• Moamba Major deverá garantir o abastecimento da Grande Maputo, Mapai regulará os caudais do Limpopo e a reabilitação de Massingir repõe componentes accionados durante a maior cheia registada no Rio dos Elefantes.
Questões-Chave:
  • Construção das barragens de Moamba Major e Mapai exige um investimento estimado em US$ 1,5 mil milhões;
  • Moamba Major está avaliada em cerca de US$ 500 milhões e terá capacidade para armazenar 780 milhões de metros cúbicos de água;
  • Barragem de Mapai poderá custar US$ 1 mil milhão ou mais e afectar aproximadamente 21 comunidades;
  • Projectos ainda não possuem financiamento assegurado e exigirão elevada capacidade de mobilização de recursos;
  • ARA-Sul investe aproximadamente US$ 4 milhões na reabilitação da Barragem de Massingir;
  • Maior cheia registada no Rio dos Elefantes accionou, pela primeira vez, o descarregador auxiliar de Massingir;
  • Corumana deverá receber um sistema de descarga de emergência semelhante ao instalado em Massingir;
  • Barragens dos Pequenos Libombos e Corumana apresentam níveis próximos de 90%, enquanto Massingir supera 70%;
  • ARA-Sul aposta em estações telemétricas automáticas para melhorar a monitoria dos rios e o aviso antecipado de cheias;

O reforço da capacidade de armazenamento e regulação de água no Sul de Moçambique exigirá aproximadamente US$ 1,5 mil milhões para a construção das barragens de Moamba Major e Mapai, num momento em que a Administração Regional de Águas do Sul investe mais US$ 4 milhões na reabilitação da Barragem de Massingir.

Os três projectos respondem a problemas distintos, mas interligados. Moamba Major deverá aumentar a disponibilidade de água para a Grande Maputo; Mapai é projectada para regular os caudais do Rio Limpopo e reduzir o impacto das cheias e secas; Massingir está a ser intervencionada depois de um episódio hidrológico extremo ter accionado, pela primeira vez, o seu descarregador auxiliar.

O director-geral da ARA-Sul, Edgar Chongo, explicou à Agência de Informação de Moçambique que Moamba Major e Mapai continuam sem financiamento assegurado devido à dimensão dos recursos necessários.

“Estas são infra-estruturas de grande dimensão e a sua implementação exige uma capacidade financeira significativa”, afirmou.

Para a ARA-Sul, as barragens não constituem somente grandes obras de engenharia. São instrumentos destinados a responder à escassez de água, às cheias recorrentes e a períodos de seca cada vez menos previsíveis.

Moamba Major Está Avaliada Em US$ 500 Milhões

A construção da Barragem de Moamba Major deverá custar aproximadamente US$ 500 milhões. A infra-estrutura é apresentada como uma solução estratégica para garantir o abastecimento de água à Grande Maputo no longo prazo.

O projecto terá capacidade para armazenar cerca de 780 milhões de metros cúbicos de água e deverá também aumentar a capacidade de resposta às cheias e secas na região do Baixo Incomáti.

Os estudos existentes estão a ser actualizados, incluindo o desenho da própria barragem. A ARA-Sul prevê concluir esta etapa no início de 2027, altura em que deverá existir uma estimativa mais precisa do custo final do empreendimento.

A revisão dos estudos deverá incorporar a evolução da procura de água, os novos padrões climáticos, as necessidades de reassentamento, os materiais, os custos de construção e os requisitos actualizados de segurança.

A conclusão desta fase técnica será determinante para estruturar o financiamento e definir o modelo de implementação do projecto.

Grande Maputo Precisa De Nova Capacidade De Abastecimento

A Barragem dos Pequenos Libombos, construída em 1987 para abastecer a Grande Maputo, foi dimensionada para uma realidade demográfica e económica significativamente diferente da actual.

Quase quatro décadas depois, a população cresceu e a procura aumentou com a expansão urbana, comercial e industrial. A capacidade da infra-estrutura já não é suficiente, por si só, para acompanhar as necessidades da região metropolitana.

Outras alternativas foram consideradas, incluindo a utilização da Barragem de Corumana. Esta infra-estrutura, porém, já possui compromissos de fornecimento para sectores como a indústria açucareira e outros consumidores.

Neste quadro, Moamba Major voltou a assumir prioridade na planificação das infra-estruturas hídricas da região Sul.

A disponibilidade regular de água é determinante para a expansão urbana, a actividade empresarial e a atracção de novos investimentos. Limitações no abastecimento podem aumentar os custos de operação, condicionar a instalação de indústrias e obrigar a investimentos adicionais em soluções próprias.

Mapai Poderá Custar Mais De US$ 1 Mil Milhão

A Barragem de Mapai representa a maior parcela do investimento previsto. A infra-estrutura poderá custar US$ 1 mil milhão ou um valor ligeiramente superior.

O projecto é concebido como uma resposta à vulnerabilidade do Vale do Limpopo, frequentemente afectado por ciclos de cheias e secas.

