
Waldemar De Sousa Assume Banco De Moçambique E Abre Novo Ciclo Na Política Monetária
Nomeação de um quadro com experiência na própria instituição simboliza continuidade institucional, mas ocorre num momento que exige novas respostas para conciliar estabilidade de preços, disponibilidade de divisas, solidez financeira e financiamento da economia
- Waldemar Fernando de Sousa sucede a Rogério Zandamela, que dirigiu o Banco de Moçambique durante dez anos;
- Felisberto Dinis Navalha foi nomeado Vice-Governador da autoridade monetária;
- Novo ciclo inicia-se num quadro de recuperação económica moderada, inflação elevada e persistentes limitações no mercado cambial;
- Conciliação entre estabilidade monetária e financiamento da actividade produtiva deverá ocupar um lugar central na nova liderança;
- Credibilidade, independência, previsibilidade e comunicação institucional serão determinantes para a eficácia da política monetária;
- Supervisão bancária, inclusão financeira, digitalização e protecção dos consumidores integram a agenda que acompanha a transição;
A nomeação de Waldemar Fernando de Sousa para Governador do Banco de Moçambique encerra um ciclo de dez anos sob a liderança de Rogério Zandamela e abre uma nova etapa numa das instituições mais influentes sobre o funcionamento da economia nacional.
O Presidente da República, Daniel Chapo, nomeou Waldemar de Sousa por Despacho Presidencial, ao abrigo das competências conferidas pela Constituição. Para Vice-Governador foi designado Felisberto Dinis Navalha. Ambos assumem a direcção do banco central num período marcado por uma recuperação económica moderada, pressões inflacionárias, dificuldades de acesso a divisas, custos elevados de financiamento e necessidade de proteger a estabilidade do sistema financeiro.
A transição ultrapassa, por isso, a substituição de titulares. Representa a passagem de responsabilidade sobre a política monetária, cambial e prudencial num momento em que Moçambique procura compatibilizar estabilidade macroeconómica, recuperação da actividade produtiva e melhoria das condições de financiamento das empresas e das famílias.
Continuidade Institucional Com Expectativa De Renovação
Waldemar de Sousa conhece o Banco de Moçambique por dentro. O novo Governador integrou anteriormente o Conselho de Administração da instituição e acompanhou diferentes fases da evolução do sistema financeiro nacional. A sua nomeação sinaliza uma opção por experiência acumulada no próprio banco central e por conhecimento directo dos mecanismos da política monetária, supervisão financeira e funcionamento institucional.
Este percurso atribui à escolha um simbolismo particular. Depois de uma década dirigida por Rogério Zandamela, economista com uma extensa carreira internacional no Fundo Monetário Internacional, a liderança regressa a um quadro proveniente da trajectória interna da instituição.
A mudança não significa necessariamente uma ruptura com os fundamentos que orientaram a política monetária no ciclo anterior. A estabilidade de preços, a solidez do sistema bancário, a protecção das reservas externas e a confiança na moeda nacional permanecem responsabilidades centrais de qualquer autoridade monetária.
A expectativa recai sobre a forma como estes objectivos serão prosseguidos e comunicados, tendo em conta a actual conjuntura económica e a necessidade de melhorar a articulação entre estabilidade monetária, funcionamento do mercado cambial e crédito à economia.
A continuidade institucional será importante para preservar a confiança dos bancos, empresas, investidores e parceiros internacionais. Ao mesmo tempo, a nova liderança terá espaço para reavaliar instrumentos, aperfeiçoar os canais de transmissão da política monetária e estabelecer uma relação mais previsível com os diferentes actores económicos.
Uma Década Marcada Pela Estabilização E Supervisão
Rogério Zandamela assumiu o Banco de Moçambique em Setembro de 2016, num período particularmente exigente para a economia nacional, marcado pela crise das dívidas não declaradas, suspensão do apoio financeiro externo, desvalorização do metical, aceleração da inflação e deterioração da confiança.
Durante os dois mandatos, o banco central adoptou uma postura monetária restritiva, interveio em instituições financeiras com problemas de solvabilidade, introduziu a taxa MIMO como principal instrumento de política monetária e avançou com reformas no sistema nacional de pagamentos e na supervisão bancária.
A instituição também ganhou maior centralidade no debate económico, sobretudo devido às decisões sobre taxas de juro, reservas obrigatórias, disponibilização de divisas e regulação do sector financeiro.
