Um comerciante pode completar vários ciclos de compra e venda durante o prazo de um empréstimo. Um agricultor depende da campanha, do clima e da colheita. Uma fábrica precisa de instalar equipamentos, formar trabalhadores, testar a produção e construir mercados antes de gerar retorno suficiente.
O sistema financeiro tende, por isso, a favorecer operações de prazo mais curto e risco mais facilmente mensurável, deixando sectores estratégicos com financiamento insuficiente.
A criação de um Banco de Desenvolvimento poderá preencher parte desta lacuna, mas apenas se possuir governação robusta, capacidade técnica e critérios rigorosos de viabilidade.
Crédito barato concedido a projectos inviáveis não gera desenvolvimento. Produz incumprimento, perdas públicas e novas restrições fiscais.
Divisas Para Produzir, Não Apenas Para Consumir
A apresentação estabeleceu igualmente uma distinção importante sobre o acesso a moeda externa.
Onório Manuel defendeu maior disponibilidade de divisas não para importar indiscriminadamente bens manufacturados, mas para adquirir bens de capital e bens intermédios — equipamentos e matérias-primas necessários à produção.
Esta prioridade económica é compreensível.
Quando a moeda externa é escassa, a sua utilização possui um custo de oportunidade. Cada dólar utilizado numa determinada importação deixa de estar disponível para outra.
A aquisição de máquinas, peças e insumos pode aumentar a capacidade futura de produção e gerar receitas. A importação de determinados bens finais satisfaz consumo imediato, mas nem sempre amplia a base produtiva.
Todavia, a gestão administrativa das divisas precisa de ser tratada com prudência. Sistemas rígidos de priorização podem criar discricionariedade, atrasos e oportunidades para favorecimento.
A solução estrutural continua a ser gerar mais moeda externa através de exportações, turismo, investimento directo, remessas e serviços regionais.
O Fundo Monetário Internacional advertiu, em Junho, que a persistência das restrições cambiais continua a afectar as importações e a actividade económica em Moçambique.
Sem aumento da capacidade exportadora, qualquer mecanismo de distribuição das divisas continuará a administrar escassez, em vez de resolver a sua origem.
Menos Custos, Mais Investimento E Uma Base Fiscal Maior
A apresentação de Onório Manuel estabelece uma cadeia lógica: menos burocracia, energia mais acessível, maior disponibilidade de divisas, melhores condições logísticas, financiamento adequado e menor incerteza devem produzir custos inferiores, maior competitividade, mais investimento, emprego e receitas fiscais.
Esta relação é central para a sustentabilidade das finanças públicas.
Aumentar taxas sobre uma base empresarial pequena pode elevar receitas no curto prazo, mas também reduzir o investimento, incentivar a informalidade e limitar o crescimento futuro da arrecadação.
Em contraste, uma economia com mais empresas produtivas, trabalhadores formais, exportações e lucros possui uma base fiscal mais ampla.
O Estado enfrenta, contudo, um dilema: precisa de receitas para financiar infra-estruturas e serviços que apoiam a actividade económica, mas não deve extrair recursos a um nível que impeça as empresas de crescer.
A solução passa por melhorar a eficiência da despesa, simplificar o sistema tributário, reduzir evasão, alargar a formalização e concentrar a cobrança em impostos transparentes, evitando uma proliferação de pequenas taxas administrativas.
O crescimento do sector privado não é uma alternativa à arrecadação fiscal. É a condição para tornar essa arrecadação mais ampla e sustentável.
Nove Pilares Para Transformar Potencial Em Capacidade
Na parte final da apresentação, Onório Manuel organizou a agenda de reformas em nove áreas: estabilidade macroeconómica; ambiente de negócios; agricultura produtiva; industrialização e transformação local; conteúdo local; capital humano; energia; turismo; e infra-estruturas competitivas.
A estabilidade macroeconómica é a base. Inflação, dívida pública, défice fiscal e acesso a divisas determinam o nível de confiança e o custo do investimento.
O ambiente de negócios define o tempo e a complexidade necessários para transformar uma ideia num projecto operacional.
A agricultura produtiva é essencial para reduzir pobreza, aumentar rendimentos rurais, estabilizar os preços dos alimentos e fornecer matérias-primas à indústria.
A industrialização converte produção primária em bens de maior valor, amplia o emprego e reduz a dependência de exportações não processadas.
O conteúdo local procura assegurar que os grandes investimentos criem ligações com empresas, trabalhadores e instituições nacionais.
O capital humano determina se os moçambicanos conseguem ocupar postos qualificados, gerir empresas, absorver tecnologia e inovar.
A energia influencia praticamente todos os sectores produtivos, enquanto o turismo transforma recursos ambientais e culturais em receitas, emprego e entrada de divisas.
As infra-estruturas ligam todas estas dimensões, permitindo que pessoas, mercadorias, energia e informação circulem com eficiência.
