Moçambique regista progressos significativos no Sector Pecuário, mas desafios agigantam-se

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O sector pecuário em Moçambique, com especial destaque para a produção de gado bovino, tem revelado avanços consideráveis na última década. Entre 2014 e 2023, o país observou um crescimento contínuo no número de efectivos bovinos, resultado de melhorias substanciais na assistência veterinária e na gestão das explorações. 

A evolução do sector é analisada pelo relatório de pesquisa “Produção bovina: Causas dos sucessos e desafios”, da autoria do Observatório do Meio Rural (OMR), uma ONG moçambicana, no qual são analisados os progressos registados, bem como os desafios ainda presentes

Crescimento dos efectivos bovinos: Uma Análise regional e sectorial

Em 2023, Moçambique atingiu 2.406.285 cabeças de gado bovino de corte, um aumento significativo face aos 1,8 milhões de cabeças registadas em 2014. De acordo com o documento da OMR, este crescimento, com uma taxa anual média entre 3% e 5%, foi pontuado por excepções em 2016 e 2021, anos em que surtos de doenças afectaram temporariamente a evolução dos efectivos. A província de Gaza lidera em termos de concentração, com 22,6% do total de efectivos, seguida por Inhambane (16,5%) e Maputo (16,3%), confirmando a zona sul do país como o epicentro da pecuária bovina. Gaza, Inhambane, Maputo, Tete e Manica representam, juntas, 82,1% do total dos efectivos nacionais, sendo estas províncias cruciais para o sector.

Este aumento nos efectivos é ainda mais relevante quando comparado com o período colonial, em que o número de cabeças de gado rondava os 1,3 milhões, e o final da guerra civil, altura em que esse número decresceu para entre 300 a 400 mil animais. Segundo a OMR, a recuperação e expansão dos efectivos na última década são reflexo de políticas públicas eficazes e iniciativas privadas bem-sucedidas.

Estrutura do Sector: Uma comparação entre produção familiar e privada

Os dados apresentados no documento da OMR mostram diferenças significativas entre os sectores familiar e privado. Cerca de 89% dos efectivos pertencem ao sector familiar, que se caracteriza por uma exploração com múltiplos objectivos, incluindo a utilização no trabalho agrícola, transporte, venda em momentos de necessidade financeira e para cerimónias sociais. Em contraste, o sector privado, que detém 10,9% dos efectivos, foca-se na produção comercial de leite, com o claro objectivo de maximizar a rentabilidade.

As diferentes estruturas dos rebanhos reflectem estas orientações divergentes. Enquanto o sector privado se concentra na produção de leite, o sector familiar apresenta uma distribuição mais equilibrada entre as várias classes da manada, o que indica uma exploração menos especializada e mais voltada para a subsistência e práticas culturais tradicionais.

 

Assistência Veterinária: Um pilar para a expansão do Sector

A saúde dos rebanhos é crucial para o crescimento sustentado do sector pecuário. Moçambique tem feito progressos importantes na assistência veterinária, com destaque para as campanhas de vacinação contra doenças endémicas como o carbúnculo hemático, a brucelose e a febre aftosa. Entre 2014 e 2023, o número de vacinações aumentou significativamente, com variações anuais influenciadas pela presença destas doenças, conforme aponta o documento do OMR.

Além das vacinações, os tanques carracicidas desempenham um papel fundamental na manutenção da saúde do gado. Estes tanques não só proporcionam banhos para o controlo de parasitas, como também servem como pontos de encontro para o controlo de doenças, contagem das manadas e assistência técnica básica.

Contudo, o OMR alerta para os desafios que persistem, como a necessidade de melhor cumprimento dos planos de vacinação em certas doenças e a manutenção das infra-estruturas de apoio, que são essenciais para assegurar a continuidade do crescimento do sector.

Produção e comercialização: Disparidades e desafios

A produção de carne bovina em Moçambique tem mostrado um crescimento robusto, mas enfrenta desafios significativos na comercialização e abate. Em 2023, a produção totalizou 21.136 toneladas, com a província de Maputo a contribuir com quase metade desse total. No entanto, o relatório evidencia uma disparidade entre o número de efectivos e a produção de carne, especialmente no sector familiar. Factores como o roubo de gado, a falta de locais para engorda, e as limitações na comercialização são apontados como principais obstáculos.

Além disso, as diferenças regionais na produção também são notáveis. Enquanto Maputo, com apenas 16,3% dos efectivos, contribui com 48% da produção nacional, províncias como Gaza, que detém 22,6% dos efectivos, contribuem com apenas 4% da produção. Estas disparidades evidenciam, segundo o relatório do OMR, a necessidade de investimentos em infra-estruturas e de uma melhor organização da cadeia de valor para maximizar o potencial de produção em todas as regiões.

Desafios persistentes e crescentes 

Apesar dos avanços, o sector pecuário em Moçambique continua a enfrentar desafios estruturais. A comercialização da carne é afectada pela actividade dos “marchantes”, agentes económicos informais que compram e vendem gado sem qualquer preparação ou controlo sanitário. A falta de infra-estruturas adequadas, como matadouros e centros de engorda, limita ainda mais a capacidade de crescimento do sector, alerta o OMR.

Para superar estes desafios, o documento sugere várias medidas, incluindo a regulação da actividade dos “marchantes”, a promoção de associações de produtores com capacidade negocial, e o incentivo ao investimento em matadouros de diferentes escalas. Estas medidas são essenciais para consolidar os ganhos alcançados e promover o crescimento sustentável do sector.

Efectivamente, o sector de gado bovino em Moçambique registou um crescimento impressionante na última década, impulsionado por melhorias na assistência veterinária e na gestão dos rebanhos. No entanto, para manter e expandir esses ganhos, será crucial enfrentar os desafios remanescentes, especialmente na comercialização e infra-estruturas. Com uma estratégia bem definida, argumenta o relatório do OMR, o sector pecuário pode continuar a ser um pilar importante para o desenvolvimento económico de Moçambique.

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