Petróleo Atinge Máximo De Três Semanas Com Impasse No Médio Oriente

0
34
  • O Brent aproximou-se de US$ 93 por barril e acumulou uma quinta sessão consecutiva de ganhos, perante a redução dos fluxos através do Estreito de Ormuz e a ausência de negociações entre os Estados Unidos e o Irão. Os inventários norte-americanos de crude aumentaram, mas as reservas de destilados permanecem 13% abaixo da média dos últimos cinco anos.
Questões-Chave:
  • O Brent para entrega em Outubro subiu 1,3%, para US$ 92,82 por barril;
  • O WTI avançou para US$ 86,75, atingindo igualmente o nível mais elevado em três semanas;
  • Os dois principais indicadores acumulam cinco sessões consecutivas de valorização;
  • Os fluxos de petróleo através do Estreito de Ormuz caíram de 21,6 milhões de barris diários antes da guerra para 4,9 milhões no segundo trimestre;
  • A quebra representa uma redução de aproximadamente 77% no transporte de crude e produtos petrolíferos através da rota;
  • A Agência Internacional de Energia estima que 8,3 milhões de barris diários de produção do Golfo permaneciam interrompidos em Julho;
  • Os inventários norte-americanos de crude aumentaram 4,4 milhões de barris, para 428,8 milhões;
  • As reservas de destilados caíram 1,5 milhão de barris e encontram-se 13% abaixo da média dos últimos cinco anos;
  • A persistência dos preços elevados poderá aumentar os custos dos combustíveis, transportes, produção e importações em Moçambique;

Os preços do petróleo atingiram os níveis mais elevados das últimas três semanas, impulsionados pelo receio de que o impasse na guerra envolvendo o Irão prolongue as interrupções no fornecimento de crude e produtos refinados a partir do Médio Oriente.

Os futuros do Brent para entrega em Outubro subiram US$ 1,20, ou 1,3%, para US$ 92,82 por barril. O West Texas Intermediate, WTI, para Setembro avançou 92 cêntimos, para US$ 86,75, enquanto o contrato mais negociado de Outubro aumentou US$ 1,13, para US$ 85,52.

Os dois indicadores alcançaram os valores mais elevados desde finais de Julho e acumulam cinco sessões consecutivas de ganhos. Na quarta-feira, tinham encerrado no nível mais elevado desde 24 de Julho.

A subida demonstra que o mercado voltou a incorporar um prémio de risco mais elevado, depois de os esforços para pôr fim ao conflito terem permanecido sem progressos e os fluxos marítimos continuarem muito abaixo dos níveis registados antes da guerra.

“Tensões no Médio Oriente permanecem elevadas, deixando espaço para novas interrupções da oferta”, afirmou Giovanni Staunovo, analista do UBS, citado pela Reuters.

Fluxos Por Ormuz Caíram Cerca De 77%

O Estreito de Ormuz constitui o principal factor de risco para o mercado.

Antes da guerra, iniciada com ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão em 28 de Fevereiro, aproximadamente um quinto do consumo mundial de petróleo atravessava diariamente a passagem marítima.

Dados da Energy Information Administration, EIA, indicam que os fluxos de crude e outros líquidos petrolíferos através do estreito atingiam 21,6 milhões de barris diários no quarto trimestre de 2025.

No segundo trimestre de 2026, o volume médio caiu para 4,9 milhões de barris por dia. A redução de 16,7 milhões de barris representa uma quebra de aproximadamente 77% em relação ao período anterior ao conflito.

O estreito liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico. A passagem concentra parte considerável das exportações da Arábia Saudita, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Qatar e Irão.

Em condições normais, Ormuz transporta aproximadamente 25% de todo o petróleo comercializado por via marítima. A rota é também utilizada por cerca de um quinto do comércio mundial de gás natural liquefeito, proveniente sobretudo do Qatar.

A dimensão dos volumes envolvidos significa que mesmo uma interrupção parcial pode alterar o equilíbrio mundial entre oferta e procura.

