IA Não Basta Para Restituir o Ciclo de Crescimento Rápido, Alerta Pissarides

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  • Economista laureado com o Nobel sustenta que a inteligência artificial deverá elevar a produtividade em alguns sectores, mas dificilmente reproduzirá, por si só, o grande salto tecnológico das décadas de 1980 e 1990. O debate recoloca no centro a qualidade das instituições, do capital humano e da capacidade de transformar tecnologia em produção.
Questões-Chave:
  • Christopher Pissarides considera prematuro assumir que a inteligência artificial devolverá às economias ocidentais o ritmo acelerado de crescimento da produtividade registado em anteriores ciclos tecnológicos;
  • Segundo o economista, uma parcela significativa dos empregos no Reino Unido e nos Estados Unidos poderá permanecer pouco exposta à IA, sobretudo em actividades de contacto humano e prestação directa de serviços;
  • A tecnologia poderá gerar ganhos relevantes em sectores como finanças, análise de dados e serviços digitais, mas a sua escala dependerá da difusão efectiva pelas restantes áreas da economia;
  • A posição contrasta com leituras mais optimistas, como a do governador do Banco de Inglaterra, Andrew Bailey, que vê na IA um potencial factor de recuperação do crescimento, embora com efeitos graduais;
  • Para países como Moçambique, o debate recomenda prudência: a IA pode ampliar capacidades, mas não substitui investimento em educação, conectividade, instituições e modernização produtiva.

A inteligência artificial tornou-se, nos últimos anos, a grande promessa de renovação do crescimento mundial. Empresas tecnológicas, investidores e decisores públicos vêem nela uma ferramenta capaz de automatizar tarefas, acelerar processos, reduzir custos e abrir novas fronteiras para a inovação. Mas Christopher Pissarides, economista laureado com o Prémio Nobel, introduz uma nota de prudência no debate: a IA poderá melhorar a produtividade, mas não há ainda evidência suficiente de que consiga devolver às economias ocidentais o ritmo de expansão observado nas grandes revoluções tecnológicas do final do século XX.

Em declarações à Bloomberg News, Pissarides — professor da London School of Economics e distinguido em 2010 pelo seu trabalho sobre fricções no mercado de trabalho — afirmou que a tecnologia poderá ter um impacto limitado numa proporção relevante dos empregos, sobretudo em actividades como enfermagem, hotelaria e outros serviços intensivos em interacção humana. Na sua leitura, até quatro em cada dez empregos no Reino Unido e nos Estados Unidos poderão não beneficiar directamente de ganhos significativos de produtividade associados à IA.

A observação não nega o potencial da tecnologia. O que questiona é a ideia de que a simples disseminação de ferramentas de inteligência artificial será suficiente para reactivar, de forma automática, um ciclo prolongado de crescimento económico elevado.

Entre a Promessa Tecnológica e a Economia Real

A história económica mostra que as grandes inovações raramente produzem efeitos imediatos e homogéneos. A electricidade, a informática, a internet ou a automação industrial tornaram-se transformadoras não apenas por existirem, mas porque foram acompanhadas por novas competências, investimento empresarial, alterações na organização do trabalho, infra-estruturas e adaptações institucionais.

É esse intervalo entre a inovação e a sua incorporação efectiva na economia que parece preocupar Pissarides. Segundo o economista, embora a IA possa gerar ganhos de eficiência em sectores mais expostos à digitalização — como finanças, consultoria, software, serviços administrativos ou análise de informação — seria necessário um salto excepcional nesses segmentos para produzir os níveis de crescimento da produtividade antecipados pelos mais optimistas.

A advertência é particularmente relevante porque, nos últimos anos, a desaceleração da produtividade nas economias desenvolvidas passou a ser vista como uma das causas estruturais da moderação do crescimento, da estagnação salarial e da crescente dificuldade de conciliar investimento público, protecção social e sustentabilidade orçamental.

