• Maior cadeia de supermercados da África do Sul encerrou o exercício com cerca de 270,8 mil milhões de rands em vendas e prevê crescimento de até 14,7% nos resultados por acção. Enquanto a operação regional avançou 11%, Moçambique registou uma contracção de 16,4% em moeda reportada e 10,3% a câmbio constante, prolongando as interrogações sobre o desempenho e a sustentabilidade da operação no mercado nacional.
Questões-Chave:
  • As vendas da Shoprite provenientes das operações continuadas cresceram 7,2% nas 52 semanas terminadas em 28 de Junho de 2026, atingindo aproximadamente 270,8 mil milhões de rands;
  • O grupo acrescentou cerca de 18,1 mil milhões de rands às vendas anuais e antecipa um crescimento entre 9,7% e 14,7% do lucro por acção medido pelo HEPS;
  • A divisão de supermercados na África do Sul cresceu 7,1%, enquanto as operações nos restantes mercados africanos avançaram 11% em rands e 7,1% a câmbio constante;
  • Em sentido contrário, as vendas em Moçambique diminuíram 16,4% em termos reportados e 10,3% a câmbio constante, indicando que a deterioração não resulta apenas da conversão cambial;
  • A operação moçambicana já tinha sido identificada pela Shoprite como particularmente desafiante e permanece sob observação no quadro da consolidação da presença do grupo em África;
  • O desempenho negativo ocorre num contexto de recuperação económica ainda moderada em Moçambique, dificuldades persistentes de acesso a divisas e subida da inflação, factores susceptíveis de afectar consumo, importações e custos operacionais;

A Shoprite Holdings continua a crescer e a consolidar a liderança no retalho alimentar da África Austral, mas o seu desempenho mais recente revela uma divergência significativa entre a trajectória global do grupo e a evolução do negócio em Moçambique.

Na actualização operacional divulgada a 12 de Agosto, a maior cadeia de supermercados da África do Sul informou que as vendas das operações continuadas cresceram 7,2% nas 52 semanas terminadas em 28 de Junho de 2026, atingindo aproximadamente 270,8 mil milhões de rands.

O resultado representa cerca de 18,1 mil milhões de rands de vendas adicionais relativamente aos 252,7 mil milhões registados no exercício precedente. A empresa prevê igualmente que os lucros por acção das operações continuadas, medidos pelo indicador HEPS, aumentem entre 9,7% e 14,7%. Os resultados financeiros completos serão divulgados em 1 de Setembro. 

África do Sul Continua A Sustentar O Grupo

A base do crescimento continua fortemente concentrada no mercado doméstico.

A divisão Supermarkets RSA, responsável por 84,5% das vendas do grupo, aumentou a facturação em 7,1%, acrescentando aproximadamente 15,2 mil milhões de rands durante o exercício.

A Shoprite encerrou o período com 2.839 lojas próprias nesta divisão, depois da abertura líquida de 262 unidades, das quais 115 supermercados, 93 lojas de bebidas e 54 estabelecimentos dos novos formatos de negócio.

Mesmo num ambiente de baixa inflação dos preços praticados pela própria cadeia, as vendas comparáveis cresceram 2%. A inflação interna dos preços de venda foi de apenas 0,8%, contra uma inflação de 3,9% nos alimentos e bebidas não alcoólicas medida pela Statistics South Africa no período. 

O desempenho sugere que uma parte relevante da expansão do grupo não está a ser obtida apenas através do aumento dos preços, mas também através da expansão física, do crescimento das diferentes marcas e da capacidade de captar maior volume de negócio.

Checkers Cresce A Dois Dígitos

Dentro da operação sul-africana, a diferença de desempenho entre os formatos também é expressiva.

As vendas da Checkers e Checkers Hyper, incluindo Checkers LiquorShop, cresceram 10%, enquanto Shoprite e Usave, incluindo Shoprite LiquorShop, avançaram 4,3%.

A Checkers LiquorShop cresceu 14,5% e a Shoprite LiquorShop 10,6%.

Os números confirmam uma estratégia em que o grupo continua a defender simultaneamente diferentes segmentos de rendimento: Shoprite e Usave com maior exposição aos consumidores sensíveis ao preço, e Checkers numa posição de maior penetração entre consumidores de rendimento médio e superior. 

Esta diversificação permite à empresa crescer mesmo num contexto em que diferentes segmentos das famílias enfrentam pressões distintas sobre o rendimento disponível.

Sixty60 Já Movimenta 25,5 Mil Milhões de Rands

A transformação do modelo de retalho é igualmente visível no comércio electrónico.

As vendas da plataforma de entregas rápidas Checkers Sixty60 cresceram 34,5%, alcançando 25,5 mil milhões de rands durante o exercício.

O valor corresponde a quase 10% das vendas totais do grupo e coloca a operação digital numa escala que já ultrapassa a dimensão anual de várias cadeias tradicionais de retalho que operam no continente.

Paralelamente, os negócios adjacentes cresceram 57,4%. Os novos formatos — Petshop Science, Uniq Clothing by Checkers, Checkers Outdoor e Little Me — registaram expansão conjunta de 57,3%. 

