
Banca Moçambicana Reforça Solidez, Mas Risco Soberano Continua A Ser A Principal Vulnerabilidade
- Relatório de Estabilidade Financeira do Banco de Moçambique mostra um sistema bancário capitalizado, líquido e com menor incumprimento em 2025. Contudo, a crescente exposição à dívida pública interna, o fraco ritmo do crédito à economia e os efeitos de choques climáticos mantêm desafios relevantes para a estabilidade financeira.
Questões-Chave
- O rácio de solvabilidade global da banca subiu para 28,14%, mais do dobro do mínimo regulamentar de 12%.
- O crédito em incumprimento recuou de 9,31% para 7,47%, mas permanece acima do referencial prudencial internacional de 5%.
- O risco sistémico manteve-se moderado, com o índice a descer para 29,86%, beneficiando da redução do risco macroeconómico.
- O risco soberano permanece severo, perante a pressão do endividamento público interno e a concentração de investimentos em títulos do Estado.
- A digitalização dos pagamentos ganhou força, com as transacções via SIMOrede a crescerem mais de 40% em volume.
O sistema financeiro moçambicano encerrou 2025 com indicadores de estabilidade e resiliência, beneficiando da melhoria da qualidade da carteira de crédito, de níveis confortáveis de capitalização e de uma posição de liquidez reforçada. Mas a leitura do novo Relatório de Estabilidade Financeira do Banco de Moçambique revela também uma fragilidade estrutural que continua a condicionar o sector: a elevada exposição ao risco soberano, num contexto de crescente recurso do Estado ao financiamento interno.
O relatório, publicado em Junho de 2026 e relativo ao exercício de 2025, conclui que o risco sistémico permaneceu num nível moderado. O respectivo índice fixou-se em 29,86%, menos 5,56 pontos percentuais do que em Dezembro de 2024, sobretudo devido à redução do risco macroeconómico. A melhoria esteve associada ao crescimento anual do PIB no quarto trimestre de 2025 e à desaceleração da inflação anual, que passou de 4,15% para 3,23%.
Mas esta evolução positiva não elimina os riscos. O Banco de Moçambique sublinha que o risco soberano se manteve em nível severo, reflectindo a pressão persistente sobre a dívida pública interna, a concentração de investimentos financeiros em instrumentos do Estado e a exposição crescente do sistema bancário, das seguradoras e dos fundos de pensões às obrigações do Tesouro.
Banca Mais Capitalizada E Com Maior Liquidez
O sector bancário manteve uma posição de capital robusta. Em Dezembro de 2025, o rácio de solvabilidade global situou-se em 28,14%, acima dos 26,11% registados um ano antes e muito superior ao mínimo regulamentar de 12%.
A evolução reflecte o crescimento dos fundos próprios em 11,18%, impulsionado pelo reforço de reservas legais, estatutárias e outras. O rácio de solvabilidade de base atingiu 28,70%, igualmente acima do mínimo de 10% exigido pelo regulador.
A posição de liquidez também melhorou. O rácio de cobertura de liquidez de curto prazo fixou-se em 60,46%, comparativamente a 49,64% em 2024, permanecendo muito acima do mínimo regulamentar de 25%. Esta evolução foi apoiada pelo crescimento dos depósitos, que atingiram 785,64 mil milhões de meticais, mais 10,17% do que no ano anterior.
Os depósitos continuam a ser a principal fonte de financiamento da actividade bancária, representando 86,60% do passivo total do sector. Cerca de 79,85% dos depósitos encontravam-se denominados em moeda nacional, confirmando uma tendência de redução do peso dos depósitos em moeda estrangeira.
O aumento da liquidez, contudo, revela também uma realidade menos favorável para a economia produtiva: os bancos continuaram a privilegiar aplicações de elevada liquidez, menor risco e rendibilidade previsível, em detrimento da expansão do crédito.
Crédito Melhora, Mas Continua Abaixo Do Potencial
A qualidade da carteira de crédito registou uma melhoria relevante. O rácio de crédito em incumprimento reduziu-se de 9,31% em 2024 para 7,47% em 2025, enquanto o valor total do crédito em incumprimento recuou para 27,99 mil milhões de meticais.
A redução foi favorecida por operações de saneamento e regularização de créditos. Ainda assim, o nível de incumprimento continua acima do limite de 5% frequentemente utilizado como referência prudencial internacional.
A agricultura apresentou o rácio de incumprimento mais elevado, de 17,42%, seguida dos transportes e comunicações, com 14,08%, da indústria, com 13,23%, e do comércio, com 9,62%. Estes sectores foram particularmente afectados por choques climáticos, perturbações económicas e efeitos da tensão pós-eleitoral, segundo a análise do Banco de Moçambique.
O comércio concentrou a maior parcela do crédito em incumprimento, com 29,65% do total, seguido pelos transportes e comunicações, com 22,51%. O crédito reestruturado atingiu 21,46 mil milhões de meticais, equivalentes a 7,92% da carteira total, tendo os transportes e comunicações concentrado 39,28% desse montante.
O dado mais revelador é o rácio de transformação de depósitos em crédito, que baixou de 40,84% para 37,28%. Isto significa que uma parcela relativamente reduzida dos recursos captados pelos bancos está a ser canalizada para financiamento da economia. A melhoria da liquidez, por si só, não se traduz automaticamente em maior crédito para empresas, agricultura, indústria ou famílias.