Para Pissarides, não há ainda sinais de que a IA esteja a alterar esta trajectória de forma suficientemente abrangente. A tecnologia pode melhorar processos, reduzir tarefas repetitivas e elevar a qualidade de certas decisões, mas a economia não se transforma apenas através de instrumentos mais sofisticados. Transforma-se quando esses instrumentos modificam, em escala, a capacidade de produzir, organizar, inovar e competir.

Nem Todos os Empregos Serão Reconfigurados

O debate sobre IA costuma oscilar entre dois extremos: a ideia de que substituirá uma parcela muito ampla da força de trabalho e a expectativa de que criará, sem fricções, novas oportunidades e profissões. A posição de Pissarides situa-se num ponto mais cauteloso.

Actividades que exigem presença física, julgamento humano, empatia, destreza manual ou relacionamento directo com pessoas tendem a ser menos susceptíveis a uma substituição rápida. Cuidados de saúde, hotelaria, serviços pessoais, educação presencial, construção e numerosas actividades de pequena escala podem beneficiar de ferramentas digitais, mas dificilmente serão reorganizados apenas por algoritmos.

Isto não significa que esses sectores fiquem imunes à transformação. A IA poderá auxiliar no planeamento, na gestão de informação, no atendimento, na logística, na formação ou na prevenção de riscos. Mas a diferença entre apoiar o trabalho humano e substituir o trabalho humano é decisiva para avaliar o impacto económico agregado da tecnologia.

Ao chamar atenção para este limite, Pissarides questiona a expectativa de que a inteligência artificial, por si só, produzirá um novo “boom” comparável ao ciclo de informatização e digitalização das décadas de 1980 e 1990.

A Política Monetária Também Procura Respostas

A incerteza em torno do impacto macroeconómico da IA chega igualmente aos bancos centrais. A tecnologia pode ampliar a produtividade, reduzir custos e, em determinadas circunstâncias, atenuar pressões inflacionistas. Mas também pode provocar concentração de rendimentos, deslocação de trabalhadores, maior procura por energia e investimento pesado em infra-estruturas digitais.

No mesmo debate, o governador do Banco de Inglaterra, Andrew Bailey, reconheceu que a transmissão dos efeitos da IA para os indicadores de crescimento poderá levar tempo, embora tenha admitido que a tecnologia poderá revelar-se decisiva para melhorar o desempenho económico no futuro.

A diferença entre Bailey e Pissarides não é necessariamente uma divergência sobre a importância da IA. É, sobretudo, uma diferença de horizonte e de grau de confiança. Um vê um potencial ainda por materializar; o outro alerta para o risco de se confundir potencial tecnológico com resultado económico garantido.

O Desafio Para Economias Emergentes

Para Moçambique e outras economias africanas, esta discussão deve ser lida com sentido estratégico. A inteligência artificial pode ajudar a expandir acesso a serviços financeiros, melhorar a gestão pública, fortalecer cadeias agrícolas, apoiar diagnósticos de saúde, aperfeiçoar a educação digital, reduzir custos logísticos e ampliar a capacidade analítica das empresas.

Mas os ganhos dependerão das condições que tornam uma tecnologia social e economicamente útil: conectividade, energia fiável, qualificação técnica, literacia digital, dados de qualidade, segurança cibernética, enquadramento regulatório e empresas capazes de incorporar soluções nos seus modelos de negócio.

O risco está em adoptar a IA apenas como instrumento de consumo tecnológico, sem a associar à produção, à investigação, à formação profissional e à resolução de problemas concretos. A oportunidade, pelo contrário, reside em utilizá-la para superar limitações históricas de acesso, informação e escala.

A discussão suscitada por Pissarides lembra, assim, que a inteligência artificial não é um atalho automático para o desenvolvimento. O seu valor económico será definido pela forma como cada país articula tecnologia, competências, investimento e instituições. Só nessa convergência a inovação deixa de ser promessa e passa a constituir uma capacidade efectiva de transformação.