Seychelles Aos 50 Anos: Economia Mais Rica de África Procura Novos Motores Para Crescer Além do Turismo

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  • Depois de crescer 5,1% em 2025, o arquipélago deverá desacelerar para 1,5% este ano, segundo o FMI. Serviços financeiros, economia azul, infra-estruturas, turismo de elevado valor e activos digitais emergem como pilares de uma estratégia destinada a reduzir a exposição de uma das menores economias africanas aos choques externos.
Questões-Chave:
  • As Seychelles registaram crescimento económico estimado em 5,1% em 2025, impulsionado por um nível recorde de chegadas turísticas.
  • O FMI reduziu a previsão de crescimento de 2026 de 3,3% para 1,5%, sobretudo devido às perturbações provocadas pela crise no Médio Oriente.
  • A economia deverá recuperar para cerca de 3,4% em 2027, segundo as projecções mais recentes do Fundo.
  • O PIB por habitante atingiu cerca de 19,4 mil dólares em 2025, segundo o Banco Mundial, permanecendo o mais elevado de África.
  • Turismo e pescas continuam entre os pilares fundamentais, mas o Governo pretende desenvolver serviços financeiros, economia digital, processamento de pescado e infra-estruturas.
  • A Fitch atribui às Seychelles uma classificação soberana BB, com perspectiva estável.
  • O país foi classificado como “Largely Compliant” pelo Global Forum da OCDE em matéria de transparência e troca de informação fiscal.
  • A Zona Económica Exclusiva ultrapassa 1,3 milhões de quilómetros quadrados, fazendo da economia azul um dos principais activos económicos do arquipélago.

Cinquenta Anos Depois, Um Pequeno Estado Com Uma Grande Economia Por Habitante

As Seychelles assinalam em 2026 meio século de independência numa posição económica singular no continente africano.

Com apenas cerca de 123 mil habitantes e um território terrestre reduzido, o arquipélago construiu uma economia que atingiu aproximadamente 2,39 mil milhões de dólares em 2025, segundo dados do Banco Mundial. O PIB por habitante alcançou cerca de 19.449 dólares, o nível mais elevado em África. 

O resultado coloca as Seychelles no grupo das economias de rendimento elevado do Banco Mundial — uma situação rara no continente africano — e reflecte décadas de desenvolvimento baseado sobretudo no turismo internacional, pescas, serviços e forte integração com a economia mundial.

Mas a mesma abertura que permitiu elevar o rendimento tornou o país excepcionalmente sensível a choques externos.

O perfil económico apresentado no documento partilhado pelo O.Económico identifica precisamente esta transição: o Governo pretende aprofundar sectores de maior valor acrescentado, desde serviços financeiros e activos digitais até infra-estruturas, turismo sustentável e economia azul.

A estratégia representa uma tentativa de responder a uma questão fundamental para pequenos Estados insulares: como continuar a crescer quando o tamanho do mercado doméstico impõe limites estruturais e uma parte substancial da actividade económica depende de acontecimentos ocorridos milhares de quilómetros além das suas fronteiras?

2025 Foi Forte, Mas 2026 Recorda a Vulnerabilidade Externa

A economia chegou a esta nova fase depois de um desempenho particularmente positivo em 2025.

O Fundo Monetário Internacional estima que o PIB real tenha crescido 5,1%, apoiado por chegadas turísticas recorde, enquanto a inflação terminou o ano ligeiramente abaixo de zero. O saldo orçamental primário atingiu aproximadamente 2,5% do PIB e a dívida pública e garantida pelo Estado caiu para 53,6% do PIB

As reservas internacionais aumentaram igualmente para mais de quatro meses de importações.

O quadro alterou-se, porém, em 2026.

Antes do agravamento da crise no Médio Oriente, o FMI esperava um crescimento próximo de 3,3%. A previsão foi posteriormente reduzida para 1,5%

A razão ajuda a compreender a especificidade da economia seychellense.

Cerca de 60% das chegadas turísticas ao arquipélago dependem de ligações através de Doha, Dubai ou Abu Dhabi. Ao mesmo tempo, as Seychelles importam aproximadamente 95% da energia, além de grande parte dos alimentos e da maioria dos factores de produção industrial. 

Perturbações no Golfo afectam, assim, simultaneamente os dois lados da economia: reduzem potencialmente a chegada de turistas e aumentam os custos de energia, fretes e mercadorias importadas.

O FMI estima que a inflação possa atingir 3,1% no final deste ano, enquanto a dívida pública e garantida poderá voltar a aumentar para cerca de 57,2% do PIB

A previsão de recuperação para 3,4% em 2027 pressupõe uma normalização progressiva destas perturbações. 

Turismo Evolui Para “Mais Valor, Menor Impacto”

O turismo continuará inevitavelmente a constituir um dos pilares da economia.

As chegadas cresceram cerca de 13% em 2025, ultrapassando os níveis anteriores à pandemia, enquanto mercados emergentes da Ásia e África começaram a complementar a tradicional procura europeia. 

