
Transformação Local Exige Mais do Que Leis, Crédito Industrial e Capacidade de Execução
Para o antigo Ministro da Indústria e Comércio, Silvino Moreno, a ambição de transformar matérias-primas em produtos, emprego e riqueza precisa de ser sustentada por regulamentação eficaz, financiamento de longo prazo, energia competitiva e execução acelerada do PRONAE.
- A proibição da exportação de recursos em bruto pode constituir um ponto de partida, mas não substitui investimento, infra-estruturas e capacidade empresarial.
- Silvino Moreno defende uma instituição ou instrumentos específicos de financiamento industrial, com crédito de médio e longo prazo a custos compatíveis com a produção.
- A implementação efectiva do PRONAE e a articulação com a ENDE são apontadas como decisivas para orientar a industrialização.
- O agro-processamento deve assumir prioridade, por combinar segurança alimentar, substituição de importações, emprego e dinamização económica local.
Moçambique começa a sinalizar uma mudança de paradigma económico: deixar de ser predominantemente exportador de matérias-primas e tornar-se, progressivamente, uma economia capaz de transformar os seus próprios recursos em produtos, indústria, emprego e valor acrescentado.
A ambição é politicamente relevante e economicamente necessária. Mas, para o antigo Ministro da Indústria e Comércio, Silvino Moreno, a transformação local não será resultado automático de uma nova lei, de uma determinação administrativa ou de metas genéricas de conteúdo local. Exige, antes de mais, um conjunto coerente de instrumentos legais, financeiros, produtivos e institucionais que tornem a actividade industrial viável, rentável e competitiva.
Na entrevista ao Semanário Económico, Moreno reconhece que a intenção de restringir a exportação de matérias-primas em bruto representa um passo importante, sobretudo no sector mineiro. Na sua leitura, o quadro legal pode criar uma orientação clara para que os recursos extraídos no País sejam processados localmente, mas alerta que esse impulso jurídico deve ser replicado e aprofundado em outros sectores, como agricultura, pescas e florestas.
A questão central, contudo, começa depois da lei. Proibir a exportação de uma matéria-prima sem criar condições para que ela seja transformada localmente pode apenas transferir o problema da fronteira para dentro da economia. Para transformar, é preciso haver indústria; para haver indústria, é necessário capital, energia, tecnologia, mão-de-obra qualificada, logística, mercados e previsibilidade.
A Lei É Um Ponto de Partida, Não Uma Solução Completa
A defesa da transformação local de recursos naturais tem vindo a ganhar espaço no debate económico moçambicano. O País dispõe de minerais, recursos energéticos, produtos agrícolas, florestais, pesqueiros e marítimos que, em muitos casos, continuam a sair com reduzido grau de processamento.
Essa realidade limita a retenção de valor no território nacional. Quando a matéria-prima é exportada em bruto, grande parte do emprego qualificado, da inovação, da transformação tecnológica, da produção de componentes e da comercialização de maior valor acontece noutros mercados.
Para Moreno, o enquadramento jurídico deve estabelecer uma direcção inequívoca: os recursos nacionais devem servir de base para a construção de uma economia produtiva. Mas essa direcção precisa de ser acompanhada de regulamentação clara, critérios de aplicação previsíveis e uma estratégia que evite criar barreiras que inviabilizem investimento produtivo.
A distinção é importante. Uma política de transformação local bem desenhada não deve ser entendida apenas como uma limitação à exportação. Deve funcionar como uma plataforma de incentivo à instalação de unidades de processamento, de atracção de tecnologia, de formação de fornecedores e de desenvolvimento de novas capacidades empresariais.
O objectivo não é apenas impedir que um recurso saia do País. É criar condições para que esse recurso permaneça, seja processado, gere emprego, incorpore conhecimento e alimente novas cadeias de valor.
PRONAE e ENDE Precisam Sair do Papel
Na visão de Silvino Moreno, Moçambique já possui instrumentos estratégicos que podem orientar esta transformação. Entre eles, destaca o Programa Nacional de Industrialização, conhecido como PRONAE, e a Estratégia Nacional de Desenvolvimento, ENDE.
Segundo o antigo governante, o PRONAE apresenta uma visão de longo prazo para a industrialização e identifica propostas para que o País possa evoluir para uma economia de rendimento médio. A aprovação de uma estrutura de implementação representa, na sua leitura, um passo encorajador, mas o desafio decisivo será fazer funcionar a unidade técnica, coordenar instituições e assegurar que as prioridades definidas sejam traduzidas em projectos concretos.
O problema da economia moçambicana não tem sido apenas a ausência de planos ou de diagnósticos. Em diferentes áreas, o País já produziu estratégias robustas, identificou sectores prioritários e reconheceu os principais constrangimentos. A dificuldade tem estado, muitas vezes, na capacidade de execução, de coordenação entre instituições e de continuidade das políticas.
A industrialização exige uma lógica diferente de actuação. Não basta aprovar documentos orientadores. É necessário transformar esses documentos em calendários, responsabilidades institucionais, projectos âncora, metas mensuráveis, financiamento e mecanismos de acompanhamento.
