CFM Avança Com US$ 160 Milhões Para Segunda Fase da Duplicação da Linha de Ressano Garcia

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  • Investimento estimado em cerca de 160 milhões de dólares deverá concluir a duplicação dos últimos 25 quilómetros da ligação ferroviária entre Maputo e a fronteira sul-africana, reforçando a capacidade do Corredor de Maputo, a integração regional e a transferência de carga da estrada para o caminho-de-ferro.
Questões-Chave:
  • A segunda fase incidirá sobre o troço Movene–Ressano Garcia, os últimos 25 quilómetros ainda por duplicar na ligação ferroviária entre Maputo e a fronteira com a África do Sul;
  • A CFM prevê anunciar o empreiteiro ainda em Julho, para um projecto orçado em cerca de 160 milhões de dólares;
  • A primeira fase, concluída em Setembro de 2024 entre Maputo e Secongene, elevou a capacidade anual de carga de cerca de 13 milhões para 24 milhões de toneladas;
  • O pacote financeiro da União Europeia e da Agência Francesa de Desenvolvimento inclui, além da duplicação, a modernização da sinalização e aponta para uma capacidade final de até 44,6 milhões de toneladas por ano;
  • A linha é uma peça estruturante do Corredor de Maputo, assegurando o escoamento de carga sul-africana pelo Porto de Maputo e articulando a economia moçambicana com os mercados regionais.

A Empresa Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique prepara uma nova etapa de expansão da linha férrea de Ressano Garcia, com o lançamento da segunda fase da duplicação da infra-estrutura que liga Maputo à fronteira com a África do Sul. O investimento, estimado em cerca de 160 milhões de dólares, deverá concentrar-se no troço Movene–Ressano Garcia, com aproximadamente 25 quilómetros, completando a duplicação da ligação ferroviária no território moçambicano.

Segundo informação divulgada pela CFM e reportada pela Agência de Informação de Moçambique, o empreiteiro responsável pelas obras deverá ser anunciado ainda durante o mês de Julho. A iniciativa surge como resposta ao aumento da procura por transporte ferroviário de carga no Corredor de Maputo e à necessidade de elevar a eficiência do escoamento entre o porto, a fronteira e o hinterland económico da África do Sul.

A linha de Ressano Garcia é uma das infra-estruturas mais importantes do sistema ferroviário do Sul. No troço moçambicano, tem 88 quilómetros, liga o Porto de Maputo à República da África do Sul, dispõe de 11 estações e permite a circulação de até 12 comboios por dia em cada sentido, segundo dados institucionais da CFM. 

O Último Troço de Uma Duplicação Estruturante

A segunda fase representa a continuação directa de um programa iniciado para eliminar constrangimentos de capacidade numa das principais portas logísticas da região. A primeira etapa, concluída em Setembro de 2024 entre Maputo e Secongene, incluiu a duplicação de parte da via e a expansão do terminal ferroviário de passageiros da Estação Central de Maputo.

Esse investimento, avaliado em mais de 80 milhões de dólares, permitiu elevar a capacidade anual de transporte de carga da linha de cerca de 13 milhões para 24 milhões de toneladas. A melhoria reduziu um dos principais limites operacionais da ligação, permitindo maior frequência de comboios e maior previsibilidade no movimento de cargas entre o Porto de Maputo e a fronteira sul-africana. 

A duplicação dos últimos 25 quilómetros, entre Movene e Ressano Garcia, é particularmente relevante porque completa a continuidade operacional de uma via dupla num corredor onde os tempos de espera, os cruzamentos ferroviários e a capacidade de gestão do tráfego influenciam directamente o custo e a fiabilidade do transporte. A obra deverá, por isso, aumentar a fluidez dos comboios de mercadorias e criar melhores condições para a expansão simultânea do tráfego de carga e de passageiros. 

Corredor de Maputo Ganha Profundidade Regional

A linha não pode ser entendida apenas como uma infra-estrutura doméstica. Ela integra a espinha dorsal ferroviária do Corredor de Maputo, ligando o Porto de Maputo ao mercado sul-africano e, por extensão, às cadeias produtivas, mineiras, industriais e comerciais da região.

O corredor tem especial importância para as exportações da África do Sul através do Oceano Índico, sobretudo para cargas minerais e produtos industriais que procuram no Porto de Maputo uma rota competitiva de acesso aos mercados internacionais. A ligação ferroviária reduz a dependência do transporte rodoviário, contribui para descongestionar a EN4 e reforça a posição de Maputo como plataforma logística regional.

Segundo dados divulgados no início de 2025, a primeira fase da duplicação elevou a capacidade do sistema ferroviário do Sul para cerca de 33 milhões de toneladas por ano, num patamar equivalente à totalidade da carga movimentada pelos portos de Maputo e Matola no ano anterior. Esta relação mostra que a expansão ferroviária não é um investimento isolado: está directamente ligada à capacidade de o porto receber, processar e escoar volumes crescentes de mercadorias sem criar estrangulamentos no lado terrestre da cadeia logística. 

