O Índice de Gestores de Compras (PMI) do Standard Bank para Moçambique registou uma ligeira queda em Outubro de 2024, atingindo 50,2 pontos, comparado aos 50,3 de Setembro. Esta descida indica que, embora o sector privado moçambicano continue a expandir-se, o ritmo de crescimento desacelerou, reflectindo condições de mercado menos favoráveis e desafios económicos persistentes.

Fáusio Mussá, Economista-Chefe do Standard Bank Moçambique, destacou que o resultado de Outubro “reflecte sobretudo um crescimento mais brando das novas encomendas e do emprego, em comparação com o mês anterior”. Apesar de o índice ainda se manter acima do nível de 50, que indica expansão, a confiança entre as empresas moçambicanas tem vindo a abrandar, atingindo um dos níveis mais baixos desde o final de 2020.

Actividade empresarial e novas encomendas

O sector privado moçambicano tem visto um aumento contínuo nas novas encomendas, com o mês de Outubro a marcar o nono mês consecutivo de expansão. Contudo, o crescimento das novas encomendas foi o mais lento desde Abril, uma situação que o relatório atribui ao enfraquecimento da procura, especialmente no sector dos serviços. Este abrandamento reflete um contexto de desafios económicos e um mercado menos dinâmico.

As empresas destacaram que a procura aumentada por parte dos clientes permitiu um crescimento moderado na produção. A actividade empresarial manteve-se em alta, marcando sete meses consecutivos de expansão, mas o ritmo de crescimento foi ligeiro. Segundo o relatório, “algumas empresas relataram que a actividade foi impactada por um menor número de clientes e pelo ambiente pós-eleitoral,” o que explica a ligeira desaceleração.

Emprego: crescimento moderado 

A criação de postos de trabalho continuou a registar-se, embora de forma tímida. Em Outubro, o aumento de emprego foi o mais baixo dos últimos nove meses, com o índice de emprego próximo do nível neutro de 50,0. A desaceleração no ritmo de contratação mostra um contexto de incerteza, onde as empresas optam por uma abordagem mais cautelosa nas suas decisões de expansão de pessoal.

Entre os sectores analisados, apenas a agricultura registou um aumento nos efectivos, enquanto outros sectores, como o comércio, construção e indústria secundária, apresentaram ligeiras reduções de pessoal. A baixa taxa de criação de emprego também ajudou a controlar as pressões inflacionárias, contribuindo para a moderação dos custos de produção

Custo dos meios de produção e pressões inflacionárias

Outubro trouxe um alívio moderado nas pressões inflacionárias para as empresas moçambicanas, com uma desaceleração dos custos de produção. O índice de preços dos meios de produção registou o nível mais baixo desde Julho, indicando uma inflação mais contida. Esse abrandamento foi, em grande parte, impulsionado por uma redução nas pressões salariais.

Apesar disso, as empresas continuaram a enfrentar custos elevados nas aquisições, principalmente devido ao aumento dos preços das matérias-primas. Esta inflação nos preços de aquisição resultou num aumento moderado nos preços de venda, uma medida adotada para mitigar os custos de produção, particularmente nos sectores de serviços e comércio a retalho.

Perspectivas : Optimismo cauteloso e desafios persistentes

As empresas mantêm uma perspectiva de crescimento para os próximos 12 meses, embora a confiança esteja numa das pontuações mais baixas dos últimos quatro anos. Segundo o relatório do PMI, “mais de um terço dos inquiridos (36%) esperam uma recuperação nos próximos 12 meses”, impulsionada por factores como maior investimento, abertura de novas sucursais e um aumento de produtividade. Contudo, o sentimento de cautela predomina devido a atrasos nos projectos de gás natural liquefeito (GNL) e ao ambiente económico restritivo, que inibem o investimento directo estrangeiro e pressionam a oferta de divisas.

Fáusio Mussá, economista-chefe do Standard Bank - Moçambique

Mussá observou que os “atrasos recorrentes nos projectos de GNL” contribuem para a baixa confiança, pois o crescimento económico de Moçambique depende, em grande medida, desses projectos. A expectativa é que o crescimento do PIB desacelere para 3,6% em 2024, abaixo dos 5,4% registados no ano anterior, com desafios adicionais derivados da intermitência na oferta de divisas e pressões fiscais contínuas.

Impacto na Política Monetária: Taxa de Juros em foco

O ambiente económico actual, marcado por incertezas e um contexto pós-eleitoral sensível, pode levar o Banco de Moçambique a adoptar uma postura mais prudente em relação à política monetária. Até ao momento, a taxa de juro de referência (MIMO) foi reduzida em 375 pontos base em 2024, situando-se agora em 13,5%. No entanto, as taxas de juro reais mantêm-se altas, especialmente devido à inflação, que registou 2,5% em Setembro.

“Não descartamos uma pausa nos cortes da taxa de juro de referência,” afirmou Mussá, observando que uma política mais conservadora pode ser necessária para lidar com as pressões económicas actuais. Além disso, as reservas mínimas obrigatórias permanecem altas, o que reprime o crescimento do crédito e limita o fôlego das empresas para expandirem.

O relatório do PMI para Outubro de 2024 revela um panorama misto para a economia moçambicana. Embora o sector privado mantenha um crescimento ligeiro, a desaceleração em áreas como o emprego e as novas encomendas, aliada às pressões inflacionárias e às limitações no crédito, sugere que as empresas enfrentam um futuro incerto. Inferencias a partir do relatório e dos comentários do Economista-Chefe do Standard Bank, permitem afirmoar que as condições do mercado estão a exigir uma abordagem cautelosa, tanto do Governo quanto dos empresários, para assegurar que o crescimento, ainda que lento, continue e que o “ambiente pós-eleitoral” estabilize.

Com a confiança empresarial a níveis historicamente baixos e desafios económicos persistentes, o próximo ano será decisivo para o sector privado e para o crescimento económico do País.

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