A Shoprite está, deste modo, a ampliar o modelo económico para além do supermercado convencional: mais lojas, mais categorias, comércio electrónico e utilização crescente da sua base de clientes para entrar em segmentos complementares.

Operações Africanas Também Crescem

O desempenho fora da África do Sul foi, globalmente, positivo.

As vendas da divisão Supermarkets Non-RSA cresceram 11% quando convertidas para rands, representando 8,4% das vendas totais do grupo. Eliminando os efeitos das oscilações cambiais, o crescimento foi de 7,1%.

A divisão encerrou o exercício com 276 lojas em sete países, depois de acrescentar oito unidades líquidas durante o período. 

Contudo, os dados por país mostram trajectórias muito diferentes.

Na Zâmbia, as vendas cresceram 27,4% em moeda reportada e 7,2% a câmbio constante. Em Angola, aumentaram 2,1% quando convertidas para a moeda de reporte, mas cresceram 9,8% a câmbio constante.

Moçambique seguiu na direcção oposta.

Moçambique Destaca-se Pela Negativa

As vendas da Shoprite em Moçambique diminuíram 16,4% em moeda reportada, o pior desempenho entre os principais mercados individualizados pela empresa.

A apreciação torna-se ainda mais relevante quando se elimina a componente cambial: as vendas caíram 10,3% a câmbio constante

Isto significa que a queda não pode ser explicada predominantemente pela conversão das receitas em meticais para rands.

A metodologia de câmbio constante utilizada pela Shoprite converte as vendas do período actual às taxas médias do período anterior, precisamente para retirar das comparações o efeito das oscilações das moedas nacionais.

Mesmo depois desse ajustamento, a operação moçambicana apresenta uma redução de dois dígitos.

O contraste é significativo: enquanto o conjunto dos supermercados fora da África do Sul cresceu 7,1% a câmbio constante, Moçambique caiu 10,3%.

Deterioração Já Era Visível No Primeiro Semestre

O resultado anual prolonga um problema que a própria Shoprite já tinha reconhecido nos resultados relativos aos primeiros seis meses do exercício.

Em Março, quando apresentou as contas do semestre terminado em Dezembro de 2025, o grupo afirmou que a rentabilidade das operações fora da África do Sul permanecia desafiante e destacou especificamente as “condições adversas em Moçambique” como um dos factores que penalizaram o desempenho do segmento. 

A nova actualização mostra agora que, apesar do crescimento das operações africanas no conjunto do exercício, a deterioração das vendas no mercado moçambicano persistiu.

A Shoprite opera actualmente cerca de 26 lojas em Moçambique, segundo informação anteriormente disponibilizada pela companhia e reportada pela Lusa. 

A dimensão da queda ganha, por isso, importância não apenas como indicador de vendas, mas como elemento adicional para a avaliação estratégica que o grupo já vinha fazendo relativamente à continuidade da sua presença no País.

Moçambique Está Na “Watch List”

Em Setembro de 2025, o CEO da Shoprite, Pieter Engelbrecht, revelou à Reuters que Moçambique estava na lista de mercados sob observação do grupo.

A empresa atravessava um processo de consolidação da sua presença africana, depois de abandonar ou anunciar a saída de mercados como Nigéria, Quénia, República Democrática do Congo, Uganda, Madagáscar, Ghana e Malawi.

Engelbrecht associou a cautela relativamente a Moçambique às dificuldades económicas e de segurança, assim como aos sucessivos adiamentos dos grandes projectos de gás natural no norte do País. Na altura, não existia, contudo, uma decisão de abandonar o mercado. 

A estratégia africana da Shoprite passou, nos últimos anos, de uma política de expansão continental para uma concentração crescente em mercados da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral, onde a proximidade logística e operacional com a África do Sul oferece vantagens adicionais.

Moçambique permanece dentro desse perímetro geográfico, mas os resultados mais recentes aumentam a relevância da questão económica: até que ponto a escala e as perspectivas de crescimento do mercado compensam os custos e riscos de continuar a operar?

A Queda Diz Mais Sobre A Shoprite Ou Sobre A Economia?

Os resultados de uma única empresa não permitem, isoladamente, concluir que o consumo privado moçambicano tenha diminuído 10,3%.

A Shoprite pode perder vendas por diferentes razões: concorrência, alterações no número ou desempenho das lojas, mudança dos hábitos dos consumidores, disponibilidade de produtos, decisões comerciais ou problemas específicos da própria operação.

Mas uma contracção desta dimensão numa cadeia com presença nacional, acompanhada da referência explícita da própria empresa a condições adversas no mercado, constitui um indicador empresarial que merece ser confrontado com a conjuntura económica mais ampla.

E essa conjuntura continua exigente.

Em Junho, o Fundo Monetário Internacional considerou que a actividade económica moçambicana estava a recuperar gradualmente da contracção registada em 2025, mas salientou que o crescimento permanecia moderado e que as persistentes dificuldades de acesso a divisas continuavam a afectar as importações e a actividade económica. 

