AfDB Defende Nova Arquitectura Financeira Para Transformar o Potencial Africano em Escala Económica

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  • No Fórum do Caucus Africano do FMI e Banco Mundial, em Banjul, o presidente do Banco Africano de Desenvolvimento, Sidi Ould Tah, defendeu que África precisa de mobilizar o seu próprio capital, reduzir a fragmentação financeira e converter recursos naturais em cadeias de valor, emprego e prosperidade partilhada.
Questões-Chave:
  • África necessita de mais de 400 mil milhões de dólares por ano para financiar a sua transformação, enquanto dispõe de mais de 4 biliões de dólares em bancos, fundos de pensões, seguradoras e fundos soberanos;
  • O continente concentra 18% da população mundial, mais de 30% das reservas minerais e mais de 60% das terras aráveis não cultivadas, mas representa apenas cerca de 3% do comércio e do PIB globais;
  • O AfDB estima em cerca de 50 mil milhões de dólares o défice de garantias que limita a mobilização de investimento privado para África;
  • O comércio intra-africano situa-se em apenas 16%, muito abaixo dos cerca de 60% na Ásia e 70% na Europa;
  • A nova visão do banco assenta em quatro prioridades: mobilização de capital, consolidação das instituições financeiras africanas, emprego para jovens e mulheres e transformação local de matérias-primas.

O Presidente do Grupo Banco Africano de Desenvolvimento, Sidi Ould Tah, defendeu uma mudança de escala na forma como África financia, organiza e transforma a sua economia. Numa intervenção dirigida ao Caucus Africano do Fundo Monetário Internacional e do Grupo Banco Mundial, em Banjul, o responsável sustentou que o continente já não pode limitar-se a procurar recursos externos para suprir as suas necessidades de desenvolvimento: precisa de estruturar mecanismos que permitam mobilizar as suas próprias poupanças, reduzir riscos, atrair capital privado e converter os seus recursos em capacidade produtiva.

A mensagem parte de uma contradição que continua a marcar a posição africana na economia global. Segundo Ould Tah, África reúne 18% da população mundial, mais de 30% das reservas minerais globais e mais de 60% das terras aráveis ainda não cultivadas, mas representa apenas cerca de 3% do comércio e do Produto Interno Bruto mundial. A distância entre recursos disponíveis e influência económica efectiva constitui, na sua leitura, um dos principais desafios estratégicos do continente.

Quatro Paradoxos Que Limitam a Escala Africana

O presidente do AfDB organizou a sua intervenção em torno de quatro paradoxos. O primeiro é o da dimensão sem influência: África possui activos demográficos, minerais e agrícolas de dimensão global, mas continua com peso limitado nas cadeias de valor, no comércio e na produção mundial.

O segundo é o paradoxo do financiamento. O continente necessita de mais de 400 mil milhões de dólares por ano para financiar a sua transformação estrutural, mas dispõe, segundo o AfDB, de mais de 4 biliões de dólares em activos mantidos em bancos, fundos de pensões, seguradoras e fundos soberanos africanos. A questão, portanto, não é apenas a escassez de recursos; é a dificuldade de os converter em financiamento de longo prazo para infra-estruturas, indústria, agricultura, energia e inovação.

O terceiro paradoxo está relacionado com o investimento. África oferece oportunidades relevantes nos sectores de energia, infra-estruturas, agricultura e minerais críticos, mas recebe apenas cerca de 6% do investimento directo estrangeiro mundial. Para Ould Tah, o problema não reside necessariamente na falta de apetite dos investidores, mas na insuficiência de instrumentos capazes de tornar os riscos africanos financiáveis. O AfDB estima que o continente enfrenta um défice de garantias de cerca de 50 mil milhões de dólares.

O quarto paradoxo é o da fragmentação. Com uma população estimada em 1,4 mil milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto superior a 3 biliões de dólares, África continua a realizar apenas 16% do seu comércio dentro do próprio continente, em comparação com cerca de 60% na Ásia e 70% na Europa. Nesta perspectiva, a Zona de Comércio Livre Continental Africana deixa de ser apenas um acordo comercial e passa a ser um instrumento central de reorganização económica e industrial do continente.

Capital Africano Para Financiar Prioridades Africanas

A resposta do Banco Africano de Desenvolvimento a estas limitações assenta no que o seu presidente designa por “Quatro Pontos Cardeais”. O primeiro consiste em mobilizar capital em escala, combinando a activação das poupanças internas com a capacidade de atrair financiamento global.

A lógica é que os bancos multilaterais de desenvolvimento, por si só, não conseguem cobrir o défice de financiamento africano. O seu papel deve passar, cada vez mais, por reduzir riscos, estruturar projectos, oferecer garantias e criar condições para que cada dólar de capital público mobilize múltiplos de investimento privado.

