
Moçambique Quer Transformar Experiência Chinesa De Combate À Pobreza Em Motor De Produtividade E Emprego Rural
- Em Beijing, o Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, destacou a agricultura, as infra-estruturas, o financiamento rural e a capacitação técnica como pilares centrais da cooperação com a China, defendendo uma abordagem orientada para o aumento da produtividade, criação de emprego e redução sustentável da pobreza.
Questões-Chave
- Moçambique pretende aprofundar a cooperação agrícola com a China através do projecto Africa Bridge;
- Governo considera a produtividade agrícola um dos principais instrumentos de combate à pobreza rural;
- Cerca de 65% da população moçambicana vive nas zonas rurais e aproximadamente 70% depende da agricultura ou de actividades relacionadas;
- Censo Agro-Pecuário indica que mais de 5,2 milhões de famílias praticam agricultura em pequenas explorações;
- Plano de Recuperação e Crescimento Económico identifica infra-estruturas, agricultura, PME’s e emprego jovem como prioridades;
- Governo considera a experiência chinesa uma referência internacional em matéria de redução da pobreza.
A experiência da China na redução da pobreza está a ganhar crescente relevância nas estratégias de desenvolvimento de vários países africanos, incluindo Moçambique. Em Beijing, durante uma entrevista concedida à CGTN no âmbito do Fórum Global de Redução da Pobreza e Desenvolvimento 2026, o Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, defendeu que a cooperação entre os dois países poderá desempenhar um papel decisivo no aumento da produtividade agrícola, na criação de emprego e na melhoria das condições de vida das populações rurais.
Num país onde a maioria da população continua a depender da agricultura para a sua subsistência, o governante considera que a transformação do sector agrícola permanece uma das chaves fundamentais para acelerar a redução da pobreza e promover um desenvolvimento económico mais inclusivo.
Agricultura Continua No Centro Da Estratégia De Desenvolvimento
A agricultura ocupa um lugar central na estratégia económica de Moçambique. Apesar dos avanços registados em diversos sectores, uma parte significativa da população continua a depender directamente da actividade agrícola para obtenção de rendimento, alimentação e sobrevivência.
Segundo Salim Valá, as iniciativas em curso no âmbito do projecto Africa Bridge estão a contribuir para reforçar a assistência técnica, a extensão rural, a investigação agrária e o acesso a tecnologias mais modernas, permitindo criar condições para um aumento gradual da produtividade agrícola.
O governante destacou particularmente a experiência chinesa em áreas como mecanização agrícola, irrigação, transferência tecnológica e modernização dos sistemas produtivos, considerando que estas componentes poderão ajudar Moçambique a enfrentar alguns dos constrangimentos históricos que limitam o desempenho do sector.
A expectativa é que a melhoria da produtividade permita não apenas aumentar a produção de cereais, tubérculos e hortícolas, mas também elevar os rendimentos dos pequenos produtores e fortalecer a segurança alimentar.
Pobreza Rural Continua Ligada À Baixa Produtividade
Para o Ministro, o combate à pobreza em Moçambique continua intimamente ligado ao desempenho da agricultura.
Os dados apresentados revelam a dimensão do desafio. Cerca de 65% da população vive nas zonas rurais e aproximadamente 70% dessa população dedica-se à agricultura ou a actividades económicas relacionadas. Quando a agricultura enfrenta dificuldades, os níveis de pobreza tendem igualmente a agravar-se.
O mais recente Censo Agro-Pecuário mostra que cerca de 5,2 milhões de famílias desenvolvem actividade agrícola em explorações geralmente inferiores a dois hectares, um indicador que evidencia a predominância da agricultura familiar de pequena escala.
Segundo Valá, muitos destes produtores continuam confrontados com limitações relacionadas com o acesso a sementes melhoradas, insumos, financiamento, assistência técnica e mercados, factores que contribuem para a manutenção de baixos níveis de produtividade.
Na sua avaliação, a redução sustentável da pobreza rural exige uma combinação de medidas que permitam aumentar a produção, melhorar a produtividade, fortalecer as ligações aos mercados e expandir o acesso ao financiamento agrícola.