O ciclo que agora termina deixa como património institucional uma autoridade monetária mais presente, tecnicamente interventiva e firmemente associada à defesa da estabilidade. Deixa igualmente debates sobre os custos da política monetária para a actividade produtiva, a previsibilidade das medidas cambiais, a comunicação com o mercado e os efeitos das reservas obrigatórias sobre a capacidade de concessão de crédito.
A nova liderança recebe, portanto, uma instituição com instrumentos consolidados, mas também uma agenda de questões que continuam a exigir respostas.
Novo Ciclo Começa Numa Economia Em Recuperação Frágil
A mudança de liderança ocorre num quadro macroeconómico complexo. Dados do Instituto Nacional de Estatística indicam que a economia moçambicana cresceu 1,7% no segundo trimestre de 2026, em termos homólogos, completando três trimestres consecutivos de expansão depois da recessão associada à crise pós-eleitoral.
Apesar desta evolução, o cenário actual do Cenário Fiscal de Médio Prazo 2027–2029 reviu a previsão de crescimento económico para 2026 de 2,8%, inicialmente inscrita no PESOE, para 0,6%. A projecção da inflação média foi, por sua vez, revista de 3,6% para 8,7%.
O quadro combina, assim, uma recuperação gradual da actividade com pressões significativas sobre os preços, o equilíbrio externo e as condições de financiamento. O comportamento dos preços internacionais dos combustíveis e alimentos, os choques climáticos, os custos logísticos e as limitações da produção interna continuam a afectar a economia.
Em Julho, o Banco de Moçambique manteve a taxa MIMO em 9,25%, o nível mais baixo desde Dezembro de 2015, depois de um ciclo de reduções. A decisão foi tomada num contexto em que a inflação anual havia acelerado para 7,5% em Junho, embora o Instituto Nacional de Estatística tenha registado uma deflação mensal de 0,26% em Julho.
O novo Governador inicia funções num momento em que o espaço para novas reduções da taxa de referência deve ser avaliado perante riscos inflacionários ainda relevantes. Ao mesmo tempo, empresas e famílias esperam que o alívio da política monetária se traduza em taxas de juro bancárias mais acessíveis.
Estabilidade E Crédito Não São Objectivos Opostos
Um dos principais desafios da nova liderança será contribuir para aproximar a estabilidade monetária das necessidades da economia real. O banco central não tem como mandato financiar directamente empresas ou seleccionar sectores produtivos, mas as suas decisões influenciam o custo e a disponibilidade do crédito, a liquidez bancária, as expectativas e a confiança dos investidores.
Durante períodos de inflação elevada, taxas de juro restritivas ajudam a conter a procura e a proteger o valor da moeda. Contudo, quando permanecem altas durante demasiado tempo ou são transmitidas de forma assimétrica pelo sistema bancário, podem limitar o investimento, a expansão empresarial e a criação de emprego.
O desafio não reside em escolher entre estabilidade e crescimento. Uma inflação elevada reduz o poder de compra, deteriora a poupança e dificulta o planeamento empresarial. Por outro lado, uma estabilidade alcançada num ambiente de crédito escasso, investimento reduzido e actividade produtiva limitada terá menor capacidade para sustentar o desenvolvimento económico.
A questão central está na qualidade da transmissão monetária. A descida da taxa MIMO precisa de chegar às taxas praticadas pelos bancos comerciais, enquanto a gestão das reservas obrigatórias deve considerar os seus efeitos sobre a liquidez disponível para financiar a economia.
A nova direcção terá igualmente de aprofundar o diálogo técnico com o Governo, sem comprometer a autonomia necessária à condução da política monetária. Política orçamental e política monetária actuam sobre a mesma economia e podem perder eficácia quando seguem direcções contraditórias.
Mercado Cambial Continua No Centro Da Agenda
A disponibilidade de divisas constitui uma das questões mais sensíveis para as empresas moçambicanas. Importadores de matérias-primas, equipamentos, combustíveis, medicamentos e serviços têm enfrentado dificuldades no acesso oportuno à moeda estrangeira, com consequências para os custos de produção, aprovisionamento e investimento.
O Banco de Moçambique gere as disponibilidades externas do País e estabelece as regras de funcionamento do mercado cambial, mas a oferta sustentável de divisas depende, em última instância, da capacidade de exportação, da entrada de investimento, das remessas, do turismo e de outros fluxos externos.
Por isso, a política cambial não pode substituir uma estratégia de aumento da produção e das exportações. Pode, todavia, melhorar a transparência, a previsibilidade e a eficiência na distribuição das divisas existentes.
