Da Montra Ao Mercado: FACIM Renova Vocação de Transformar Potencial Económico Em Negócios

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61.ª edição reúne 3.150 expositores e coloca transformação digital, energia, produção nacional e exportações no centro do debate sobre a competitividade da economia moçambicana

Questões-Chave:
  • FACIM 2026 reúne 2.500 expositores nacionais e 650 estrangeiros, provenientes de cerca de 30 países;
  • Organização espera aproximadamente 55 mil visitantes durante os sete dias do certame;
  • Feira procura evoluir de espaço de exposição para plataforma de contratos, investimento, transferência de tecnologia e internacionalização empresarial;
  • Transformação digital e energética pode elevar a produtividade, mas exige financiamento, competências, infra-estruturas e maior integração das empresas nacionais;
  • Impacto económico deverá ser avaliado pelos negócios concretizados e pela continuidade das relações estabelecidas depois da feira.

A 61.ª edição da Feira Internacional de Maputo abriu as portas na segunda-feira, 31 de Agosto, no Centro Internacional de Feiras e Exposições de Ricatla, no distrito de Marracuene, recuperando uma questão que acompanha a principal montra económica de Moçambique: até que ponto a dimensão expositiva da FACIM consegue ser convertida em investimento, produção, exportações e relações comerciais duradouras?

Ao longo de mais de seis décadas, a FACIM tornou-se um dos símbolos mais reconhecidos da abertura da economia moçambicana ao exterior. A feira atravessou diferentes ciclos económicos, modelos de desenvolvimento e fases da relação entre o Estado e o sector privado, mantendo-se como ponto de encontro entre empresas, instituições públicas, investidores, representações diplomáticas e parceiros internacionais.

Na edição de 2026, este percurso histórico encontra uma economia que procura recuperar o crescimento, atrair capital, diversificar a produção e criar emprego, mas que continua condicionada por dificuldades de financiamento, limitada disponibilidade de divisas, custos logísticos elevados, reduzida capacidade industrial e baixa integração entre os grandes investimentos e o tecido empresarial nacional.

É neste contraste entre potencial e capacidade efectiva de realização que reside o principal significado económico da FACIM.

Escala Confirma Interesse Na Economia Moçambicana

Dados divulgados pela Agência para a Promoção de Investimento e Exportações indicam que a edição deste ano reúne 3.150 expositores, dos quais 2.500 nacionais e 650 estrangeiros, provenientes de cerca de 30 países. A organização estima receber aproximadamente 55 mil visitantes até 6 de Setembro.

A participação abrange as 11 províncias do País, empresas privadas, instituições públicas, pequenas e médias empresas, investidores e delegações estrangeiras. A ocupação integral dos espaços disponíveis antes da abertura constitui um sinal da relevância que o evento continua a ter para a promoção institucional, empresarial e comercial.

A dimensão alcançada representa, simultaneamente, uma oportunidade e uma responsabilidade. O número de stands, delegações e visitantes demonstra capacidade de mobilização, mas não permite, isoladamente, medir o contributo da feira para a economia. Esse contributo torna-se mais relevante quando a presença empresarial resulta em contratos, encomendas, parcerias produtivas, acesso a financiamento, transferência de tecnologia e entrada em novos mercados.

Segundo dados da APIEX citados pela imprensa económica, a FACIM 2025 gerou mais de 1.170 contactos comerciais e perto de 815 acordos de negócio e investimento. A edição anterior terá ainda registado 282 projectos de negócio avaliados em cerca de US$ 7 mil milhões. Estes indicadores colocam uma base de comparação importante para 2026, embora seja igualmente necessário acompanhar quantos acordos transitam da manifestação de interesse para a execução efectiva.

Uma Feira Que Reflecte As Ambições Do País

O lema escolhido para este ano — “Transformação Digital e Energética Rumo a Uma Economia Sustentável” — posiciona a FACIM no centro de duas transições que estão a alterar os modelos de produção, investimento e competitividade à escala mundial.

