Mozal Entra Em Hibernação Industrial E Reabre Debate Estrutural Sobre Energia E Competitividade

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Divergência sobre tarifa de mercado da energia leva à suspensão da maior fundição do país e reabre debate sobre equilíbrio entre política industrial e sustentabilidade do sector eléctrico.

Questões-Chave:

  • Mais de mil trabalhadores abrangidos por despedimento colectivo;
  • Suspensão da produção a partir de 15 de Março de 2026;
  • Divergência centra-se na aceitação de tarifa alinhada com preço de mercado;
  • Mozal representa cerca de 3% do PIB nacional;
  • Debate opõe competitividade industrial e sustentabilidade financeira da HCB.

A Mozal confirmou o início de um despedimento colectivo que deverá abranger mais de mil trabalhadores, na sequência da decisão de suspender as operações da fundição de alumínio a partir de 15 de Março de 2026 . A empresa avançará para o regime de “care and maintenance”, preservando os activos para eventual reactivação futura, embora sublinhe que tal dependerá da viabilidade económica em novas condições de mercado .

A decisão marca um momento de inflexão para a maior unidade transformadora do país e reacende um debate estrutural sobre o modelo energético e industrial moçambicano.

O Impasse Tarifário No Centro Da Decisão

Importa clarificar que a suspensão não decorre de escassez de energia ou fragilidade estrutural do sistema eléctrico regional. A divergência central reside na aceitação, por parte da Mozal, de tarifas alinhadas com o valor de mercado actualmente praticado, após o termo do contrato histórico preferencial que sustentava a competitividade da fundição.

Segundo informação apurada, a empresa não se mostrou disponível para operar com preços que reflectem as novas condições comerciais. O ponto de fricção não é a inexistência de energia, mas o custo da mesma em ambiente de mercado.

Esta nuance altera substancialmente o enquadramento do caso. A discussão desloca-se da ideia de “crise energética” para uma questão de racionalidade económica e sustentabilidade financeira do sector eléctrico.

HCB: Sustentabilidade Como Imperativo Estratégico

A Hidroeléctrica de Cahora Bassa constitui activo estratégico nacional, com responsabilidades financeiras, compromissos contratuais e necessidade de garantir equilíbrio económico de longo prazo. A venda de energia abaixo do valor de mercado implicaria impacto directo nas receitas da empresa, na sua capacidade de investimento e na robustez do sistema eléctrico nacional.

Num contexto em que o país necessita expandir infra-estruturas de transmissão, reforçar electrificação e garantir estabilidade financeira do sector, a subsidiação indirecta de um consumidor industrial específico levanta questões de equidade e sustentabilidade.

A preservação de postos de trabalho, embora socialmente relevante, não pode sobrepor-se ao custo estrutural de desequilibrar o funcionamento da principal produtora de energia do país.

Peso Económico E Efeito Multiplicador

A Mozal representa cerca de 3% do Produto Interno Bruto nacional e sustenta um vasto ecossistema industrial e logístico. O Porto da Matola opera terminal dedicado ao alumínio, e centenas de empresas subcontratadas fornecem serviços de manutenção, transporte, segurança e apoio técnico.

O despedimento colectivo terá impacto directo superior a mil trabalhadores , mas os efeitos indirectos poderão ser significativamente mais amplos. A suspensão de investimentos de capital já levou à interrupção de contratos com fornecedores, afectando pequenas e médias empresas inseridas na cadeia de valor.

Do ponto de vista cambial e comercial, a paralisação poderá reduzir temporariamente as exportações industriais associadas ao alumínio, pressionando a balança comercial num momento em que o país procura diversificar fontes de receita externa.

Care And Maintenance: Engenharia De Transição

O regime de “care and maintenance” implica a paragem controlada das cubas de redução e preservação técnica dos equipamentos . Uma equipa reduzida permanecerá responsável pela manutenção preventiva, segurança e cumprimento de obrigações ambientais.

A experiência internacional demonstra que este estado pode prolongar-se por vários anos. Contudo, a reactivação depende de condições económicas favoráveis, nomeadamente preços internacionais do alumínio e estrutura tarifária energética compatível com rentabilidade.

O risco de encerramento definitivo não pode ser excluído caso não surja solução equilibrada no médio prazo.

Entre Política Industrial E Racionalidade Económica

O caso Mozal coloca o país perante uma escolha estratégica. Durante décadas, a industrialização moçambicana beneficiou de contratos energéticos preferenciais que permitiram atrair investimento electro-intensivo. A actual conjuntura questiona a sustentabilidade desse modelo.

Moçambique é exportador de energia, mas enfrenta a necessidade de consolidar financeiramente o seu sector eléctrico. A tensão entre competitividade industrial e equilíbrio tarifário revela-se inevitável.

A fundição entra em hibernação a 15 de Março. O verdadeiro debate, porém, transcende a decisão empresarial. Trata-se de definir que modelo energético e industrial o país pretende adoptar na próxima fase do seu desenvolvimento.

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