Ouro Supera US$ 4.150 Com Mercado a Reduzir Aposta Numa Subida dos Juros da Fed em Outubro

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Dados mais fracos do emprego norte-americano reduziram para 18% a probabilidade de uma nova subida dos juros em Outubro, dando suporte ao ouro. O movimento ocorre num mercado em que o metal permanece acima de US$ 4.000 por onça apesar dos juros elevados, sustentado também pelas compras dos bancos centrais, entradas em ETF e procura de protecção perante riscos geopolíticos e fiscais.

Questões-Chave:

  • O ouro à vista subiu 0,3%, para US$ 4.153,56 por onça, enquanto os futuros para Dezembro avançaram 0,5%, para US$ 4.181,70;
  • A probabilidade de uma subida dos juros da Fed em Outubro caiu para 18%, depois dos dados mais fracos do emprego norte-americano;
  • O mercado continua, porém, a atribuir 81% de probabilidade a uma subida em Dezembro, mantendo a política monetária como factor de pressão sobre o ouro;
  • O dólar valorizou 0,4%, limitando a progressão do metal;
  • Os bancos centrais compraram 289 toneladas de ouro no segundo trimestre, cinco vezes mais do que no primeiro trimestre;
  • ETF globais de ouro receberam US$ 18 mil milhões em Agosto, elevando as posições para um recorde de 4.189 toneladas;
  • Riscos geopolíticos, inflação, dívida pública e diversificação das reservas internacionais estão a reforçar factores estruturais de procura pelo metal.

O ouro iniciou a semana acima de US$ 4.150 por onça, beneficiando da redução das expectativas de uma nova subida imediata das taxas de juro pela Reserva Federal dos Estados Unidos, depois de dados do mercado de trabalho terem reforçado os sinais de desaceleração da maior economia mundial.

O ouro à vista avançou 0,3%, para US$ 4.153,56 por onça, enquanto os futuros norte-americanos para entrega em Dezembro subiram 0,5%, para US$ 4.181,70.

O movimento acontece depois de o crescimento do emprego nos Estados Unidos ter ficado abaixo das expectativas em Setembro e os números dos dois meses anteriores terem sido revistos significativamente em baixa.

A reacção do mercado foi imediata: a probabilidade implícita de uma nova subida dos juros pela Fed em Outubro recuou para 18%.

A mudança das expectativas favorece o ouro porque taxas de juro mais baixas reduzem o custo de oportunidade de manter um activo que não paga juros.

Mercado Transfere Expectativa De Subida Para Dezembro

A redução das probabilidades para Outubro não significa, contudo, que os investidores estejam a antecipar o fim do actual ciclo de aperto monetário norte-americano.

O mercado continua a atribuir cerca de 81% de probabilidade a uma subida dos juros em Dezembro, segundo o CME FedWatch.

A Fed aumentou no mês passado a sua taxa de referência em 25 pontos base, para o intervalo de 3,75% a 4,00%, naquela que foi a primeira subida dos juros em três anos.

O Goldman Sachs encontra-se entre as instituições que transferiram para Dezembro a previsão para o próximo aumento das taxas, depois de anteriormente antecipar uma subida em Outubro.

A leitura que emerge dos mercados é, portanto, de adiamento do próximo movimento da Fed, e não necessariamente de conclusão do ciclo de subida dos juros.

Esta distinção é importante para o ouro. Uma pausa em Outubro reduz a pressão imediata sobre o metal, mas a permanência das taxas em níveis elevados e a possibilidade de novo aperto monetário continuam a limitar o espaço para uma valorização baseada exclusivamente na política monetária.

Dólar Forte Limita Ganhos Do Ouro

A valorização do dólar constitui outra força a actuar sobre o mercado.

O índice que mede o desempenho da moeda norte-americana perante um conjunto das principais divisas avançou 0,4%, tornando o ouro denominado em dólares mais caro para investidores que operam noutras moedas.

A combinação actual apresenta, assim, forças em sentidos diferentes.

Por um lado, os dados mais fracos do emprego reduzem as expectativas de uma subida imediata dos juros e favorecem o ouro. Por outro, o dólar forte e as yields elevadas dos títulos do Tesouro norte-americano mantêm elevado o custo de oportunidade associado à detenção do metal.

As obrigações do Tesouro a dez anos permanecem com rendimentos superiores a 5%, mostrando que a redução das expectativas para a reunião de Outubro ainda não se traduziu numa alteração estrutural das condições financeiras.

Ouro Resiste A Juros Elevados

É precisamente esta relação que está a tornar o comportamento recente do ouro particularmente relevante.

Historicamente, juros reais elevados e um dólar forte constituem condições desfavoráveis ao metal. As obrigações tornam-se relativamente mais atractivas porque proporcionam rendimento, enquanto o ouro não paga juros.

Ainda assim, o metal mantém-se acima de US$ 4.000 por onça, mesmo num ambiente de yields elevadas nos Estados Unidos.

A Reuters assinala que esta resistência está associada à formação de uma componente estrutural adicional no preço do ouro, sustentada pela diversificação das reservas internacionais, riscos geopolíticos e preocupações relacionadas com dívida e estabilidade financeira.