Lucros Recuam Com Custos E Imparidades
A rendibilidade do sector bancário manteve-se positiva, mas recuou de forma expressiva. O relatório aponta para uma redução próxima de 38% dos resultados líquidos do sistema, associada ao aumento dos custos operacionais, sobretudo com pessoal, e ao agravamento das perdas por imparidade.
O retorno sobre os activos, ou ROA, reduziu-se para 2,16%, enquanto o retorno sobre os capitais próprios, o ROE, baixou para 8,63%. O rácio cost-to-income aumentou para 56,55%, revelando maior pressão dos custos sobre a rentabilidade das instituições.
A margem financeira cresceu 6,17%, sustentada pelo aumento do volume de intermediação. Mas a redução do respectivo rácio sugere que o desempenho da banca não dependeu de uma expansão significativa dos diferenciais de taxas de juro, mas sobretudo da escala das operações e da composição dos activos.
Os três bancos domésticos de importância sistémica — BCI, Millennium bim e Standard Bank — mantiveram posição dominante, embora em trajectória decrescente. No final de 2025, concentravam 58,09% dos activos, 62,18% dos depósitos e 54,04% do crédito do sistema, sinalizando maior dinamismo de bancos não sistémicos na conquista de mercado.
Estado Absorve Espaço No Mercado Financeiro
O principal alerta do Banco de Moçambique está ligado ao risco soberano. A dívida pública interna atingiu 474 mil milhões de meticais em Dezembro de 2025, num cenário marcado pelo recurso intensivo a Obrigações do Tesouro e Bilhetes do Tesouro para financiamento das necessidades do Estado.
No Mercado de Valores Mobiliários, as Obrigações do Tesouro representavam 85,71% da capitalização bolsista. No volume de transacções, o seu peso foi ainda maior: 97,99%.
Esta predominância reduz o espaço para o financiamento empresarial no mercado de capitais. Embora a capitalização bolsista tenha aumentado para 221,99 mil milhões de meticais, a actividade continua concentrada em dívida pública, com participação limitada de acções e obrigações corporativas.
O relatório observa que esta configuração não favorece o alargamento das alternativas de financiamento para as empresas. A consequência é uma economia em que o crédito bancário permanece caro e selectivo, enquanto o mercado de capitais ainda não assume plenamente o papel de canal complementar de financiamento produtivo.
Também os fundos de pensões e as seguradoras aumentaram a sua exposição a títulos públicos. Os fundos de pensões detinham 36,88% do valor total das aplicações no Mercado de Valores Mobiliários, com forte concentração em Obrigações do Tesouro. No sector de seguros, as OT passaram a representar 38% das aplicações no mercado, contra 26,75% no ano anterior.
Pagamentos Digitais Mudam A Estrutura Financeira
A digitalização dos pagamentos foi uma das tendências mais fortes observadas em 2025. As transacções electrónicas nacionais processadas pela SIMOrede cresceram 40,56% em volume e 31,99% em valor, abrangendo operações realizadas por ATM, POS, mobile banking e instituições de moeda electrónica.
Pela primeira vez, a SIMOrede tornou-se o sistema com maior peso no conjunto dos pagamentos processados no território nacional, superando o sistema de liquidação interbancária em tempo real, RTGS.
Em sentido contrário, o sistema de compensação electrónica, associado sobretudo a cheques e ordens de pagamento, registou redução de 22,31% no número de transacções e de 14,65% no valor processado. A mudança confirma a crescente preferência por meios mais rápidos, móveis e digitalizados.
O Banco de Moçambique relaciona esta transformação com a disseminação de smartphones, a inovação financeira, a expansão de canais digitais, a redução dos custos operacionais e o reforço da cibersegurança. O lançamento do sistema de pagamentos instantâneos METIX, em Março de 2026, surge como continuação desta trajectória.
Estabilidade Não Elimina Vulnerabilidades
O relatório sustenta que o sistema financeiro possui margem para absorver choques. Mas identifica vulnerabilidades que podem afectar essa resiliência: o endividamento público interno, a instabilidade em Cabo Delgado, os efeitos económicos de tensões pós-eleitorais e a crescente incidência de eventos climáticos extremos.
Os ciclones Dikeledi e Jude, ocorridos em Janeiro e Março de 2025, são referidos como exemplos de como os choques climáticos já se traduzem em risco financeiro. A destruição de infra-estruturas, unidades produtivas e habitações afecta a capacidade de famílias e empresas honrarem compromissos de crédito, agravando riscos de incumprimento e pressionando a actividade económica.
Para o curto e médio prazos, o Banco de Moçambique antecipa que o risco sistémico deverá manter-se moderado. Mas prevê que o risco soberano continue severo, em função da pressão sobre o endividamento interno, enquanto o risco macroeconómico poderá voltar a agravar-se perante a desaceleração do crescimento, os efeitos dos choques climáticos e possíveis pressões inflacionárias associadas ao contexto internacional.
O retrato de 2025 é, assim, de uma banca sólida e mais líquida, mas ainda distante de uma intermediação financeira plenamente orientada para financiar a transformação produtiva. A estabilidade alcançada constitui uma base importante. O desafio seguinte será garantir que essa estabilidade se converta em mais crédito, maior diversificação do mercado financeiro e menor dependência do Estado como principal absorvedor de recursos.
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