Financiamento Internacional Inclui Sinalização e Segurança

A segunda fase da duplicação é apoiada por um pacote financeiro estruturado entre a CFM, a Agência Francesa de Desenvolvimento e a União Europeia. Em Julho de 2025, as instituições anunciaram um investimento global de cerca de 145 milhões de euros, composto por dois empréstimos da AFD no valor de 133 milhões de dólares e por uma subvenção de 30 milhões de euros da União Europeia.

O programa não se limita à construção de uma segunda via. Inclui a substituição do sistema de sinalização existente por tecnologia mais moderna e fiável, o reforço da segurança operacional, estudos técnicos, ambientais e sociais, bem como assistência à gestão do projecto. A previsão indicada pelos financiadores é de conclusão da fase de construção até 2030. 

A modernização da sinalização tem uma importância que frequentemente passa despercebida no debate público. A capacidade ferroviária não depende apenas da extensão da via ou do número de locomotivas disponíveis. Depende também da gestão dos intervalos entre comboios, da comunicação em tempo real, da prevenção de incidentes e da redução de falhas humanas. Uma linha dupla sem sistemas de controlo modernos pode aliviar parte da pressão física, mas não explora plenamente o potencial operacional da infra-estrutura.

Capacidade: Da Expansão Física à Escala Operacional

A informação pública disponível utiliza referências distintas sobre a futura capacidade da linha. A CFM aponta que a primeira fase elevou a capacidade de aproximadamente 13 milhões para 24 milhões de toneladas anuais. Já a União Europeia e a AFD indicam que, com a conclusão da segunda fase, a capacidade poderá atingir 44,6 milhões de toneladas por ano, tomando como referência uma base de 14,9 milhões de toneladas.

A diferença entre estas métricas sugere que os números poderão estar a medir momentos operacionais, segmentos ou parâmetros de capacidade distintos. A divulgação dos detalhes técnicos do projecto — incluindo a capacidade efectiva por segmento, os investimentos em material circulante e o modelo de exploração — será importante para harmonizar a leitura pública sobre o alcance final da obra. O essencial, porém, é inequívoco: a segunda fase procura deslocar a linha de uma condição de melhoria parcial para uma capacidade compatível com o crescimento esperado do porto e da procura regional. 

A expansão será acompanhada pelo reforço do material circulante. O Governo anunciou planos para adquirir 15 locomotivas, 250 vagões de carga e mais de 30 carruagens de passageiros até 2030, procurando responder à procura crescente pelo transporte ferroviário de minerais, carga geral e passageiros. A articulação entre via, sinalização e equipamentos será determinante para que a nova capacidade instalada se transforme efectivamente em maior volume transportado. 

Resiliência Climática Torna-se Parte da Agenda Logística

A nova etapa da linha de Ressano Garcia decorre também num contexto em que a resiliência climática passou a integrar o debate sobre infra-estruturas. As cheias recentes no Sul do País interromperam durante cerca de três meses a circulação na linha de Limpopo, provocando perdas estimadas em 12 milhões de dólares e afectando aproximadamente 130 comboios, segundo informação atribuída à CFM.

Embora a linha de Limpopo tenha uma realidade própria, o episódio evidencia que a expansão da capacidade ferroviária terá de ser acompanhada por soluções de protecção, manutenção e resposta a eventos extremos. Infra-estruturas mais extensas e mais movimentadas exigem, igualmente, maior robustez física, sistemas de alerta, capacidade de reparação rápida e coordenação operacional. 

Há também uma dimensão ambiental. A União Europeia e a AFD estimam que a transferência de carga da estrada para o caminho-de-ferro no Corredor de Ressano Garcia poderá reduzir cerca de 30 mil toneladas de emissões de dióxido de carbono equivalente por ano, ao mesmo tempo que diminui congestionamentos, acidentes e poluição associados ao tráfego rodoviário pesado. 

Uma Nova Arquitectura Para o Corredor

A segunda fase da duplicação da linha de Ressano Garcia representa, assim, mais do que a adição de novos quilómetros de via. Trata-se de uma intervenção sobre a arquitectura operacional do Corredor de Maputo, numa altura em que o País procura consolidar o porto como alternativa competitiva para o comércio regional e ampliar a participação do transporte ferroviário na matriz logística.

A relevância económica da obra estará na forma como ela articulará três escalas: a eficiência interna do sistema ferroviário, a ligação entre o Porto de Maputo e os mercados da África Austral e a criação de uma plataforma logística menos dependente da estrada, mais segura e ambientalmente mais sustentável. A duplicação física da linha só alcançará a sua plena expressão quando vier acompanhada por gestão integrada, material circulante suficiente, sinalização moderna e uma coordenação transfronteiriça à altura da ambição do corredor.