Mas o modelo que as autoridades procuram desenvolver não está orientado simplesmente para maximizar o número de visitantes.

O princípio apresentado pela Ministra do Turismo e Cultura, Amanda Bernstein, é de “higher value and low impact” — maior valor económico associado a menor pressão ambiental.

Isso significa privilegiar hotéis de padrão elevado, experiências diferenciadas, turismo marítimo, sustentabilidade ambiental e maior despesa média por visitante.

É uma escolha coerente com as limitações físicas do arquipélago.

Ao contrário de destinos turísticos continentais, as Seychelles não possuem capacidade ilimitada para expandir alojamento, transportes, água, energia e outras infra-estruturas.

A estratégia procura, por isso, aumentar o valor económico produzido por turista, em vez de depender exclusivamente do aumento contínuo do número de chegadas.

Serviços Financeiros Querem Tornar-se Terceiro Pilar

Um dos movimentos mais interessantes está a ocorrer fora das praias e resorts.

As Seychelles procuram consolidar-se como centro de serviços financeiros internacionais, reduzindo a dependência histórica de turismo e pescas.

O Governo considera que estabilidade política, legislação relativamente sofisticada, ausência de controlos cambiais e localização entre África, Ásia e Médio Oriente podem favorecer a utilização do país como plataforma internacional de negócios.

A Fitch elevou em Setembro de 2025 a classificação soberana do país para BB, com perspectiva estável, reconhecendo melhorias na gestão macroeconómica e redução da dívida. 

Paralelamente, o Global Forum da OCDE avaliou as Seychelles como “Largely Compliant” em matéria de transparência e troca de informação fiscal, depois de melhorias introduzidas no quadro jurídico e regulatório. 

Este aspecto é particularmente importante.

O crescimento dos serviços financeiros internacionais depende não apenas de vantagens fiscais ou velocidade de constituição de empresas, mas também de credibilidade regulatória.

Para jurisdições de pequena dimensão que procuram captar capital internacional, reputação, combate ao branqueamento de capitais, transparência fiscal e supervisão tornam-se activos económicos tão importantes quanto a tributação.

Activos Digitais Tornam-se Parte da Estratégia Financeira

As Seychelles avançaram também para a regulação dos activos virtuais.

O Virtual Asset Service Providers Act de 2024 introduziu um quadro específico para autorização e supervisão de prestadores de serviços relacionados com activos virtuais, incluindo plataformas de câmbio, carteiras e intermediação. 

O objectivo é encontrar um equilíbrio difícil: captar uma indústria financeira tecnologicamente dinâmica sem permitir que a abertura regulatória prejudique a reputação do centro financeiro.

A Financial Services Authority tem vindo, inclusive em 2026, a emitir alertas contra entidades que alegam operar sob jurisdição seychellense sem estarem autorizadas, mostrando que o desenvolvimento deste sector vem acompanhado de maior fiscalização. 

A aposta é relevante para uma pequena economia.

Serviços financeiros digitais apresentam uma característica económica particularmente atractiva para Estados insulares: necessitam relativamente de pouco território físico para gerar elevado valor acrescentado e receitas externas.

Mas apresentam igualmente riscos reputacionais e de supervisão substancialmente superiores aos de actividades económicas convencionais.

Um País Pequeno Com 1,3 Milhões de Quilómetros Quadrados de Oceano

Se o território terrestre das Seychelles é reduzido, a sua dimensão económica marítima é extraordinariamente superior.

A Zona Económica Exclusiva ocupa mais de 1,3 milhões de quilómetros quadrados, transformando o oceano num dos maiores activos económicos do país.

É neste espaço que se desenvolve a estratégia de economia azul.

As pescas já constituem um dos sectores centrais da economia, mas o Governo pretende capturar uma parcela maior do valor gerado pelo pescado capturado nas águas da região.

Wallace Cosgrow, Ministro das Pescas, Agricultura e Economia Azul, identifica precisamente a transformação local do pescado como uma das oportunidades ainda insuficientemente exploradas.

A questão económica é semelhante à enfrentada por muitos países africanos ricos em recursos naturais: exportar matéria-prima captura apenas uma parte limitada da cadeia de valor.

Processar, conservar, embalar, distribuir e comercializar o pescado internacionalmente permite incorporar mais serviços, tecnologia, emprego e margens dentro da economia doméstica.

Atum Mostra o Potencial de Acrescentar Valor

O arquipélago encontra-se numa das principais regiões produtoras de atum do mundo.

O material analisado indica que o porto das Seychelles movimenta uma parcela muito significativa das capturas regionais e que a Indian Ocean Tuna, associação entre o Estado seychellense e o grupo Thai Union, ocupa uma posição central na transformação industrial do produto.

O Governo pretende aprofundar esta lógica.