O valor desta agenda está na sua complementaridade. Nenhum destes pilares, isoladamente, será suficiente para alterar a trajectória económica.
Estabilidade Macroeconómica Sem Estrangular A Produção
A prudência fiscal e o controlo da dívida foram colocados entre as primeiras prioridades.
A economia moçambicana contraiu 0,5% em 2025, segundo o Banco Mundial. O crédito ao sector privado diminuiu de 19,3% do PIB, em Novembro de 2023, para 16,5% em Novembro de 2025, enquanto a redução da despesa pública atingiu especialmente o investimento e outros gastos favoráveis ao crescimento.
Estabilizar as contas públicas é necessário para reduzir os riscos de dívida, recuperar confiança e libertar financiamento para as empresas.
Mas a consolidação fiscal não deve depender exclusivamente de cortes no investimento produtivo ou do aumento de encargos sobre um sector privado já fragilizado.
A qualidade do ajustamento é tão importante quanto o valor do défice.
Reduzir despesas improdutivas, melhorar a contratação pública, controlar riscos das empresas estatais e seleccionar projectos com maior retorno económico pode proteger a estabilidade sem destruir a capacidade futura de crescimento.
Uma consolidação que elimina infra-estruturas, educação técnica e manutenção pública pode melhorar temporariamente os indicadores fiscais, mas enfraquecer a produtividade e as receitas futuras.
Agricultura Produtiva Como Base Da Industrialização
A defesa de uma agricultura mais produtiva liga-se directamente à agenda de industrialização.
A produção agrícola não deve ser tratada apenas como política social ou de segurança alimentar. É também a base potencial de indústrias de processamento, embalagem, conservação, logística e exportação.
Uma agricultura de baixa produtividade produz volumes irregulares, qualidade inconsistente e custos unitários elevados. Isso dificulta o funcionamento das fábricas, que precisam de matérias-primas em quantidade, qualidade e calendários previsíveis.
Mecanização, irrigação, sementes, extensão, armazenamento, estradas rurais e financiamento devem ser articulados com compradores e unidades de transformação.
Construir uma fábrica sem assegurar matéria-prima gera capacidade ociosa. Aumentar a produção sem mercado conduz a perdas e queda dos preços pagos aos agricultores.
A política produtiva precisa de organizar toda a cadeia, da produção ao consumidor.
Industrialização Não Se Faz Por Decreto
“Não existe no mundo sequer uma nação desenvolvida que não seja com um sector industrial forte”, afirmou Onório Manuel.
A industrialização aumenta produtividade, gera emprego mais especializado, estimula serviços e permite que o País retenha maior parcela do valor dos seus recursos.
Todavia, não resulta apenas de proibições à exportação de matérias-primas ou de exigências administrativas de processamento local.
Uma indústria precisa de energia, água, logística, financiamento, mão-de-obra, tecnologia e mercados. Se estes factores forem demasiado caros, a obrigação de transformar localmente pode criar unidades pouco competitivas ou afastar investimentos.
A política industrial deve identificar sectores em que Moçambique dispõe de matéria-prima, acesso a energia, procura regional e possibilidade real de desenvolver competências.
Agro-processamento, fertilizantes, materiais de construção, produtos florestais, metais, gás e serviços logísticos oferecem diferentes possibilidades, mas exigem estratégias específicas.
A transformação local é um objectivo. A competitividade é a condição para que esse objectivo seja sustentável.
Conteúdo Local Tem De Criar Capacidade, Não Intermediação
A implementação efectiva da Lei do Conteúdo Local foi igualmente destacada.
A legislação pode ampliar a participação de empresas moçambicanas nos grandes projectos, criar emprego e estimular a transferência de competências.
Mas o conteúdo local pode falhar quando é medido apenas pela nacionalidade formal do fornecedor ou pela percentagem contratada.
Uma empresa registada em Moçambique pode limitar-se a intermediar bens e serviços importados, sem produção, tecnologia ou trabalhadores qualificados no País.
O conteúdo local deve medir valor económico real: salários pagos, equipamentos produzidos, técnicos formados, impostos, tecnologia transferida e capacidade empresarial desenvolvida.
Também deve ser acompanhado por programas de certificação, financiamento e melhoria da gestão. Obrigar grandes projectos a contratar fornecedores que ainda não cumprem padrões técnicos pode aumentar custos sem criar capacidade sustentável.
A lei precisa, assim, de combinar exigência com desenvolvimento empresarial.
Energia: Do Potencial À Vantagem De Custos
Moçambique possui recursos hidroeléctricos, gás natural e elevado potencial solar, mas essa abundância ainda não se converteu plenamente numa vantagem competitiva para as empresas.
Energia disponível não é necessariamente energia acessível, fiável e adequada às necessidades industriais.
Empresas consideram o preço da electricidade, a frequência das interrupções, o custo das ligações, a qualidade da rede e a capacidade de obter potência suficiente.