A transformação local só ganhará escala quando houver clareza sobre quem lidera cada cadeia de valor, que infra-estruturas são prioritárias, que instrumentos financeiros estarão disponíveis e que resultados se esperam em cada província e sector.
Sem Crédito Industrial, a Ambição Fica Limitada
A questão do financiamento ocupa lugar central na reflexão de Moreno. Para o antigo Ministro, a indústria não pode depender exclusivamente de crédito comercial de curto prazo e taxas de juro elevadas, que tendem a ser incompatíveis com investimentos produtivos de maturação longa.
Uma unidade industrial exige equipamentos, instalações, tecnologia, matérias-primas, certificação, logística, manutenção e trabalhadores qualificados. O retorno desse investimento raramente é imediato. Por isso, empresas industriais precisam de crédito de médio e longo prazo, com custos que permitam sustentar a actividade até que a produção alcance escala e estabilidade.
Moreno defende a criação ou fortalecimento de uma instituição vocacionada para o financiamento industrial, capaz de mobilizar fundos de investimento, capital de risco e instrumentos financeiros mais ajustados à natureza produtiva da indústria. Considera que o futuro Banco de Desenvolvimento poderá desempenhar um papel relevante, desde que disponha de produtos específicos para a industrialização.
Esta questão é particularmente importante para o empresariado nacional. Grandes investidores internacionais podem, em alguns casos, mobilizar capital próprio ou financiamento externo. As empresas moçambicanas, sobretudo pequenas e médias, enfrentam maiores dificuldades para aceder a recursos que lhes permitam instalar fábricas, modernizar equipamentos ou entrar em sectores mais exigentes.
Sem uma solução de financiamento industrial, o risco é que a transformação local fique limitada a grandes empresas estrangeiras ou a poucos projectos de grande escala, sem criar uma base empresarial nacional suficientemente forte.
Energia Competitiva É Parte da Política Industrial
A disponibilidade de energia não basta. Para a indústria, importa também o preço, a fiabilidade e a qualidade do fornecimento.
Moreno alerta que os custos energéticos e o preço dos combustíveis podem comprometer a viabilidade de muitas unidades industriais, sobretudo nas zonas rurais e em regiões onde as empresas continuam dependentes de geradores. Na sua perspectiva, a política industrial deve prever tarifas energéticas competitivas e instrumentos de apoio para actividades produtivas situadas fora das principais redes de fornecimento.
A observação é estratégica. Moçambique possui potencial energético relevante, incluindo hidroeléctrico, gás natural, solar e outras fontes renováveis. Mas esse potencial só se transforma em vantagem industrial quando a energia chega às zonas produtivas, em condições estáveis e a preços que permitam competir com produtores regionais e internacionais.
Uma fábrica não escolhe a sua localização apenas pela disponibilidade de matéria-prima. Considera também energia, água, estradas, telecomunicações, mão-de-obra, proximidade dos mercados e acesso a portos ou corredores logísticos. É por isso que industrialização, infra-estruturas e ordenamento territorial devem ser pensados como uma mesma agenda.
Agro-Processamento Deve Ser a Primeira Prioridade
Entre as várias cadeias de valor possíveis, Moreno identifica o agro-processamento como prioridade imediata. A razão é simples: antes de discutir produtos sofisticados ou grandes plataformas industriais, Moçambique precisa de reforçar a sua capacidade de produzir, processar e disponibilizar alimentos para a própria população.
O País possui vastas áreas agrícolas e uma diversidade de produtos com potencial de transformação local. Contudo, parte dessa produção continua a perder-se por falta de armazenamento, processamento, conservação, embalamento, transporte ou ligação consistente aos mercados.
A instalação de pequenas e médias unidades de processamento de cereais, arroz, frutas, oleaginosas, mandioca, pescado e outros produtos pode ter impacto relevante na segurança alimentar, no rendimento dos produtores, na substituição de importações e na criação de emprego nas zonas rurais.
Moreno referiu, por exemplo, o potencial de produção de arroz na Zambézia, defendendo maior investimento em pequenas indústrias capazes de melhorar a qualidade, reduzir perdas e transformar a produção local em alimentos competitivos. Ao mesmo tempo, sublinhou que a formação profissional precisa de acompanhar esta agenda, incorporando tecnologias de informação, automação e novas competências industriais.
A prioridade ao agro-processamento não significa ignorar os sectores mineral, energético ou florestal. Significa reconhecer que a industrialização deve começar por cadeias em que o País pode gerar impacto rápido sobre a alimentação, o emprego, o mercado interno e as economias locais.
A Transformação Será Medida Pela Execução
O debate sobre a transformação local das matérias-primas não pode ficar limitado à formulação de princípios. Moçambique já identificou a ambição, aprovou instrumentos e reconhece a necessidade de alterar o padrão económico baseado na exportação de produtos em bruto.
A fase seguinte exigirá execução. Exigirá regulamentação que não afaste investimento, crédito industrial acessível, energia competitiva, formação técnica, coordenação institucional e prioridade para cadeias produtivas capazes de gerar efeitos multiplicadores.
A transformação local não será uma consequência automática da riqueza de recursos. Terá de ser construída por meio de decisões consistentes, instituições funcionais, empresas preparadas e políticas que liguem matéria-prima, indústria, emprego e mercados.
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