
Banco De Moçambique Admite Fragilidade Financeira De Algumas Gasolineiras E Alerta Para Risco De De Inflação Atingir Dois Dígitos
- Governador Rogério Zandamela afirma que parte das dificuldades no abastecimento de combustíveis resulta da incapacidade financeira de alguns operadores para obter garantias bancárias, enquanto pressão inflacionista ligada ao petróleo continua a agravar-se.
- Banco de Moçambique admite que algumas gasolineiras não possuem capacidade financeira para importar combustíveis;
- Zandamela afirma que bancos continuam a priorizar financiamento e garantias para importação de combustíveis;
- Governador alerta para possibilidade de inflação atingir dois dígitos;
- CPMO manteve taxa MIMO em 9,25% e aumentou reservas obrigatórias em meticais;
- Banco Central garante que reembolso antecipado de 630 milhões de euros ao FMI não fragilizou reservas;
- Reservas internacionais continuam acima de cinco meses de cobertura de importações;
- Crise de combustíveis e conflito no Médio Oriente continuam a pressionar economia nacional.
O Banco de Moçambique reconheceu que parte significativa das dificuldades de abastecimento de combustíveis registadas nas últimas semanas resulta da fragilidade financeira de algumas gasolineiras nacionais, incapazes de obter garantias bancárias necessárias para importação de combustíveis.
A posição foi assumida pelo Governador Rogério Zandamela após a reunião do Comité de Política Monetária (CPMO), realizada em Maputo, numa altura em que o País continua a enfrentar impactos económicos associados à crise de combustíveis e à escalada das tensões no Médio Oriente.
“Há espaço, mas ele não está a ser utilizado porque, por decisão dessas instituições financeiras, as entidades que deveriam ter acesso a essas garantias não estão em condições de o fazer (…) por várias razões: estão falidas, não têm meticais, entre outras questões”, afirmou Zandamela.
Banco Central Afasta Culpa Dos Bancos Comerciais
As declarações do Governador procuram clarificar um dos principais pontos de debate surgidos nas últimas semanas relativamente às dificuldades de abastecimento de combustíveis.
Segundo Zandamela, os bancos comerciais continuam a priorizar a factura de importação de combustíveis, incluindo emissão de garantias para operações internacionais, mas enfrentam limitações relacionadas com o perfil financeiro de alguns operadores do sector.
“Os bancos estão efectivamente a apoiar e a priorizar a factura de combustíveis nas suas decisões de alocação de divisas”, afirmou o Governador.
O responsável explicou ainda que garantias bancárias equivalem, na prática, a operações de crédito, exigindo que os beneficiários apresentem capacidade financeira adequada.
“Se não tiver capacidade para obter esse crédito, mesmo sendo operador de combustíveis, o banco não fornecerá garantias”, sublinhou.
Segundo o Banco Central, os limites disponíveis para emissão de garantias permanecem abaixo da utilização efectiva por parte dos operadores do sector, sinalizando que o problema não reside necessariamente na disponibilidade bancária, mas na situação financeira de algumas empresas importadoras.
Crise Dos Combustíveis Agrava Pressões Inflacionistas
As dificuldades de abastecimento verificadas desde Abril obrigaram o Governo a aumentar os preços dos combustíveis no início de Maio, com o diesel a subir 45,5% e a gasolina 12,1%, num contexto de forte pressão internacional associada ao conflito no Médio Oriente.
O Banco de Moçambique admite agora que estes ajustamentos poderão ter efeitos significativos sobre a inflação.
Segundo Zandamela, as projecções inflacionistas foram revistas em alta e existe risco de a inflação atingir dois dígitos caso o conflito internacional se prolongue.
“O CPMO reconhece que poderá haver aceleração da inflação, eventualmente atingindo dois dígitos, dependendo da duração do conflito no Médio Oriente”, afirmou.
O Governador destacou igualmente os efeitos indirectos do aumento dos combustíveis sobre logística, abastecimento de bens e preços alimentares.
Banco Central Endurece Gestão De Liquidez
Face ao agravamento dos riscos inflacionistas, o CPMO decidiu manter a taxa MIMO em 9,25%, interrompendo o ciclo de cortes iniciado em Janeiro de 2024.
Ao mesmo tempo, o Banco Central decidiu aumentar o coeficiente de reservas obrigatórias em moeda nacional de 29% para 39%, medida destinada a absorver excesso de liquidez no sistema bancário e conter pressões inflacionistas.
A taxa de reservas obrigatórias em moeda estrangeira permaneceu inalterada em 29,5%.
Zandamela Defende Reembolso Antecipado Ao FMI
Outro tema abordado pelo Governador foi o reembolso antecipado de cerca de 630 milhões de euros ao Fundo Monetário Internacional (FMI), efectuado através das Reservas Internacionais Líquidas (RIL).
A decisão gerou debate nos últimos meses devido à redução das reservas internacionais e às persistentes reclamações empresariais sobre escassez de divisas no mercado nacional.
Zandamela rejeitou, contudo, que o pagamento tenha fragilizado a posição financeira do Banco Central.
“O Banco de Moçambique não ficou mais fraco, frágil ou vulnerável por causa desta decisão. Diria até o contrário”, afirmou.
Segundo o Governador, as reservas continuam em níveis considerados “extremamente confortáveis”, cobrindo actualmente cerca de cinco meses de importações.
Escassez De Divisas Continua A Preocupar Sector Privado
Apesar das garantias do Banco Central, persistem preocupações no sector empresarial relativamente ao acesso a moeda estrangeira para importação de matérias-primas e mercadorias.
A CTA tem vindo a alertar que a escassez de divisas representa uma emergência económica para várias empresas nacionais, afectando contratos, produção e capacidade operacional.
Num contexto marcado por pressão petrolífera, riscos fiscais, inflação crescente e desaceleração económica global, a gestão cambial e monetária deverá continuar no centro das preocupações macroeconómicas nos próximos meses.
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