
Ouro Caminha Para Terceira Queda Semanal Pressionado Pelo Dólar E Pela Fed
- Metal precioso recuou mais de 1% esta sexta-feira, num contexto de valorização do dólar, expectativas de subida de juros nos Estados Unidos e revisão em baixa das projecções da Goldman Sachs
Questões-Chave
- O ouro seguia em queda de mais de 1% esta sexta-feira, encaminhando-se para a terceira perda semanal consecutiva.
- A valorização do dólar, que atingiu máximos de um ano, tornou o metal mais caro para investidores que usam outras moedas.
- As expectativas de mercado apontam agora para uma probabilidade de 87% de subida das taxas de juro pela Reserva Federal norte-americana em Dezembro.
- A Goldman Sachs reviu em baixa a sua projecção para o ouro em Dezembro, de 5.400 para 4.900 dólares por onça.
- Prata, platina e paládio também seguiam em queda, com todos os metais preciosos a caminho de perdas semanais.
O ouro estava esta sexta-feira a caminho da terceira perda semanal consecutiva, pressionado pela valorização do dólar e pelos sinais mais restritivos da Reserva Federal norte-americana, num movimento que voltou a colocar a política monetária no centro das decisões dos investidores.
Segundo a Reuters, o ouro à vista recuava 1,1%, para 4.163,93 dólares por onça, por volta das 03h38 GMT, acumulando uma queda semanal de 1,3%. Já os futuros do ouro nos Estados Unidos, com entrega em Agosto, caíam 1,5%, para 4.181,20 dólares por onça.
A descida reflecte uma mudança de sentimento nos mercados, depois de o metal precioso ter beneficiado, ainda que por pouco tempo, da redução das tensões geopolíticas associadas ao acordo de paz entre os Estados Unidos e o Irão. O efeito desse alívio acabou por ser rapidamente absorvido pela força do dólar e pela leitura mais agressiva dos sinais vindos da Fed.
Dólar Forte Retira Brilho Ao Ouro
A valorização da moeda norte-americana foi um dos principais factores de pressão sobre o ouro. O dólar subiu para o nível mais elevado em um ano, tornando o metal, cotado em dólares, mais caro para compradores que utilizam outras moedas.
Este efeito é particularmente relevante porque o ouro, apesar de continuar a ser visto como activo de refúgio em períodos de incerteza, tende a perder atractividade quando o dólar se fortalece e quando aumentam as expectativas de juros mais elevados nos Estados Unidos.
Tim Waterer, analista-chefe de mercado da KCM Trade, citado pela Reuters, afirmou que a valorização do ouro após o acordo de paz entre os Estados Unidos e o Irão foi de curta duração. Na sua leitura, o dólar voltou a dominar o comportamento do mercado, impulsionado pelo tom mais duro da Fed sob a liderança de Kevin Warsh.
Para o analista, a postura firme do novo presidente da Reserva Federal neutralizou o impulso geopolítico que favorecia o ouro, recordando aos investidores que, no actual contexto, a política monetária continua a ter maior peso na formação dos preços.
Expectativas De Juros Mais Altos Pesam No Metal
O movimento do ouro reflecte também a alteração das expectativas dos investidores relativamente à trajectória das taxas de juro nos Estados Unidos. De acordo com a Reuters, nove dos 19 responsáveis de política monetária da Fed consideram que será necessário elevar a taxa directora ainda este ano.
Essa leitura reforçou a percepção de que o banco central norte-americano poderá manter uma postura mais restritiva durante mais tempo, sobretudo num contexto em que vários bancos centrais globais estão também a subir os custos de financiamento ou a sinalizar movimentos nesse sentido para conter pressões inflacionistas associadas à guerra no Irão.
Segundo o CME FedWatch Tool, citado pela Reuters, os operadores passaram a atribuir uma probabilidade de 87% a uma subida das taxas de juro nos Estados Unidos em Dezembro, acima dos 61% observados antes da decisão da Fed.
Este ambiente é desfavorável ao ouro porque o metal não oferece rendimento. Quando as taxas de juro sobem, activos remunerados, como obrigações e instrumentos de curto prazo, tornam-se relativamente mais atractivos, reduzindo o apelo do ouro nas carteiras dos investidores.
Goldman Sachs Revê Projecção Em Baixa
A pressão sobre o metal precioso foi reforçada pela revisão das perspectivas da Goldman Sachs. O banco reduziu a sua previsão para o preço do ouro em Dezembro de 5.400 para 4.900 dólares por onça, num cenário em que já não espera cortes de juros pela Fed este ano.
A revisão é relevante porque sinaliza uma mudança de percepção sobre a capacidade do ouro de prolongar ganhos num ambiente de dólar forte e política monetária restritiva. Ainda que o metal mantenha suporte em factores geopolíticos e na procura por activos de reserva, o custo de oportunidade associado às taxas de juro elevadas continua a limitar o potencial de valorização.
A leitura da Goldman Sachs acompanha, assim, uma tendência mais ampla nos mercados: a de que a trajectória do ouro dependerá menos, no curto prazo, dos riscos geopolíticos e mais da orientação da Fed, da evolução do dólar e da persistência das pressões inflacionistas.
Metais Preciosos Recuam Em Bloco
A queda não se limitou ao ouro. Outros metais preciosos também negociavam em terreno negativo, com a prata a cair 2,2%, para 64,36 dólares por onça. A platina recuava 1,9%, para 1.663,03 dólares, enquanto o paládio perdia 1,6%, para 1.258,04 dólares.
Todos estes metais estavam igualmente a caminho de perdas semanais, reflectindo um movimento mais amplo de ajustamento no segmento dos metais preciosos.
A menor actividade nos mercados asiáticos também contribuiu para reduzir a liquidez. Segundo a Reuters, os mercados da China continental e de Hong Kong estiveram encerrados devido ao feriado do Festival do Barco-Dragão, o que limitou a participação de investidores numa sessão já marcada por forte sensibilidade às decisões de política monetária.
Geopolítica Perde Espaço Para A Política Monetária
No plano geopolítico, os investidores continuavam atentos ao desenvolvimento das conversações entre os Estados Unidos e o Irão. A Reuters avançou que o vice-presidente norte-americano JD Vance cancelou uma viagem prevista à Suíça, onde deveria reunir-se com negociadores iranianos para iniciar conversações complexas sobre a implementação de um acordo de 14 pontos entre Teerão e Washington.
Apesar da relevância deste processo, a reacção do mercado sugere que, neste momento, os factores monetários estão a sobrepor-se aos riscos geopolíticos. O ouro, tradicionalmente sensível a períodos de incerteza internacional, está a ser mais condicionado pela expectativa de juros elevados e pela força do dólar.
Para os investidores, o ponto central passa agora por perceber se a Fed manterá o tom restritivo até ao final do ano e se a inflação continuará a justificar novas subidas de juros. Enquanto essa percepção se mantiver, o ouro poderá continuar vulnerável a correcções, mesmo num ambiente internacional ainda marcado por riscos políticos e económicos relevantes.
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