A nova liderança terá de continuar a procurar um equilíbrio entre preservação das reservas internacionais, estabilidade do metical e fornecimento de moeda estrangeira aos sectores que asseguram o funcionamento da economia. A comunicação clara sobre critérios, instrumentos e disponibilidade poderá reduzir incerteza e facilitar o planeamento das empresas.
A retoma dos grandes projectos de gás poderá ampliar significativamente os fluxos externos nos próximos anos. Mas também exigirá capacidade para gerir os impactos monetários e cambiais associados a entradas elevadas de capital, evitando que a expansão do sector extractivo produza desequilíbrios noutros segmentos da economia.
Supervisão Deve Acompanhar A Evolução Dos Riscos
O Banco de Moçambique não é apenas responsável pela política monetária. A supervisão das instituições financeiras constitui uma das suas atribuições mais relevantes, sobretudo num mercado concentrado, no qual os problemas de uma instituição podem afectar a confiança em todo o sistema.
A experiência acumulada em processos de intervenção bancária demonstrou a importância de uma supervisão preventiva, capaz de identificar riscos de crédito, insuficiência de capital, conflitos de interesse, deficiências de governação e exposição excessiva a determinados clientes ou sectores.
O crescimento da dívida pública interna introduz outra dimensão na agenda prudencial. A aquisição de títulos do Estado oferece aos bancos uma aplicação com risco relativamente reduzido e pode diminuir os incentivos para financiar empresas, sobretudo PMEs, cujos projectos exigem maior análise e acompanhamento.
A concentração do crédito em dívida pública pode criar uma relação cada vez mais estreita entre a posição financeira do Estado e os balanços dos bancos. Caberá à supervisão acompanhar essa exposição e preservar a capacidade do sistema financeiro para desempenhar a sua função de intermediação entre poupança e investimento.
A estabilidade bancária deve também ser acompanhada pela protecção dos depositantes e consumidores. Transparência nas comissões, qualidade dos serviços, tratamento de reclamações, prevenção de fraudes e literacia financeira são componentes da confiança no sistema.
Digitalização Amplia O Sistema E Cria Novos Riscos
A expansão da banca móvel, das carteiras electrónicas e dos pagamentos digitais alterou a arquitectura financeira do País. Milhões de cidadãos passaram a realizar transacções sem recorrer às agências bancárias tradicionais, ampliando a inclusão financeira e reduzindo custos de acesso.
Esta evolução cria oportunidades para o pagamento de serviços públicos, transferências sociais, financiamento de pequenos negócios e formalização gradual de actividades económicas. Cria também riscos relacionados com cibersegurança, fraude, protecção de dados, interoperabilidade e exclusão de cidadãos com menor literacia digital.
A nova liderança terá de acompanhar a inovação sem impedir a entrada de novos operadores e soluções. A regulação deverá ser proporcional aos riscos e capaz de preservar a concorrência, evitando que a concentração tecnológica reproduza as limitações existentes no sistema bancário convencional.
A modernização do sistema de pagamentos pode ainda apoiar a estratégia nacional de transformação digital, facilitar o comércio e gerar informação económica relevante para o desenho de produtos financeiros adaptados às pequenas empresas e aos produtores rurais.
Independência E Comunicação Sustentam A Credibilidade
A eficácia de um banco central não depende apenas dos instrumentos que utiliza. Depende também da confiança que consegue gerar. Empresas, bancos, investidores e famílias tomam decisões com base nas expectativas sobre inflação, taxas de juro, câmbio e estabilidade financeira.
A previsibilidade das decisões reduz incerteza e permite planear investimentos. Uma comunicação regular, tecnicamente fundamentada e acessível ajuda o mercado a compreender os objectivos da política monetária e os factores que condicionam cada decisão.
O novo Governador terá de preservar a independência operacional do Banco de Moçambique, mantendo simultaneamente um relacionamento institucional produtivo com o Governo, o sector financeiro e os agentes económicos. Independência não significa isolamento; significa capacidade para tomar decisões técnicas orientadas pelo mandato legal, explicar os seus fundamentos e prestar contas à sociedade.
Waldemar de Sousa e Felisberto Navalha assumem a direcção do banco central quando Moçambique procura reconstruir a confiança, recuperar a actividade económica e preparar-se para uma nova fase de investimento no gás, infra-estruturas, agricultura e indústria.
O simbolismo da nomeação reside na combinação entre continuidade institucional e renovação da liderança. O novo ciclo exigirá capacidade de preservar a estabilidade conquistada, melhorar o funcionamento dos mercados monetário e cambial, proteger o sistema financeiro e criar condições para que a política monetária dialogue de forma mais efectiva com as necessidades de uma economia que precisa de produzir, investir e gerar emprego.
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