A transformação digital pode reduzir custos administrativos, ampliar o acesso a mercados, melhorar os sistemas de pagamento, aumentar a eficiência das cadeias de abastecimento e criar novos modelos de negócio. Para as pequenas e médias empresas, as plataformas digitais podem significar a passagem de mercados predominantemente locais para redes comerciais nacionais, regionais e internacionais.

Essa transição, porém, não se resume à aquisição de computadores, criação de aplicações ou digitalização de formulários. Requer conectividade acessível, sistemas interoperáveis, protecção de dados, cibersegurança, competências técnicas e um ambiente regulatório que estimule a inovação sem comprometer a confiança dos cidadãos e das empresas.

Na vertente energética, Moçambique dispõe de uma base diversificada que inclui gás natural, hidroelectricidade, energia solar e outros recursos renováveis. A oportunidade económica encontra-se na utilização dessa capacidade para alimentar a indústria, reduzir custos de produção, ampliar o acesso à electricidade e integrar o País nas cadeias energéticas regionais e internacionais.

Uma transformação energética economicamente inclusiva pressupõe, todavia, que os grandes projectos gerem ligações com fornecedores nacionais, formação profissional, serviços especializados, infra-estruturas e novas actividades industriais. Sem essa articulação, o crescimento do investimento energético poderá coexistir com uma participação ainda limitada das empresas e trabalhadores moçambicanos.

Produção Nacional Procura Maior Espaço Nas Cadeias De Valor

Na abertura da feira, o Presidente da República, Daniel Chapo, defendeu uma economia assente na produção nacional, industrialização, inovação, exportação e criação de emprego. A mensagem presidencial colocou ênfase na transformação local dos recursos e na necessidade de o gás, o grafite, o algodão e a produção agrícola gerarem maior valor acrescentado dentro do País.

Esta orientação traduz um dos principais desafios estruturais da economia moçambicana. O País possui uma base relevante de recursos naturais e produtos primários, mas continua a captar uma proporção reduzida do valor gerado nas etapas de transformação, distribuição e comercialização.

Exportar algodão e importar vestuário, produzir alimentos sem capacidade suficiente de conservação e processamento ou extrair minerais sem desenvolver fornecedores industriais nacionais significa ocupar os segmentos de menor valor das cadeias produtivas.

A FACIM pode contribuir para alterar gradualmente esta estrutura ao aproximar produtores, compradores, empresas de logística, instituições financeiras, fornecedores de tecnologia e potenciais investidores. Para isso, os encontros empresariais devem ser organizados em função de necessidades concretas: volumes disponíveis, requisitos de qualidade, certificação, capacidade de fornecimento, financiamento e condições de acesso aos mercados.

PMEs Precisam De Mais Do Que Visibilidade

A presença das micro, pequenas e médias empresas confere à FACIM uma dimensão territorial e social que ultrapassa os grandes investimentos. São estas empresas que asseguram uma parte expressiva do emprego, fazem circular rendimento nas economias locais e podem transformar oportunidades sectoriais em crescimento mais distribuído.

Para muitas PMEs, participar na feira representa acesso a clientes, fornecedores e instituições que dificilmente estariam reunidos no mesmo espaço. Contudo, a visibilidade obtida durante uma semana não elimina os constrangimentos que limitam a sua expansão ao longo do ano.

O acesso ao crédito permanece restritivo, as taxas de financiamento são elevadas, os mercados são frequentemente fragmentados e a certificação exigida por grandes compradores pode estar fora do alcance das empresas de menor dimensão. Acrescem dificuldades relacionadas com divisas, fiscalidade, regularização, capacidade de gestão e cumprimento de padrões técnicos.

Em declarações anteriores sobre a preparação da feira, representantes da Confederação das Associações Económicas de Moçambique identificaram precisamente o acesso a divisas, o financiamento, os custos operacionais e o abastecimento de combustíveis entre os factores que afectam a competitividade empresarial.

