
Tarifas dos EUA lançam mercados emergentes para uma nova onda de perdas e instabilidade
- Moedas desvalorizam, bolsas recuam e investidores recuam face à incerteza gerada pela estratégia comercial de Trump
A escalada tarifária promovida pela Administração Trump está a provocar novas ondas de turbulência nos mercados emergentes, reforçando a percepção de que os activos mais arriscados enfrentam uma conjuntura desfavorável e prolongada. Analistas alertam para a continuação de perdas cambiais, quedas nos índices bolsistas e retração generalizada do apetite por risco.
As moedas dos países em desenvolvimento estão a registar quedas significativas, com destaque para o peso colombiano e a rupia indonésia, que lideraram as perdas na semana analisada. O índice de moedas de mercados emergentes da MSCI fechou a semana em máximos de cinco meses, mas o sentimento entre investidores permanece sombrio. Muitos gestores de fundos estão a reduzir a exposição a estes activos, numa postura de contenção face aos riscos da guerra comercial e à incerteza política.
De acordo com analistas do Societe Generale, liderados por Phoenix Kalen, “a bola de demolição ainda está em curso nos câmbios dos mercados emergentes, embora possa desacelerar”. A previsão da instituição aponta para uma desvalorização moderada do yuan chinês e para uma continuação da fraqueza do rand sul-africano e de moedas latino-americanas.
Investidores em modo defensivo e fundos retraídos
O pessimismo é partilhado por gestores de activos como Tamas Cser, da Hold Alapkezelo Zrt., que ajuda a gerir cerca de 2,8 mil milhões de dólares. Cser sublinha que, mesmo que o pior cenário não se concretize de imediato, a incerteza actual já está a provocar danos reais, com impacto negativo na disposição dos investidores para alocar capital em mercados mais voláteis.
Na frente bolsista, o índice MSCI de mercados emergentes registou uma queda de 3,7% na semana, reflectindo o aumento das tensões. Episódios de instabilidade política em países como Turquia, Indonésia e Coreia do Sul contribuíram para agravar o sentimento de aversão ao risco.
O caso turco e o impacto sobre reservas cambiais
A Turquia, em particular, voltou ao centro das atenções. O Morgan Stanley reviu em baixa as previsões para a lira turca até ao final do ano e desaconselhou operações de carry trade com activos do país. A instituição estima que a Turquia terá perdido cerca de 10 mil milhões de dólares em reservas cambiais, como resultado da recente turbulência tarifária e da sua própria crise política interna.
Segundo os analistas Hande Kucuk e Arnav Gupta, do mesmo banco, a procura local por moeda estrangeira será agora o factor determinante para a trajectória das reservas do país, uma vez que o capital estrangeiro está a ser retirado.
Reposicionamento e apostas oportunistas
Apesar do ambiente adverso, alguns investidores aproveitaram a correção dos mercados para adquirir activos considerados subvalorizados. Tamas Cser revelou ter reforçado a exposição a acções polacas, apostando na ideia de que as políticas de Trump poderão impulsionar o aumento do investimento em defesa na Europa.
Para Malin Rosengren, gestora de fundos da RBC BlueBay em Londres, a estratégia norte-americana poderá também ter consequências políticas mais amplas, ao incentivar outros líderes a adoptarem tácticas radicais e nacionalistas, o que poderá alimentar uma nova vaga de volatilidade. “É inevitável que vejamos mais episódios de políticas autoritárias a desafiar os limites da ordem mundial”, advertiu. Segundo Rosengren, os investidores tenderão a dar maior peso à análise económica de longo prazo, tentando ignorar picos temporários de instabilidade política.
Risco elevado, horizonte incerto
O cenário que se desenha é de fragilidade prolongada para os mercados emergentes, com o dólar em desaceleração, a confiança internacional abalada e as decisões políticas dos EUA a deixarem marcas profundas nas economias em desenvolvimento. Com a incerteza como nova norma, o reposicionamento estratégico e a gestão prudente de riscos tornaram-se palavras de ordem entre os principais agentes financeiros globais.
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