Rotas Alternativas Cobrem Apenas Parte Da Falta

A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos dispõem de oleodutos capazes de transportar parte do petróleo sem atravessar Ormuz.

A Arábia Saudita tem utilizado o oleoduto Leste-Oeste para deslocar crude até ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho. A mudança contribuiu para elevar o movimento de petróleo através do Estreito de Bab el-Mandeb, outra passagem estratégica para o comércio energético.

Segundo a EIA, os oleodutos sauditas e dos Emirados poderão disponibilizar conjuntamente cerca de 2,6 milhões de barris diários de capacidade adicional para contornar Ormuz.

Este volume representa apenas cerca de 16% dos 16,7 milhões de barris diários retirados da rota entre o quarto trimestre de 2025 e o segundo trimestre de 2026.

A infra-estrutura alternativa pode aliviar parte da interrupção, mas não possui capacidade suficiente para substituir integralmente o estreito. Além disso, o desvio aumenta distâncias, custos de transporte, utilização dos oleodutos e concentração de risco noutras rotas marítimas.

Oferta Mundial Continua Abaixo De 2025

A Agência Internacional de Energia, AIE, estima que a oferta mundial aumentou 2,4 milhões de barris diários em Julho, para 101,5 milhões, apoiada por uma recuperação parcial da produção e dos fluxos do Golfo.

Apesar dessa melhoria, a produção permaneceu 6,3 milhões de barris por dia abaixo do nível observado um ano antes. Cerca de 8,3 milhões de barris diários de capacidade do Golfo continuavam interrompidos.

A AIE reviu em baixa a previsão para a oferta no terceiro trimestre em 1,7 milhão de barris diários, devido à retoma das hostilidades e às perturbações marítimas registadas entre Julho e o início de Agosto.

Para o conjunto de 2026, a agência prevê que a produção mundial recue, em média, 4,3 milhões de barris por dia. Uma recuperação de 8,3 milhões de barris diários é projectada para 2027, para 110,3 milhões, mas depende da normalização dos fluxos e da capacidade dos países do Golfo para retomarem a produção.

As projecções evidenciam a dimensão da interrupção. Mesmo com o aumento da oferta nas Américas e a utilização de reservas estratégicas, o mercado continua sem conseguir substituir integralmente os volumes retirados do Médio Oriente.

Emirados Suspendem Transacções Com Irão

As tensões aumentaram depois de os Emirados Árabes Unidos terem suspendido todas as transacções financeiras e económicas com o Irão até nova indicação.

A medida voltou a colocar em evidência as relações entre Teerão e um dos principais produtores de petróleo do Golfo.

O Presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que não estavam em curso negociações com o Irão e advertiu que qualquer país que prestasse “qualquer tipo de apoio” a Teerão poderia enfrentar consequências económicas.

As declarações aumentam a possibilidade de sanções secundárias ou outras restrições contra países, bancos, transportadores e empresas que mantenham relações económicas com o Irão.

Medidas dessa natureza podem afectar o fornecimento mesmo sem uma interrupção física adicional. Bancos, seguradoras e armadores tendem a evitar transacções que possam expô-los a sanções norte-americanas, reduzindo o número de operadores disponíveis e aumentando os custos de transporte.

Estados Unidos E Irão Divergem Sobre O Estreito

Trump afirmou que o Estreito de Ormuz se encontrava aberto. O Irão, contudo, manteve que a passagem continuava encerrada.

Os dados de navegação mostraram que o movimento de embarcações permaneceu praticamente inalterado entre terça e quarta-feira, num nível muito inferior ao registado antes da guerra.

A divergência demonstra que uma declaração política de abertura não corresponde necessariamente à normalização operacional.

Os armadores avaliam não apenas a existência de uma proibição formal, mas também o risco de ataques, minas, apreensões, danos nas embarcações e indisponibilidade de seguros.

Mesmo que alguns navios atravessem o estreito, o mercado só poderá considerar o fluxo normalizado quando os volumes, seguros, disponibilidade de embarcações e tempos de carregamento regressarem a níveis próximos dos anteriores ao conflito.