A barragem deverá criar capacidade adicional de armazenamento e permitir a regulação dos caudais do rio. Durante as cheias, poderá reter parte da água e reduzir a exposição das comunidades, infra-estruturas e actividades produtivas a jusante. Nos períodos de seca, as reservas poderão garantir maior disponibilidade para consumo e produção.

Actualmente, o Rio Limpopo não dispõe, em território moçambicano, de uma barragem com capacidade para regular os grandes volumes provenientes dos países situados a montante.

“A água das cheias que vem dos países com os quais partilhamos o Rio Limpopo passa sem impedimento. A barragem ajudará a fazer essa regulação”, explicou Edgar Chongo.

Reassentamento De 21 Comunidades Aumenta Complexidade

O financiamento não constitui o único obstáculo à construção da Barragem de Mapai. O empreendimento poderá afectar aproximadamente 21 comunidades, exigindo a preparação e implementação de um processo de reassentamento.

Este factor aumenta a complexidade social, técnica e financeira do projecto. Para além da construção da barragem, será necessário financiar habitação, infra-estruturas sociais, terras para produção, compensações, recuperação dos meios de subsistência e integração das populações nas novas áreas.

O processo deverá também assegurar consultas às comunidades, estudos de impacto ambiental e social e mecanismos de reclamação e acompanhamento.

A qualidade do reassentamento terá influência directa sobre o calendário, o custo e a viabilidade do projecto. Experiências anteriores mostram que atrasos na compensação, dificuldades de acesso à terra e perda de actividades económicas podem prolongar a implementação das grandes infra-estruturas.

Financiamento Continua Por Estruturar

Os US$ 1,5 mil milhões necessários para Moamba Major e Mapai superam a capacidade normal de financiamento directo das instituições responsáveis pela gestão hídrica.

A mobilização dos recursos poderá exigir uma combinação de financiamento público, empréstimos concessionais, parceiros de desenvolvimento, instituições financeiras multilaterais e outras modalidades adequadas a infra-estruturas de longo prazo.

Os benefícios económicos das barragens distribuem-se por vários sectores e períodos. Incluem abastecimento de água, prevenção de prejuízos provocados pelas cheias, irrigação, protecção de infra-estruturas e aumento da capacidade de resposta às secas.

Por esta razão, a avaliação financeira deverá considerar não só as receitas directas geradas pela utilização da água, mas também os custos económicos que poderão ser evitados através da regulação dos rios.

Massingir Recebe Investimento De US$ 4 Milhões

Enquanto procura financiamento para Moamba Major e Mapai, a ARA-Sul está a investir aproximadamente US$ 4 milhões na reabilitação da Barragem de Massingir, na província de Gaza.

A intervenção resulta das cheias registadas este ano no Rio dos Elefantes e contempla a reposição dos blocos de betão removidos durante o funcionamento do descarregador auxiliar, além da substituição de equipamentos eléctricos.

“Estamos a fazer a reposição dos blocos de betão, em Massingir, e também a fazer a reposição dos equipamentos eléctricos. Estamos a falar de um investimento aproximado de US$ 4 milhões”, declarou Chongo.

O empreiteiro já está mobilizado e os trabalhos encontram-se em curso.

Maior Cheia Accionou Três Sistemas De Descarga

A Barragem de Massingir enfrentou este ano a maior cheia registada no Rio dos Elefantes. A magnitude dos caudais provenientes dos países situados a montante levou ao funcionamento simultâneo dos seus órgãos de descarga.

A barragem possui três níveis de descarga e segurança. O primeiro é o descarregador de fundo, utilizado para responder às necessidades regulares de disponibilização de água.

Em situações de cheia, entra em funcionamento o descarregador principal. A infra-estrutura possui ainda um descarregador auxiliar, concebido como último mecanismo de segurança perante caudais extremos.

“O descarregador de fundo estava a operar no seu máximo, o descarregador de cheias estava a operar no seu máximo, mas o caudal que vinha dos países a montante ainda era alto. E aí accionou o descarregador de emergência”, relatou o director-geral da ARA-Sul.

O mecanismo auxiliar entrou automaticamente em funcionamento pela primeira vez desde a construção da barragem.

Sistema De Emergência Evitou Risco Estrutural

O accionamento do descarregador auxiliar não representa uma falha da Barragem de Massingir. O sistema actuou de acordo com o mecanismo de segurança previsto no desenho da infra-estrutura.

Os módulos instalados no descarregador são concebidos para serem removidos automaticamente quando o nível e a pressão da água atingem valores extremos.

A abertura cria capacidade adicional para libertar a água e evita que os caudais passem por cima da estrutura principal. Um eventual transbordo poderia causar erosão e, numa situação extrema, comprometer a estabilidade da barragem.

“É por isso que ela está desenhada justamente para entrar em acção”, esclareceu Chongo.