Divisas São Particularmente Relevantes Para O Retalho

Para uma cadeia de retalho integrada regionalmente, a disponibilidade de moeda estrangeira possui importância operacional directa.

Mesmo quando parte dos produtos vendidos é adquirida localmente, grandes operadores dependem de cadeias de abastecimento que envolvem importações de produtos acabados, matérias-primas, equipamentos, tecnologia, serviços e diferentes componentes logísticas.

Dificuldades prolongadas na obtenção de divisas podem aumentar tempos de aprovisionamento, necessidades de stocks, custos financeiros e complexidade operacional.

Isto não significa que a escassez cambial explique directamente a queda das vendas da Shoprite em Moçambique — a empresa não atribuiu os 10,3% de redução a esse factor na actualização de Agosto.

Mas o problema integra o ambiente económico em que os grandes operadores de retalho estão actualmente a funcionar. O FMI voltou a assinalar, em Junho, que as restrições cambiais continuam a pesar sobre as importações e sobre a actividade económica moçambicana. (

Inflação Volta A Pressionar O Consumidor

A evolução recente dos preços introduz outra variável.

A inflação anual de Moçambique situou-se em 7,48% em Julho, segundo dados do Índice de Preços no Consumidor divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e reproduzidos pelo Banco de Moçambique. A taxa desacelerou relativamente ao mês anterior, mas permanece significativamente acima dos níveis observados no início do ano. 

Para o retalho alimentar, a inflação possui efeitos ambivalentes.

Pode aumentar nominalmente as vendas à medida que os preços sobem, mas, quando o crescimento dos rendimentos não acompanha os preços, também comprime o poder de compra das famílias e pode induzir alterações no cabaz: menos produtos, substituição de marcas, preferência por formatos mais baratos e maior procura por canais informais.

É precisamente por isso que o desempenho moçambicano da Shoprite merece atenção: a queda de 10,3% a câmbio constante indica que nem a própria dinâmica nominal das vendas foi suficiente para impedir uma contracção significativa do negócio.

Concorrência E Informalidade Também Contam

O mercado moçambicano de retalho não pode ser analisado apenas pela evolução macroeconómica.

As grandes cadeias formais competem entre si, com operadores locais e regionais e, sobretudo, com uma extensa rede de comércio informal e de proximidade.

Em períodos de maior pressão sobre os rendimentos familiares, a flexibilidade de preços, quantidades e condições de compra oferecida pelo comércio informal pode adquirir importância adicional.

Por outro lado, os operadores formais suportam custos relacionados com instalações, fiscalidade, energia, logística, segurança, sistemas tecnológicos e requisitos de conformidade que influenciam a estrutura final dos preços.

Neste contexto, a evolução da Shoprite poderá reflectir uma combinação de factores específicos da empresa com condicionantes mais amplas do mercado.

O Contraste Regional Torna O Sinal Mais Relevante

O aspecto que mais distingue os resultados de Moçambique é que a deterioração ocorre quando a Shoprite está a crescer praticamente em todas as principais dimensões do negócio.

As vendas do grupo avançaram 7,2%.

A África do Sul cresceu 7,1%.

As operações africanas fora do mercado doméstico avançaram 7,1% a câmbio constante.

A Zâmbia cresceu 7,2%.

Angola cresceu 9,8%.

E o negócio digital Sixty60 avançou 34,5%.

Moçambique recuou 10,3%. 

É esta divergência, mais do que a queda isolada, que transforma os resultados da Shoprite num indicador relevante para a economia moçambicana.

Resultados de Setembro Podem Esclarecer A Rentabilidade

A actualização divulgada esta semana é essencialmente operacional. A Shoprite ainda não apresentou todos os detalhes financeiros correspondentes ao exercício terminado em Junho.

Os resultados completos serão publicados no dia 1 de Setembro de 2026, quando será possível avaliar margens, lucro operacional, cash flow, rentabilidade por segmento e eventuais comentários adicionais da administração sobre mercados específicos. (

Será particularmente importante perceber se a administração volta a individualizar Moçambique entre os factores que condicionam a rentabilidade das operações fora da África do Sul e se fornece alguma indicação sobre a revisão estratégica anunciada anteriormente.

Por enquanto, há uma constatação clara: a Shoprite está a crescer, a expandir a rede, a acelerar no comércio electrónico e a antecipar lucros superiores, mas o seu negócio em Moçambique move-se na direcção contrária.

Isso não constitui, por si só, um diagnóstico da economia nacional. Mas, tratando-se de um dos maiores operadores de retalho do continente, com mais de duas dezenas de lojas no País e capacidade para comparar directamente o desempenho entre diferentes mercados da região, é um sinal empresarial que dificilmente pode ser ignorado.

A questão que passa a colocar-se é se a contracção representa uma dificuldade transitória da operação ou se constitui mais um indicador de que o mercado moçambicano está a oferecer às grandes cadeias formais de retalho uma combinação de crescimento, poder de compra e condições operacionais menos favorável do que a observada noutros mercados da África Austral.

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