O comportamento sugere que a relação entre ouro, dólar e taxas de juro continua relevante, mas já não explica isoladamente a formação dos preços.

Bancos Centrais Mantêm Compras Estruturais

As compras dos bancos centrais constituem uma das alterações mais importantes na estrutura da procura mundial de ouro.

Dados do World Gold Council mostram que as compras líquidas dos bancos centrais atingiram 289 toneladas no segundo trimestre de 2026, cinco vezes as 57 toneladas revistas do primeiro trimestre.

No conjunto do primeiro semestre, as compras líquidas totalizaram 345 toneladas.

Polónia e China estiveram entre os compradores que contribuíram para a procura durante o segundo trimestre.

Uma sondagem realizada este ano pelo World Gold Council mostrou ainda que 89% dos gestores de reservas dos bancos centrais esperam que as reservas mundiais de ouro aumentem nos próximos 12 meses, enquanto um recorde de 45% admite aumentar directamente as posições das respectivas instituições.

Esta tendência introduz uma fonte de procura menos dependente das oscilações de curto prazo das taxas de juro.

A diversificação das reservas internacionais, a redução da exposição a determinados activos financeiros e a procura de protecção perante riscos geopolíticos estão a aumentar a importância estratégica do ouro nos balanços dos bancos centrais.

ETF Voltam A Atrair Capital

Os investidores financeiros também estão a reforçar a exposição ao metal.

Segundo o World Gold Council, os ETF garantidos por ouro receberam US$ 18 mil milhões em Agosto, impulsionados sobretudo por fundos cotados na América do Norte e Europa.

As entradas, juntamente com a valorização do metal, elevaram os activos sob gestão destes fundos em 16%, para US$ 615 mil milhões.

As posições físicas dos ETF aumentaram 121 toneladas, atingindo um máximo histórico de 4.189 toneladas.

O volume médio diário de negociação no mercado global do ouro aumentou igualmente 21% em Agosto, para aproximadamente US$ 430 mil milhões.

A evolução dos ETF é particularmente relevante porque indica que a procura estrutural dos bancos centrais está a ser acompanhada pelo regresso de investidores institucionais e financeiros.

Geopolítica Mantém Prémio De Risco

O terceiro eixo de sustentação encontra-se na geopolítica.

A intensificação do conflito no Médio Oriente continua a afectar as expectativas sobre petróleo, inflação e crescimento mundial. A mais recente ofensiva anunciada pelo Governo do Iémen apoiado pela Arábia Saudita para recuperar territórios controlados pelos Houthis acrescentou uma nova frente de incerteza regional.

O canal de transmissão para o ouro ocorre em duas direcções.

A primeira é a procura de activos considerados de protecção em períodos de maior incerteza política e financeira.

A segunda passa pela energia. Uma subida persistente dos preços do petróleo pode alimentar inflação, obrigar os bancos centrais a manter políticas monetárias restritivas durante mais tempo e aumentar a volatilidade nos mercados obrigacionistas e cambiais.

No início da semana, porém, os preços do petróleo recuaram, beneficiando do aumento das exportações do Médio Oriente e da disponibilização de petróleo pelas economias do G7.

Prata, Platina E Paládio Também Avançam

O movimento positivo estendeu-se aos restantes metais preciosos.

A prata subiu 1,7%, para US$ 61,40 por onça, enquanto a platina avançou 1,1%, para US$ 1.716,92. O paládio valorizou 0,3%, para US$ 1.165,40.

A subida simultânea dos metais mostra que a sessão não está exclusivamente associada ao ouro, embora os factores que determinam os preços sejam diferentes.

A prata e os metais do grupo da platina apresentam maior exposição à procura industrial, enquanto o ouro permanece particularmente sensível às expectativas sobre juros, dólar, reservas internacionais e risco financeiro.

Fed, Yields E Dólar Definem O Próximo Movimento

A trajectória do ouro nas próximas semanas será influenciada pela evolução de três variáveis: expectativas para a Fed, yields das obrigações norte-americanas e dólar.

Os dados do emprego retiraram pressão à reunião de Outubro, mas o mercado continua a antecipar uma elevada probabilidade de nova subida dos juros em Dezembro.

Ao mesmo tempo, yields superiores a 5% nos títulos norte-americanos representam concorrência significativa para activos que não proporcionam rendimento.

O elemento diferenciador do actual ciclo encontra-se na capacidade demonstrada pelo ouro para permanecer acima de US$ 4.000 mesmo perante estas condições.

Compras dos bancos centrais, entradas em ETF, diversificação das reservas e incerteza geopolítica estão a criar uma base de procura que reduz a dependência do metal em relação a um único factor macroeconómico.

A evolução das próximas reuniões da Fed permitirá observar se a redução das expectativas de subida dos juros em Outubro representa apenas uma pausa no ciclo monetário ou o início de uma alteração mais ampla das condições financeiras. Para o ouro, essa diferença será determinante para saber se os níveis acima de US$ 4.000 por onça se consolidam como uma nova referência do mercado.