Uma indústria que enfrenta falhas recorrentes precisa de geradores, combustível e manutenção, aumentando o custo efectivo muito além da tarifa eléctrica.
Transformar Moçambique num centro energético regional deve significar não apenas exportar electricidade ou gás, mas utilizar parte desses recursos para desenvolver indústria, agricultura, logística e serviços nacionais.
A vantagem energética só existe economicamente quando reduz o custo de produzir no País.
Turismo Precisa De Competir Pela Facilidade
No turismo, Onório Manuel defendeu reformas na acessibilidade dos visitantes e investidores, incluindo taxas de vistos e facilitação administrativa.
Moçambique compete com vários destinos regionais que oferecem praias, vida selvagem, património cultural e experiências semelhantes.
A decisão do visitante depende da conectividade aérea, custo da viagem, facilidade do visto, segurança, qualidade dos serviços e possibilidade de circular entre diferentes destinos.
Um recurso natural excepcional pode perder competitividade quando é difícil ou caro chegar até ele.
A facilitação deve, contudo, ser acompanhada por infra-estruturas, formação profissional, promoção internacional e integração das comunidades locais nas cadeias de abastecimento.
O turismo produz maior impacto quando compra alimentos nacionais, contrata trabalhadores locais, utiliza transportadores, artesãos e prestadores de serviços moçambicanos.
Reformas Que Doem Também Precisam De Legitimidade
Onório Manuel encorajou a continuidade da abordagem reformista do Governo, recordando que “reformas que não doem não mudam nada”.
A afirmação reconhece que reformas estruturais criam custos de transição e afectam interesses instalados.
Eliminar benefícios, reorganizar instituições, aumentar concorrência ou exigir maior transparência pode produzir resistência.
Mas o facto de uma reforma gerar oposição não demonstra automaticamente que seja correcta.
Reformas economicamente sólidas precisam de diagnóstico, consulta, avaliação de impacto, transparência e mecanismos para proteger os grupos vulneráveis.
O custo deve ser proporcional ao benefício esperado e distribuído de forma justa.
Uma reforma que impõe custos imediatos às empresas e às famílias, mas cujos ganhos permanecem incertos ou capturados por poucos operadores, pode destruir confiança.
A legitimidade reformista depende de explicar a necessidade, publicar os objectivos, acompanhar resultados e corrigir efeitos não previstos.
A Próxima CASP Deve Medir A Redução Da “Complicometria”
A metáfora apresentada por Onório Manuel pode ser convertida numa agenda concreta de monitoria.
Cada procedimento empresarial poderia ser medido pelo número de documentos exigidos, instituições envolvidas, custo, duração média e percentagem de processos concluídos dentro do prazo.
A evolução desses indicadores permitiria verificar se a burocracia está efectivamente a diminuir.
A próxima CASP deveria avaliar quanto tempo passou a ser necessário para abrir uma empresa, obter uma licença, ligar uma unidade à rede eléctrica, despachar uma mercadoria, receber um reembolso fiscal ou resolver um litígio comercial.
Deveria também medir a disponibilidade de crédito, o custo da energia, os atrasos nos pagamentos públicos e o acesso efectivo a divisas.
Sem métricas, o Governo poderá anunciar simplificação enquanto as empresas continuam a enfrentar os mesmos obstáculos.
O “complicómetro” precisa de deixar de ser apenas uma expressão política e transformar-se num painel de desempenho do ambiente de negócios.
O Potencial Só Conta Quando Se Torna Produtividade
A principal contribuição da apresentação de Onório Manuel foi mudar o ponto de partida do debate.
Moçambique não precisa de continuar a provar que possui potencial. Precisa de demonstrar que consegue transformar recursos em produtividade, empresas competitivas, exportações, salários e receitas públicas.
Para isso, o Governo deve concentrar-se na confiança, estabilidade, concorrência, infra-estruturas e simplificação. O sector privado deve responder com investimento, inovação, formalização e desempenho.
Quando o Governo cria um ambiente favorável, afirmou Onório Manuel, “as empresas focam-se em investir”. E, quando isso acontece, criam-se empregos, aumenta-se a produção, geram-se receitas fiscais e impulsiona-se o desenvolvimento.
A relação não é automática. Um ambiente favorável é necessário, mas precisa de ser acompanhado por empresas capazes, instituições financeiras funcionais, trabalhadores qualificados e mercados concorrenciais.
O País não desenvolverá apenas porque possui gás, minerais, terra, energia ou corredores. Desenvolverá quando esses activos forem organizados através de instituições que reduzam custos e permitam que o investimento produza valor.
A “complicometria” representa precisamente o contrário: instituições que consomem tempo e recursos sem ampliar a capacidade produtiva.
Extingui-la não significa retirar o Estado. Significa construir um Estado mais competente, previsível e focado em resultados.
Esse poderá ser o verdadeiro contrato de desenvolvimento entre o Governo e as empresas: o primeiro deixa de complicar e passa a facilitar; o segundo deixa de depender e passa a produzir.
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