Por isso, a participação das PMEs ganha maior valor quando é acompanhada por soluções financeiras, assistência técnica, programas de certificação, mecanismos de subcontratação e informação sobre oportunidades de fornecimento. A feira pode abrir a porta; a capacidade de entrar e permanecer no mercado exige instrumentos que actuem para além do recinto de Ricatla.

Diplomacia Económica E Acesso A Novos Mercados

A presença de delegações estrangeiras atribui à FACIM uma função de diplomacia económica. Os pavilhões internacionais não representam apenas países: transportam empresas, tecnologias, instrumentos financeiros, redes de distribuição e interesses de investimento.

Portugal, por exemplo, participa com mais de 100 empresas de capitais portugueses, de acordo com informações divulgadas pela AICEP. Cerca de duas dezenas apresentam espaços próprios de exposição, com actividade em áreas como energia, agricultura, infra-estruturas, engenharia, turismo e transformação digital.

Para Moçambique, estas presenças podem ampliar parcerias, mas devem também ser utilizadas para promover a internacionalização das empresas nacionais. A abertura ao investimento estrangeiro torna-se economicamente mais produtiva quando inclui fornecedores locais, joint ventures, formação, investigação aplicada e incorporação progressiva de tecnologia.

A localização geográfica do País, os corredores logísticos, os portos, a ligação ao mercado da SADC e a disponibilidade de recursos conferem a Moçambique condições para desempenhar uma função regional. A FACIM pode ajudar a transformar essa vantagem geográfica numa proposta comercial mais clara, ligando a oferta nacional à procura dos países vizinhos e aos mercados internacionais.

Do Contacto Comercial Ao Investimento Efectivo

A abertura da edição de 2026 foi acompanhada por uma orientação política explícita: a FACIM deve produzir contratos, projectos, empresas internacionalizadas, joint ventures, partilha de tecnologia e investimentos materializados.

A abordagem é relevante porque redefine a medida de sucesso do evento. Uma feira económica orientada para resultados precisa de conhecer o número de reuniões empresariais realizadas, acordos assinados, intenções de compra de produtos nacionais, projectos financiados e empresas que conquistaram novos mercados.

Exige também acompanhamento posterior. Muitos contactos comerciais perdem-se depois do encerramento das feiras por ausência de informação, financiamento, assistência técnica ou coordenação institucional. Um sistema de seguimento dos acordos permitiria identificar os obstáculos encontrados e distinguir manifestações de interesse de negócios efectivamente concretizados.

A eventual adopção de um novo modelo de gestão da FACIM, admitida pelo Presidente da República para 2027, poderá constituir uma oportunidade para aprofundar esta orientação. Maior participação do sector privado, profissionalização da intermediação empresarial, plataformas digitais de contacto e monitoria dos resultados podem transformar a feira num serviço permanente de promoção de negócios, e não apenas num acontecimento anual.

Um Retrato Concentrado Da Economia Nacional

A FACIM funciona, em muitos aspectos, como uma representação concentrada da economia moçambicana. No mesmo espaço convivem grandes projectos e pequenos produtores, empresas tecnologicamente avançadas e negócios ainda informais, produtos destinados à exportação e actividades dependentes do mercado doméstico.

Esta diversidade mostra que Moçambique possui recursos, iniciativas empresariais e capacidade de inovação. Mostra igualmente que essas capacidades ainda não estão suficientemente articuladas para formar cadeias de valor extensas, produtivas e competitivas.

O simbolismo da 61.ª edição reside, portanto, na possibilidade de colocar essas diferentes partes da economia em contacto. A sua importância estratégica estará na capacidade de transformar contacto em confiança, confiança em contrato, contrato em investimento e investimento em produção, emprego e exportações.

Entre 31 de Agosto e 6 de Setembro, Ricatla volta a ser a maior montra económica do País. O legado da FACIM 2026 começará, porém, a construir-se depois de os pavilhões encerrarem: nas empresas que mantiverem as relações iniciadas, nos produtos que encontrarem compradores, nas tecnologias que forem adoptadas e nos projectos que passarem do anúncio para a actividade produtiva.

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