
Novo Mapa do Comércio Global Ganha Forma em Davos à Medida que Países se Ajustam às Tarifas de Trump
Aposta na diversificação de parceiros, novos acordos regionais e reconfiguração das cadeias de valor sinalizam um afastamento gradual da centralidade dos Estados Unidos no comércio mundial.
- Tarifas voltam a dominar o debate global após novas ameaças de Trump;
- Países procuram reduzir dependência dos EUA e reforçar comércio regional;
- UE e Mercosul concluem maior acordo comercial da história europeia;
- Especialistas alertam que o comércio global está a tornar-se estruturalmente mais caro.
O Fórum Económico Mundial, que decorre esta semana em Davos, tornou-se palco de um debate intenso sobre a reconfiguração do comércio global, num contexto em que o regresso agressivo das tarifas como instrumento de política externa dos Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, está a acelerar esforços de países e blocos económicos para diversificar parceiros comerciais e reduzir a exposição ao mercado norte-americano, segundo analistas e decisores presentes no encontro.
Tarifas de Trump Reacendem Incerteza no Comércio Internacional
As tarifas regressaram ao centro das atenções depois de Donald Trump ter ameaçado, no último fim-de-semana, impor novas tarifas a aliados europeus que se opunham às suas posições sobre a Gronelândia, recuando dias depois ao anunciar um enquadramento de acordo com a NATO relativo ao Árctico.
A volatilidade e imprevisibilidade da política comercial norte-americana foram amplamente citadas em Davos como factores que estão a “abalar o mundo”, nas palavras do ministro das Finanças do Canadá, François-Philippe Champagne, que alertou para a velocidade, escala e alcance das mudanças em curso.
Países Aceleram Diversificação e Comércio Regional
Perante este cenário, várias economias estão a reforçar estratégias de diversificação comercial, apostando mais fortemente em acordos regionais e parcerias alternativas. Champagne sublinhou que governos e empresas procuram estabilidade, previsibilidade e respeito pelo Estado de Direito, elementos que, segundo afirmou, “estão em falta” no actual ambiente global.
Um dos exemplos citados foi o recente acordo entre o Canadá e a China para reduzir tarifas sobre veículos eléctricos e canola, sinalizando uma reorientação pragmática das relações comerciais.
UE–Mercosul Marca Viragem Estratégica
Outro marco relevante foi a assinatura, este mês, do acordo de comércio livre entre a União Europeia e o Mercosul, após 25 anos de negociações. Se ultrapassar os obstáculos legais pendentes, este será o maior acordo comercial alguma vez celebrado pela UE, reforçando a estratégia europeia de diversificação e acesso a novos mercados.
A Organização Mundial do Comércio apoia esta tendência. A sua directora-geral, Ngozi Okonjo-Iweala, afirmou que a diversificação das cadeias de abastecimento ajuda a distribuir melhor o crescimento e a criação de emprego, fortalecendo a resiliência global.
Peso dos EUA no Comércio Global Deve Diminuir
Estudos do Boston Consulting Group indicam que a quota dos EUA no comércio global de bens poderá cair de 12% para 9% até 2034, à medida que o país se concentra mais na actividade económica interna.
Representantes empresariais europeus alertam para os custos desta estratégia. O presidente da associação alemã de exportadores BGA, Dirk Jandura, afirmou que as tarifas estão a penalizar as exportações, depois de dados mostrarem uma queda de 9% das exportações alemãs para os EUA nos primeiros 11 meses de 2025.
Comércio Global Mais Caro e Fragmentado
Volker Treier, responsável pelo comércio externo das câmaras de indústria e comércio alemãs, advertiu que tarifas sobre matérias-primas como aço e alumínio estão a encarecer o investimento industrial nos EUA. “O mundo tornou-se mais caro e estruturalmente ficará ainda mais caro”, afirmou.
A fragmentação do comércio global surge também nas projecções do BCG, que antevê quatro grandes polos dominantes: EUA, China, BRICS+ (excluindo a China) e um grupo de “plurilateralistas” que inclui Europa, Canadá, México, Japão, Austrália e várias economias da Ásia-Pacífico.
Portos e Cadeias Logísticas Reflectem Mudança de Fluxos
A reconfiguração do comércio já é visível nas cadeias logísticas. O CEO do Port of Long Beach, Noel Hacegaba, revelou que a quota de comércio com a China caiu de 70% em 2019 para 60% em 2025, com maior peso de países do Sudeste Asiático como Vietname, Tailândia e Malásia.
Na Europa, o CEO do Porto de Roterdão, Boudewijn Siemons, resumiu o momento actual: a Europa dependia de produção barata da China, energia barata da Rússia e defesa barata dos EUA — “e as três estão a desaparecer, obrigando-nos a reconfigurar-nos rapidamente”.
Um Comércio Global em Transição Acelerada
O debate em Davos confirma que o comércio internacional entrou numa fase de transição acelerada, marcada por maior fragmentação, custos mais elevados e novas alianças estratégicas. Para governos e empresas, o desafio passa por adaptar-se rapidamente a um sistema comercial menos previsível, onde a resiliência e a diversificação se tornaram prioridades centrais.
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