Mercado Sobe Sem Nova Escalada De Grande Dimensão

Hiroyuki Kikukawa, estratega-chefe da Nissan Securities Investment, considera que os preços permanecem elevados devido aos ataques esporádicos, embora falte um novo acontecimento de grande escala capaz de acelerar significativamente a subida.

O mercado poderá manter uma trajectória gradual de valorização enquanto persistirem as incertezas sobre as negociações e as tensões entre os Emirados Árabes Unidos, Omã e Irão.

Essa dinâmica reflecte uma situação em que parte relevante do risco já está incorporada nos preços. Para o Brent avançar de forma sustentada muito acima de US$ 93, os operadores poderão exigir evidências de uma nova deterioração dos fluxos, ataques a instalações petrolíferas ou fracasso definitivo dos esforços diplomáticos.

Em sentido contrário, um cessar-fogo credível e a recuperação do transporte através de Ormuz poderiam retirar rapidamente parte do prémio geopolítico.

Inventários De Crude Aumentam Nos Estados Unidos

Os dados norte-americanos introduziram um elemento de moderação no movimento dos preços.

Os inventários comerciais de crude aumentaram inesperadamente 4,4 milhões de barris na última semana, para 428,8 milhões, segundo a EIA. O volume corresponde aproximadamente à média dos últimos cinco anos para esta altura.

As reservas de gasolina aumentaram 700 mil barris, embora permaneçam 5% abaixo da média histórica sazonal. No conjunto, os inventários comerciais de petróleo cresceram 8,8 milhões de barris.

O aumento dos stocks de crude sugere que a disponibilidade imediata nos Estados Unidos não se encontra tão limitada quanto os riscos no Médio Oriente poderiam indicar.

Contudo, os dados norte-americanos não anulam a redução da oferta internacional. Parte da acumulação pode resultar de alterações temporárias nas importações, exportações, utilização das refinarias ou calendário de movimentação dos carregamentos.

Diesel E Outros Destilados Continuam Escassos

A componente mais sensível dos dados da EIA encontra-se nos destilados.

Os inventários de diesel e óleo de aquecimento caíram 1,5 milhão de barris, acumulando a terceira semana consecutiva de redução. As reservas estão 13% abaixo da média dos últimos cinco anos.

O mercado dos destilados está mais apertado porque a guerra afectou simultaneamente o fornecimento de crude às refinarias do Golfo e a exportação de combustíveis já processados.

A AIE estima que o processamento mundial nas refinarias atingiu 80,9 milhões de barris diários em Julho, quase cinco milhões abaixo do nível observado um ano antes.

As interrupções nas exportações do Médio Oriente e os ataques contra refinarias russas levaram a agência a reduzir em 370 mil barris diários a previsão de processamento para o terceiro trimestre.

O resultado é uma pressão adicional sobre diesel, combustível de aviação e outros produtos médios. Para economias importadoras, o preço final poderá subir mais rapidamente do que o próprio crude devido ao aumento das margens de refinação.

Oferta Reduzida Enfrenta Procura Mais Fraca

O mercado petrolífero apresenta uma combinação pouco comum: queda acentuada da oferta e enfraquecimento da procura.

Os preços elevados, a menor disponibilidade de combustíveis e a desaceleração de sectores intensivos em energia estão a reduzir o consumo em diversas regiões.

A AIE estima que a procura mundial poderá cair 1,1 milhão de barris por dia em 2026. As maiores reduções começaram no Médio Oriente e na Ásia-Pacífico, atingindo combustível de aviação, gás de petróleo liquefeito e matérias-primas utilizadas pela indústria petroquímica.

A diminuição da procura ajuda a impedir uma subida ainda mais acentuada dos preços. Todavia, também indica que o choque energético está a afectar a actividade económica.

Se os preços permanecerem elevados, a destruição da procura poderá estender-se aos transportes, indústria, aviação, turismo e consumo das famílias.

Moçambique Enfrenta Impacto Nos Combustíveis Importados

Moçambique importa a maior parte dos combustíveis líquidos utilizados no mercado interno. Por isso, o impacto da crise não depende apenas do preço internacional do crude.

