Ouro Caminha Para Maior Queda Mensal Desde 2008 Sob Pressão De Uma Fed Mais Restritiva

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  • O metal precioso acumulava uma desvalorização de 12,7% em Junho, afectado pela combinação entre expectativas de novas subidas das taxas de juro nos Estados Unidos, fortalecimento do dólar e redução do prémio de risco associado ao conflito no Médio Oriente.

Questões-Chave

  • O ouro à vista recuava para 3.956,92 dólares por onça, acumulando uma perda mensal de 12,7%.
  • O metal encaminha-se para a maior queda mensal desde Outubro de 2008 e para o primeiro recuo trimestral desde 2024.
  • As expectativas de uma política monetária mais restritiva nos Estados Unidos reforçam a atractividade dos activos remunerados em detrimento do ouro.
  • Prata, platina e paládio também seguem para perdas expressivas no mês e no trimestre.
  • Os dados norte-americanos sobre emprego, esperados esta semana, serão determinantes para recalibrar as expectativas em torno da Reserva Federal.

O ouro iniciou a sessão desta terça-feira em queda superior a 1%, encaminhando-se para o pior desempenho mensal desde o final de 2008, num movimento que evidencia a mudança de foco dos mercados: da procura por activos de refúgio para a antecipação de uma política monetária mais restritiva nos Estados Unidos.

O ouro à vista recuava 1,5%, para 3.956,92 dólares por onça, acumulando uma desvalorização de 12,7% ao longo de Junho. Os contratos futuros norte-americanos para entrega em Agosto desciam 1,7%, para 3.969,30 dólares por onça.

Caso esta tendência se confirme no fecho do mês, será a quarta queda mensal consecutiva do metal precioso e a mais acentuada desde Outubro de 2008. O ouro prepara-se igualmente para registar o primeiro recuo trimestral desde 2024 e o maior desde o segundo trimestre de 2013, segundo dados avançados pela Reuters.

Inflação E Juros Superam O Factor Refúgio

A guerra entre o Irão e os Estados Unidos, ao provocar uma escalada nos preços da energia, reforçou as preocupações com a inflação internacional. Contudo, em vez de sustentar uma procura prolongada por ouro, o novo contexto passou a fortalecer a expectativa de que a Reserva Federal norte-americana poderá responder com novas subidas das taxas de juro.

Esta alteração é particularmente relevante para o mercado do ouro. Embora o metal seja tradicionalmente procurado como reserva de valor em momentos de inflação e instabilidade, não oferece rendimentos aos investidores. Quando as taxas de juro sobem, aplicações como títulos do Tesouro norte-americano e outros activos remunerados tornam-se relativamente mais atractivos.

Edward Meir, analista da Marex, observou à Reuters que a conjugação de inflação elevada, expectativas de juros mais altos e valorização do dólar está a sobrepor-se aos factores que, em condições normais, sustentariam uma trajectória ascendente do ouro.

A leitura do mercado é, neste momento, de que a política monetária norte-americana poderá permanecer restritiva durante mais tempo do que o inicialmente antecipado.

Mercado Já Prevê Novas Subidas Da Fed

Os investidores estão actualmente a prever três aumentos das taxas de juro pela Reserva Federal ainda este ano. De acordo com as expectativas acompanhadas pelo CME FedWatch Tool, o mercado atribuía uma probabilidade próxima de 64% a uma subida na reunião de Setembro.

A atenção desloca-se agora para os novos dados do mercado de trabalho norte-americano, incluindo o relatório de emprego privado da ADP e os dados oficiais de criação de emprego não agrícola, ambos previstos para esta semana.

Estes indicadores poderão ajudar a clarificar se a economia dos Estados Unidos mantém uma dinâmica suficientemente robusta para justificar um novo aperto monetário. Um mercado laboral mais resiliente poderá reforçar a perspectiva de juros mais elevados, pressionando ainda mais o ouro. Pelo contrário, sinais de arrefecimento poderão moderar as expectativas de subida e abrir espaço para alguma recuperação das cotações.

Dólar Forte Agrava A Pressão Sobre O Metal

A trajectória do dólar norte-americano acrescenta uma segunda camada de pressão sobre o ouro. A moeda dos Estados Unidos encaminhava-se para o segundo ganho mensal consecutivo, tornando o metal mais caro para investidores que operam noutras moedas.

Como o ouro é negociado internacionalmente em dólares, uma apreciação da moeda norte-americana tende a reduzir a procura externa, sobretudo em mercados onde a conversão cambial eleva o custo de aquisição.

A força do dólar reflecte, em grande medida, a percepção de que os Estados Unidos poderão manter taxas de juro mais elevadas do que outras economias desenvolvidas. Esta diferença de rendibilidade favorece os activos denominados em dólar e limita a procura por metais preciosos.

Outros Metais Também Sofrem Correcção

A correcção não se restringe ao ouro. A prata recuava 2%, para 57,13 dólares por onça, encaminhando-se para a maior perda mensal desde Setembro de 2011 e para o desempenho trimestral mais fraco desde 2013.

A platina perdia 1,1%, para 1.557,21 dólares por onça, apontando para o pior mês desde 2008 e para a maior queda trimestral desde Janeiro de 2020. O paládio recuava 0,4%, para 1.208,17 dólares por onça.

A queda sincronizada dos metais preciosos e industriais sugere que o mercado está a reajustar posições perante um ambiente em que as taxas de juro, o dólar e a procura global voltam a assumir maior peso na formação dos preços.

Para o segundo semestre, Edward Meir antecipa que o ouro possa negociar entre 3.500 e 4.400 dólares por onça. O intervalo ilustra o nível de incerteza ainda presente: por um lado, juros elevados e dólar forte limitam uma recuperação imediata; por outro, a persistência de tensões geopolíticas e os riscos associados à inflação podem continuar a oferecer suporte ao metal em momentos de maior instabilidade.