Em vez de considerar o oceano apenas como fonte de pescado, a estratégia de economia azul procura desenvolver um ecossistema envolvendo processamento, logística portuária, investigação marinha, turismo oceânico, conservação, energia e serviços financeiros ligados à sustentabilidade.

As Seychelles já foram um dos primeiros países do mundo a utilizar um blue bond soberano para financiar projectos relacionados com recursos marinhos e pescas, antecipando uma tendência que posteriormente ganhou maior relevância internacional.

Porto e Aeroporto Passam a Ser Infra-estruturas Económicas Estratégicas

O desenvolvimento destes sectores exige também infra-estruturas.

O Governo pretende avançar com a expansão do Porto de Victoria e considera igualmente a modernização do aeroporto internacional, segundo o material analisado.

As duas infra-estruturas possuem importância económica que ultrapassa o transporte.

O aeroporto sustenta directamente o turismo, enquanto o porto é essencial para as importações, pescas, logística, abastecimento, cruzeiros e comércio regional.

Para um arquipélago, conectividade não é apenas uma questão de mobilidade — constitui uma condição estrutural de competitividade económica.

Uma interrupção nas ligações aéreas reduz imediatamente as exportações de serviços turísticos. Um aumento dos custos marítimos transmite-se rapidamente aos preços internos porque grande parte do consumo depende de importações.

É precisamente esta realidade que a crise de 2026 voltou a evidenciar.

Mudança Climática Pode Custar Mais de 6% do PIB

Há, contudo, um limite que atravessa praticamente todos os sectores da estratégia: o clima.

Um relatório do Banco Mundial divulgado em Março estima que, sem medidas adicionais de adaptação e investimento, os impactos económicos associados às alterações climáticas poderão reduzir o PIB das Seychelles em mais de 6% até 2050

Turismo e pescas estão particularmente expostos à subida do nível do mar, erosão costeira, aquecimento dos oceanos e fenómenos meteorológicos extremos.

O Banco Mundial considera que investimentos em energias renováveis poderão também reduzir custos energéticos em cerca de 20%, simultaneamente diminuindo a dependência dos combustíveis importados. 

Esta relação transforma a política climática numa questão directamente económica.

Nas Seychelles, proteger praias, recifes, recursos pesqueiros e infra-estruturas costeiras significa proteger parte relevante do stock de capital que gera PIB, emprego e divisas.

Diversificação Não Significa Abandonar Turismo e Pescas

O percurso seychellense oferece uma distinção importante.

Diversificar não significa necessariamente substituir os sectores tradicionais.

Significa reduzir a concentração do risco, adicionando novas fontes de rendimento e aumentando o valor produzido dentro das cadeias existentes.

No turismo, isso significa maior despesa por visitante.

Nas pescas, significa maior processamento doméstico.

Na economia azul, significa transformar território marítimo em oportunidades empresariais compatíveis com a conservação.

Nos serviços financeiros, significa aproveitar estabilidade institucional e conectividade internacional.

Na economia digital, significa criar actividades cujo crescimento não dependa proporcionalmente da disponibilidade de terra.

E nas infra-estruturas, significa diminuir os constrangimentos que limitam todas estas actividades.

É esta lógica que explica a declaração de Pascal Morin, responsável da Financial Services Authority, reproduzida no documento: o país procura construir “vários motores complementares”, em vez de permanecer excessivamente dependente de apenas dois pilares económicos.

A Paradoxo das Seychelles: Riqueza Elevada, Vulnerabilidade Também Elevada

As Seychelles chegam aos 50 anos com indicadores que muitos países africanos procuram alcançar: rendimento elevado por habitante, dívida substancialmente inferior aos máximos históricos, inflação relativamente controlada, reservas internacionais mais robustas e melhoria da classificação soberana.

Mas também constituem um exemplo particularmente claro de que rendimento elevado não elimina vulnerabilidade económica.

A crise no Médio Oriente demonstrou como uma perturbação externa pode reduzir em mais de metade a expectativa de crescimento de um país localizado a milhares de quilómetros do conflito.

O FMI passou de uma previsão de 3,3% para apenas 1,5% para 2026. Cerca de 60% das chegadas dependem dos grandes hubs aéreos do Golfo e aproximadamente 95% da energia é importada. 

É neste contraste que deve ser lida a estratégia para 2026-2027.

A ambição das Seychelles não consiste simplesmente em crescer mais depressa. Consiste em construir uma economia capaz de preservar o elevado nível de rendimento alcançado, produzir mais valor por unidade de recurso e reduzir a exposição aos choques que inevitavelmente acompanham uma pequena economia insular profundamente integrada no mundo.

A recuperação projectada para 3,4% em 2027 poderá marcar o regresso a um ritmo mais próximo do potencial económico do arquipélago. Mas, a médio prazo, o indicador mais relevante será provavelmente outro: até que ponto serviços financeiros, transformação do pescado, economia azul, infra-estruturas e actividades digitais conseguem transformar-se em novos pilares efectivos — e não apenas complementares — da economia seychellense.