Infra-Estruturas E Financiamento Permanecem Entre Os Principais Obstáculos
Embora a produtividade agrícola constitua um elemento central da estratégia de combate à pobreza, o governante reconhece que existem outros desafios estruturais que condicionam o desenvolvimento económico.
Entre eles destacam-se as limitações ao nível das infra-estruturas económicas, incluindo estradas, caminhos-de-ferro, portos, aeroportos e sistemas de conectividade digital. A insuficiência destas infra-estruturas continua a dificultar o acesso aos mercados, aumentar os custos de produção e reduzir a competitividade das actividades económicas nas zonas rurais.
O acesso ao financiamento constitui igualmente um dos principais constrangimentos identificados. Segundo o Ministro, o Governo tem procurado desenvolver mecanismos específicos de apoio ao financiamento agrícola e ao desenvolvimento económico rural, embora reconheça que o desafio permanece significativo.
Neste contexto, destacou o apoio concedido pela China para o desenvolvimento da agricultura de pequena escala em Moçambique, incluindo um donativo avaliado em cerca de 60 milhões de dólares destinado ao fortalecimento das actividades produtivas rurais.
Plano De Recuperação Procura Reforçar Produção E Criar Emprego
A cooperação com a China surge igualmente associada aos objectivos definidos no Plano de Recuperação e Crescimento Económico 2025–2029.
Segundo explicou Salim Valá, o plano foi concebido para responder aos impactos provocados por choques internos e externos, procurando criar condições para acelerar a produção, aumentar a produtividade, apoiar as pequenas e médias empresas e reduzir a dependência das importações de produtos alimentares.
A aposta passa por uma combinação de investimentos em infra-estruturas, desenvolvimento agrícola, fortalecimento das cadeias de valor, expansão do financiamento produtivo e promoção do empreendedorismo.
O governante considera que a China poderá desempenhar um papel relevante nestas áreas, não apenas através do financiamento de projectos, mas também por meio da transferência de conhecimento, capacitação técnica e partilha de experiências de desenvolvimento.
O Desafio De Criar Oportunidades Para Uma Nova Geração
Outro tema destacado durante a entrevista foi o emprego jovem.
Segundo Salim Valá, todos os anos cerca de 500 mil jovens concluem os seus estudos em escolas, institutos e universidades, entrando num mercado de trabalho que continua a enfrentar dificuldades para absorver essa força laboral crescente.
Na sua perspectiva, a criação de oportunidades económicas sustentáveis exige mecanismos inovadores capazes de integrar estes jovens nos sectores produtivos, permitindo-lhes participar na geração de riqueza, no desenvolvimento empresarial e na transformação económica do país.
A agricultura modernizada, as pequenas e médias empresas, a agro-indústria, as actividades pesqueiras e os pequenos negócios locais são apontados como áreas com elevado potencial para absorver mão-de-obra e gerar rendimento.
Aprender Com Uma Das Maiores Transformações Económicas Da História
Para Moçambique, a relevância da cooperação com a China vai além dos projectos específicos actualmente em implementação.
O país procura também retirar lições de uma das mais notáveis experiências de desenvolvimento das últimas décadas. A transformação económica chinesa permitiu retirar cerca de 800 milhões de pessoas da pobreza ao longo de aproximadamente quarenta anos, um resultado frequentemente apontado como um dos maiores processos de redução da pobreza da história contemporânea.
Na visão apresentada por Salim Valá, a adaptação de algumas dessas experiências às realidades moçambicanas poderá contribuir para acelerar o crescimento inclusivo, fortalecer as capacidades produtivas nacionais e criar melhores condições para que milhões de famílias rurais possam aumentar os seus rendimentos e melhorar as suas condições de vida.
Mais do que uma simples parceria bilateral, a cooperação entre Moçambique e a China é vista pelo Governo como uma oportunidade para transformar conhecimento, tecnologia e investimento em instrumentos concretos de desenvolvimento económico e redução sustentável da pobreza.
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