
Gás Natural Continua a Ganhar Espaço Como Combustível Essencial na Transição
- O Custo da Transição é Proibitivo e os Países Emergentes Não Têm Capacidade Para Suportá-lo
A transição energética global tem sido marcada por um confronto entre ambição e realidade. A aposta em energias renováveis cresce a um ritmo acelerado, mas a procura por gás natural, petróleo e carvão continua a atingir níveis recordes. Em vez de substituir os combustíveis fósseis, a transição está a conduzir a um modelo de adição de energia, onde a procura crescente obriga à manutenção das fontes tradicionais.
A mais recente edição da Foreign Affairs (Março/Abril 2025), no artigo “The Troubled Energy Transition”, assinado por Daniel Yergin, Peter Orszag e Atul Arya, revela que o gás natural representa actualmente 45% da geração eléctrica nos EUA, enquanto o carvão caiu para 16%. A Alemanha, que se posicionava como um dos maiores exemplos de transição energética na Europa, teve de reactivar centrais a carvão e subsidiar novas centrais a gás para garantir estabilidade na sua rede eléctrica. Estes factos reforçam a ideia de que a transição energética não pode ser uma ruptura abrupta com os combustíveis fósseis, mas sim uma evolução gradual, onde o gás natural se torna uma peça central para garantir segurança energética e viabilidade económica.
A Geopolítica da Energia Está a Complicar Ainda Mais a Transição
A energia não é apenas um tema ambiental e económico, mas também um campo de batalha geopolítico. A guerra na Ucrânia alterou radicalmente o mapa energético mundial, levando a Europa a reduzir drasticamente a sua dependência do gás russo e a procurar novas fontes de fornecimento de Gás Natural Liquefeito (GNL). Como consequência, os EUA tornaram-se um dos principais exportadores de GNL, enquanto países como o Qatar e Moçambique passaram a desempenhar papéis estratégicos no abastecimento global.
Além disso, a China domina 90% do processamento de minerais críticos essenciais para a energia limpa, incluindo lítio, cobalto e terras raras, fundamentais para a produção de baterias e turbinas eólicas. Esta dependência tem levado os EUA e a Europa a impor restrições e tarifas para reduzir a influência chinesa, mas, até ao momento, ainda não conseguiram uma alternativa viável para garantir a independência da sua cadeia de abastecimento.
A luta por segurança energética e domínio tecnológico tem desacelerado os investimentos na transição, tornando a descarbonização um processo ainda mais complexo do que o previsto. Países como Moçambique, que possuem vastos recursos de gás e minerais estratégicos como grafite, podem beneficiar destas tensões, desde que consigam atrair investimentos sustentáveis e equilibrar os interesses externos com as suas necessidades internas.
O Custo da Transição: Um Obstáculo Intransponível Para Muitos Países
A transição energética não acontece sem um custo significativo. A Foreign Affairs estima que sejam necessários entre 6,3 e 8 biliões de dólares por ano até 2035 para implementar uma mudança global para fontes de energia limpa.
A questão central é: quem paga esta conta? Nos países desenvolvidos, subsídios governamentais e incentivos fiscais têm ajudado a acelerar a adopção das renováveis. Contudo, nos países emergentes, onde o crescimento económico e o acesso à energia ainda são prioridades fundamentais, este nível de investimento é simplesmente inviável.
Actualmente, 56% dos países de baixa renda já enfrentam crises de dívida, o que torna impossível o financiamento de infra-estruturas renováveis sem apoio internacional. Sem um mecanismo eficaz de redistribuição de capital, as metas de descarbonização acabam por penalizar desproporcionalmente os países mais pobres, que continuam dependentes do carvão e do gás natural para sustentar as suas economias.
A Transição Não é Justa: O Norte Impõe Restrições, Enquanto o Sul Precisa de Crescimento
O debate sobre a transição energética tem exposto uma divisão crescente entre o Norte e o Sul Global. Os países desenvolvidos pressionam para uma eliminação rápida dos combustíveis fósseis, enquanto países emergentes enfrentam o dilema entre reduzir emissões ou garantir o desenvolvimento económico.
Em África, 600 milhões de pessoas ainda vivem sem acesso à electricidade, enquanto três mil milhões de pessoas consomem menos energia por ano do que um frigorífico médio nos EUA. Para estas nações, o desafio não é apenas reduzir emissões de carbono, mas sim assegurar acesso a energia acessível e confiável para sustentar a industrialização e melhorar as condições de vida das suas populações.
O Primeiro-Ministro da Malásia, Anwar Ibrahim, sintetizou este dilema ao afirmar:
“Não se pode sacrificar o desenvolvimento humano em nome da transição verde.”
Moçambique, por exemplo, encontra-se numa posição delicada. Possui recursos abundantes de gás natural na Bacia do Rovuma, um activo fundamental para a sua economia e para a segurança energética regional. No entanto, enfrenta pressões internacionais para reduzir a dependência do gás antes mesmo de ter beneficiado plenamente do seu potencial.
A transição energética não pode ser uma solução imposta de forma unilateral. Para ser justa, deve considerar as necessidades específicas de cada país, permitindo que as nações emergentes utilizem os seus recursos de forma estratégica para garantir um crescimento sustentável e equilibrado.
O Papel Estratégico do Gás Natural: A Ponte Para o Futuro Energético
Perante os desafios actuais, o gás natural emerge como o combustível da transição, proporcionando uma alternativa de menor emissão de carbono em comparação com o carvão e o petróleo. Países como os EUA, a Alemanha e o Japão têm aumentado os investimentos em infra-estruturas de gás, reconhecendo que as energias renováveis ainda não oferecem fiabilidade suficiente para substituir completamente os combustíveis fósseis.
A Foreign Affairs destaca que o gás natural continuará a desempenhar um papel central na matriz energética global por décadas, pois oferece segurança energética, permitindo a geração de electricidade contínua sem depender de condições climáticas, redução de emissões, já que em comparação com o carvão, o gás natural emite até 50% menos dióxido de carbono (CO₂), e flexibilidade económica, pois muitos países emergentes podem utilizar gás natural para expandir o acesso à electricidade antes de uma transição completa para fontes renováveis.
A Transição Energética Precisa de Realismo e Pragmatismo
A ideia de uma transição energética rápida e linear revelou-se uma ilusão. O crescimento das energias renováveis não está a eliminar os combustíveis fósseis, mas sim a acrescentar mais energia ao sistema para atender à crescente procura mundial.
Os países desenvolvidos podem estar prontos para uma mudança mais acelerada, mas impor restrições aos países emergentes sem considerar as suas realidades económicas é uma abordagem injusta e insustentável. O caminho para uma transição bem-sucedida não passa por uma eliminação forçada dos combustíveis fósseis, mas sim por uma abordagem pragmática e flexível, onde o gás natural desempenha um papel estratégico como ponte para um futuro energético mais equilibrado.
Se o mundo quiser uma transição energética verdadeiramente sustentável e justa, precisa de aceitar que não há soluções simplistas para desafios tão complexos.
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