A factura nacional é influenciada pelo custo dos produtos refinados, transporte marítimo, seguros, armazenamento, margens internacionais e taxa de câmbio entre o Metical e o dólar.

A redução das reservas de destilados é particularmente relevante para Moçambique, onde o gasóleo possui um peso importante no transporte rodoviário, agricultura, construção, mineração, geração de electricidade e funcionamento de equipamentos.

Se o Brent permanecer próximo ou acima de US$ 90 e as margens internacionais de refinação continuarem elevadas, o custo de reposição dos combustíveis importados poderá aumentar.

O impacto no mercado interno dependerá do mecanismo de formação de preços, dos períodos de referência utilizados, dos inventários disponíveis e da decisão sobre a transmissão dos custos internacionais aos consumidores.

Transportes E Produção Podem Absorver O Choque

O encarecimento dos combustíveis produz efeitos que ultrapassam os postos de abastecimento.

Custos mais elevados de gasóleo afectam o transporte de mercadorias, passageiros, produtos agrícolas e materiais de construção. As empresas podem absorver temporariamente parte do aumento, reduzir margens ou transferi-lo para os preços finais.

Na agricultura, o choque pode atingir preparação mecanizada da terra, bombagem de água, transporte e conservação. Na indústria, aumenta o custo da logística e da energia de emergência. Na mineração, afecta equipamentos e transporte de produtos.

A transmissão pode, assim, alcançar os preços dos alimentos e outros bens, aumentando a inflação e reduzindo o rendimento real das famílias.

Uma subida prolongada da factura petrolífera também pressiona a procura por divisas e a balança comercial. Mesmo sem aumento dos volumes importados, o País passa a gastar mais dólares para adquirir a mesma quantidade de combustível.

Exportadores De Gás Também Enfrentam Riscos Logísticos

Moçambique possui potencial para beneficiar, no médio prazo, de preços internacionais mais elevados de energia através das exportações de gás natural liquefeito.

Contudo, o efeito não é linear. A interrupção de Ormuz afecta cerca de um quinto do comércio mundial de GNL, proveniente principalmente do Qatar, o que pode elevar os preços e melhorar a competitividade de fornecedores alternativos.

Ao mesmo tempo, uma guerra prolongada aumenta os custos de equipamentos, transporte marítimo, seguros e financiamento dos grandes projectos energéticos.

Para a economia moçambicana, o choque produz, no curto prazo, custos imediatos através da importação de combustíveis. Os benefícios associados às exportações de gás dependem da produção, contratos comerciais, estrutura fiscal e capacidade dos projectos para responderem à procura adicional.

Mercado Depende Da Segurança Da Navegação

O comportamento do petróleo nas próximas sessões será determinado sobretudo pela evolução dos fluxos através de Ormuz.

Uma recuperação sustentada da navegação, acompanhada por garantias de segurança e regresso das seguradoras, poderá permitir a reposição da produção e reduzir o prémio de risco.

A continuação do impasse manterá o Brent suportado próximo dos máximos recentes. Uma nova escalada envolvendo instalações petrolíferas, oleodutos ou embarcações poderá levar os preços a patamares superiores.

O aumento dos inventários norte-americanos oferece algum amortecimento no mercado do crude. Mas a redução das reservas de destilados, a quebra do processamento nas refinarias e a perda de milhões de barris diários no Golfo demonstram que o principal problema está agora na disponibilidade de combustíveis e na capacidade de transportá-los em segurança.

Enquanto Ormuz operar muito abaixo da normalidade, o mercado continuará a incorporar não apenas o custo do petróleo, mas também o preço económico da guerra.

O.ECONÓMICO
Informação em tempo real
Fique a par.
Esteja à frente.
Acompanhe as principais actualidades nacionais e internacionais e tenha a informação certa para tomar melhores decisões.
CONECTE-SE AO NOSSO WHATSAPP
Informação que faz a diferença.
O.ECONÓMICO • Informação para decidir melhor