Esta é uma abordagem particularmente relevante para países como Moçambique, onde as necessidades de investimento em energia, corredores logísticos, agricultura, industrialização, infra-estruturas urbanas, capital humano e adaptação climática exigem recursos que ultrapassam a capacidade orçamental do Estado. O desafio está em transformar activos financeiros dispersos, receitas de recursos naturais e capital externo em instrumentos de investimento produtivo de longo prazo.

Menos Fragmentação, Mais Capacidade Financeira Continental

O segundo eixo da proposta do AfDB defende a reforma e consolidação das instituições financeiras africanas. Ould Tah observou que o continente dispõe de mais de uma centena de instituições nacionais e regionais de financiamento ao desenvolvimento, mas que a sua capacidade combinada permanece reduzida face à escala das necessidades e ao peso das grandes instituições globais.

Neste contexto, o Banco Africano de Desenvolvimento aponta para a Nova Arquitectura Financeira Africana para o Desenvolvimento, associada ao Consenso de Abidjan, como uma via para reforçar a coordenação, complementaridade e transformação de riscos entre instituições africanas.

A intenção não é substituir os parceiros internacionais, mas construir uma base financeira continental mais robusta e menos dependente de soluções externas fragmentadas. A capacidade de estruturar projectos, conceder garantias, financiar cadeias de valor e reduzir o custo do capital será cada vez mais determinante para a competitividade das economias africanas.

Juventude, Mulheres e PME no Centro da Transformação

O terceiro ponto defendido pelo AfDB concentra-se no dividendo demográfico. África é o continente mais jovem do mundo e cerca de 60% da sua população tem menos de 25 anos. Para Ould Tah, esta realidade pode constituir o maior activo do continente ou o seu maior risco, caso não seja acompanhada por oportunidades económicas, formação, empreendedorismo e criação de emprego.

A mensagem é particularmente pertinente para Moçambique, onde o desafio de absorver uma população jovem em crescimento exige uma economia mais diversificada, capaz de criar oportunidades para além dos sectores extractivos e da informalidade de subsistência.

O Presidente do AfDB destacou, neste contexto, a necessidade de apoiar pequenas e médias empresas, que representam mais de 90% do tecido económico africano. A expansão da produtividade, do acesso ao crédito, da digitalização e da ligação das PME às cadeias de valor regionais poderá ser decisiva para transformar a pressão demográfica numa força económica sustentável.

Transformar Matérias-Primas em Valor Produzido em África

O quarto eixo incide sobre a infra-estrutura resiliente e a transformação local de matérias-primas. Ould Tah sintetizou a questão numa ideia simples: África continua a exportar riqueza em estado bruto e a importar produtos transformados com maior valor acrescentado.

A mudança deste padrão implica desenvolver indústrias, competências técnicas, energia fiável, corredores de transporte, mercados regionais e políticas de conteúdo local. Mais do que uma agenda industrial, trata-se de uma agenda de soberania económica, capaz de ligar recursos naturais, emprego, inovação, receitas fiscais e mercado continental.

Para Moçambique, a abordagem encontra particular ressonância na actual discussão sobre a transformação local do gás, minerais, produtos agrícolas e recursos marinhos. O desafio é construir condições para que os activos naturais deixem de funcionar apenas como fonte de exportação primária e passem a alimentar uma base produtiva mais diversificada.

Um Apelo Ao FMI, Banco Mundial e Parceiros

No plano internacional, o presidente do AfDB apelou ao Fundo Monetário Internacional para oferecer maior flexibilidade, recursos concessionais adicionais e mais canalização de Direitos Especiais de Saque para países africanos. Argumentou que os choques sucessivos — pandemia, guerra na Ucrânia e tensões no Estreito de Ormuz — reduziram as margens de segurança financeira construídas por vários Estados africanos.

Ao Grupo Banco Mundial, o AfDB reconheceu o papel da Associação Internacional de Desenvolvimento e saudou iniciativas conjuntas em áreas como energia, agricultura e água. Ould Tah apelou ainda ao reforço da capacidade de seguros e garantias no continente, sublinhando a importância da transformação da Agência de Seguro de Comércio de África numa instituição de alcance verdadeiramente continental.

A mensagem final foi uma convocação para que África actue com rapidez, escala, sinergia e prosperidade partilhada. A ambição de financiar-se melhor, negociar com maior coesão e transformar recursos em valor económico dependerá da capacidade de os governos, instituições financeiras, empresas e parceiros internacionais alinharem instrumentos, prioridades e decisões em torno de uma visão continental mais integrada.