
South32 Diz Que Já É Tarde Para Novo Acordo Energético Na Mozal
Encerramento Em Março Coloca 25 Mil Postos De Trabalho Em Risco E Expõe Fragilidade Do Modelo Energético Industrial
- CEO da South32 afirma que não há mais margem para negociar novo contrato de energia;
- Cerca de 5 mil trabalhadores directos e até 20 mil indirectos afectados;
Tarifa proposta rondava 100 dólares/MWh, mais do dobro de outras fundições ocidentais; - Mozal representa 30% da produção manufactureira e mais de 3% do PIB;
- Encerramento reflecte tensão estrutural entre indústria electro-intensiva e custo da energia na África Austral.
A South32 declarou que já não existe margem para negociar um novo acordo de fornecimento de energia para a Mozal, confirmando que o processo de colocação da fundição em regime de “care and maintenance” avança para meados de Março.
Em entrevista ao Business Day, o CEO do grupo, Graham Kerr, foi categórico: “Estamos além do ponto de qualquer novo acordo de fornecimento de energia” . Segundo o executivo, a empresa deixou de adquirir matérias-primas em Dezembro, tornando tecnicamente inviável a continuidade das operações.
“Fundição não é mina; não se pode simplesmente parar e reiniciar. O reinício exige montantes significativos de capital”, afirmou Kerr .
Energia Cara Torna-Se O Factor Decisivo
A decisão surge após negociações falhadas com a Eskom, o Governo moçambicano e a Hidroeléctrica de Cahora Bassa para um novo contrato de fornecimento a partir de 2026 .
Segundo Kerr, a proposta apresentada situava-se em torno de 100 dólares por megawatt-hora, valor que classificou como mais do dobro do praticado por fundições equivalentes no Ocidente .
A escalada dos custos da electricidade na África Austral tem pressionado fortemente as indústrias electro-intensivas. Na África do Sul, várias fundições foram encerradas ou reduziram operações nos últimos anos devido à insustentabilidade tarifária.
O regulador energético sul-africano chegou recentemente a conceder um alívio tarifário de 35% a operações concorrentes, numa tentativa de preservar milhares de postos de trabalho. A Mozal, porém, não beneficiou de solução semelhante.
Impacto Económico Sistémico
A Mozal é o maior empregador industrial de Moçambique, contribuindo com cerca de 30% da produção manufactureira e pouco mais de 3% do PIB nacional .
O encerramento deverá afectar directamente entre 4.000 e 5.000 trabalhadores, com um efeito multiplicador estimado em até 20.000 empregos adicionais em cadeias indirectas .
O impacto não se limita ao emprego. A fundição é um dos principais exportadores do país, influenciando receitas externas, balança comercial e arrecadação fiscal.
A South32 registará uma imparidade de 372 milhões de dólares, reduzindo o valor contabilístico da Mozal para 68 milhões de dólares .
A Comparação Com Hillside E O Debate Sobre Competitividade
Enquanto encerra a Mozal, a South32 mantém a fundição Hillside, na África do Sul, operação que beneficia de um acordo tarifário confidencial com a Eskom. Investigações apontam que esse desconto poderá ter gerado poupanças significativas ao longo da última década .
Kerr sublinhou que a Hillside vende cerca de 30% da produção a jusante para fabricantes locais, ampliando o impacto industrial doméstico . A leitura implícita é clara: a dimensão do impacto interno influenciou o tratamento político e regulatório.
Um Debate Que Vai Além Da Mozal
O encerramento da Mozal expõe uma questão estrutural para Moçambique e para a região: qual o modelo energético adequado para sustentar indústrias electro-intensivas num contexto de tarifas crescentes e pressão sobre as utilities públicas?
A equação é delicada. Electricidade barata pode implicar subsídios implícitos ou contratos diferenciados. Electricidade cara pode inviabilizar projectos industriais estratégicos.
Entre sustentabilidade financeira das empresas energéticas e competitividade industrial, a margem de equilíbrio é estreita.
Com a decisão agora considerada irreversível pela South32, o debate desloca-se do salvamento da Mozal para a redefinição do modelo energético e industrial do país.
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