A reposição dos módulos e dos equipamentos associados constitui, assim, uma operação necessária depois da utilização do sistema de emergência.

Canais A Jusante Precisam De Estudos

A primeira fase da intervenção incide sobre os blocos de betão e os equipamentos eléctricos. A ARA-Sul identifica, entretanto, outros desafios técnicos que deverão ser avaliados.

Entre eles encontram-se os canais de restituição a jusante da barragem. Estas estruturas recebem a água libertada pelos descarregadores e encaminham-na novamente para o leito do rio.

A magnitude da cheia poderá exigir reparações, aumento da capacidade ou novas medidas de protecção contra a erosão.

A extensão das intervenções será determinada através de estudos específicos. Os resultados permitirão calcular o investimento adicional necessário e definir as obras prioritárias.

Corumana Terá Descarregador Auxiliar

As cheias deste ano poderão conduzir ao reforço dos sistemas de segurança de outras barragens sob gestão da ARA-Sul.

A Barragem de Corumana não possui actualmente um descarregador auxiliar semelhante ao de Massingir. A instituição prevê construir um mecanismo com a mesma finalidade.

A instalação deverá criar uma margem adicional de descarga em situações nas quais os sistemas convencionais atinjam a capacidade máxima.

A decisão mostra que as lições de Massingir estão a ser incorporadas no planeamento das restantes infra-estruturas hidráulicas da região Sul.

Reservas De Água Mantêm-Se Em Níveis Satisfatórios

Apesar dos acontecimentos registados durante as cheias, o nível de armazenamento das principais barragens da região Sul é considerado satisfatório.

A cerca de 30 dias do início da próxima época chuvosa, as barragens dos Pequenos Libombos e de Corumana apresentavam níveis próximos de 90%. Massingir registava mais de 70%.

“Temos um nível satisfatório, bastante satisfatório”, afirmou Edgar Chongo.

A ARA-Sul considera que existe água suficiente para responder às necessidades do próximo ano e dos dois anos seguintes, nas actuais condições.

A evolução dependerá, porém, da intensidade e duração de um eventual episódio de El Niño. Se o fenómeno for severo, mas curto, as reservas poderão conservar uma margem adequada. Uma ocorrência intensa e prolongada poderá reduzir a água disponível, devido à capacidade limitada de armazenamento das barragens.

“Para o próximo ano, os próximos dois anos, estamos tranquilos”, indicou o responsável.

Água Proveniente Dos Países Vizinhos Aumenta O Risco

Um dos maiores desafios da gestão de cheias no Sul de Moçambique é o escoamento proveniente dos países situados a montante.

As principais bacias hidrográficas da região são partilhadas. Parte importante da água que chega ao território nacional resulta de precipitação, descargas e operações de infra-estruturas localizadas nos países vizinhos.

“O maior risco é o escoamento que vem dos países a montante”, explicou Chongo.

A gestão destes caudais depende da troca atempada de informação entre os países que partilham os rios. Os dados recolhidos fora de Moçambique, conjugados com a monitoria interna, permitem estimar o volume da água em deslocação e antecipar os riscos para as comunidades e infra-estruturas.

Esta realidade explica a importância de projectos como Mapai, concebidos para dar ao País maior capacidade de regular os fluxos que entram no sistema do Limpopo.

Monitoria Passa Para Sistemas Automáticos

A ARA-Sul está a investir na transformação digital e na instalação de estações automáticas e telemétricas para acompanhar os níveis e caudais em tempo útil.

O sistema tradicional depende da leitura manual das réguas hidrométricas e da posterior transmissão dos dados por rádio. Durante uma cheia de grande magnitude, o acesso dos técnicos aos pontos de medição pode tornar-se perigoso ou impossível.

As estações telemétricas permitem recolher e transmitir informação automaticamente, melhorando a capacidade de antecipação, tomada de decisões e comunicação dos riscos.

Os próprios equipamentos podem, porém, ser afectados pelas cheias, falhas de energia e interrupções das comunicações.

“O upgrade é permanente, porque, dependendo da magnitude da cheia, as próprias estações telemétricas também são afectadas, e é preciso sempre encontrar mecanismos resilientes de instalar e garantir que temos comunicação em tempo útil”, afirmou Chongo.

Investimentos Combinam Expansão E Recuperação

Os projectos de Moamba Major, Mapai e Massingir representam fases diferentes da estratégia hídrica da região Sul.

Moamba Major responde ao aumento da procura de água da Grande Maputo; Mapai procura criar capacidade de regulação no Limpopo; Massingir exige a reposição dos mecanismos accionados por uma cheia excepcional.

No total, as necessidades conhecidas ultrapassam US$ 1,5 mil milhões, considerando os dois novos projectos e a intervenção imediata em Massingir.

A mobilização do financiamento para as novas barragens, a conclusão dos estudos, o tratamento dos impactos sociais e a modernização dos sistemas de monitoria determinarão o ritmo de expansão da capacidade hídrica no Sul do País.

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