A Era da “Adição Energética”: Produtores de Petróleo Redefinem o Debate Sobre o Futuro da Transição

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Em Abu Dhabi, líderes da OPEP, da API e da indústria global de energia proclamam o fim da “transição energética clássica” e defendem um modelo de coexistência entre hidrocarbonetos e renováveis para responder ao aumento exponencial da procura mundial.

Questões-Chave:
  • A narrativa global sobre a transição energética evolui para o conceito de “adição energética”, que defende a coexistência entre fontes fósseis e renováveis;
  • O Secretário-Geral da OPEP, Haitham Al Ghais, afirmou que “a era da exclusão energética acabou”;
  • O Presidente da COP28 e CEO da ADNOC, Sultan Al-Jaber, pediu “realismo e pragmatismo” na política climática global;
  • A API (American Petroleum Institute) sustentou que o petróleo e o gás “continuarão indispensáveis” para a segurança energética mundial;
  • A inteligência artificial surge como novo factor de pressão sobre a procura energética global.

A narrativa dominante da política energética global está a mudar.
Em Abu Dhabi, na ADIPEC 2025, os principais líderes da indústria do petróleo e gás rejeitaram o conceito de “transição energética clássica”, proclamando o início da “era da adição energética” — uma abordagem que propõe expandir todas as fontes de energia, fósseis e limpas, para satisfazer uma procura mundial em rápida aceleração.

De Transição a Adição: A Viragem Semântica de Abu Dhabi

A ADIPEC 2025, uma das maiores conferências de energia do mundo, marcou o nascimento de um novo paradigma discursivo: não se trata mais de substituir, mas de adicionar.
O termo “transição”, antes símbolo de compromisso ambiental, cede lugar à “adição”, expressão que reflecte a crescente percepção de que a procura global de energia não pode ser suprida apenas por fontes renováveis num horizonte previsível.

“O mundo está a crescer, e a energia que alimenta esse crescimento precisa de ser realista e inclusiva. A era da exclusão energética acabou”, afirmou Haitham Al Ghais, Secretário-Geral da OPEP.

A mudança semântica traduz também uma mudança política, na qual os produtores procuram legitimar a continuidade dos hidrocarbonetos como parte essencial da segurança energética global.

OPEC e API: Realismo Energético Como Novo Paradigma

Na mesma linha, o Presidente da COP28 e CEO da ADNOC, Sultan Al-Jaber, defendeu que “a única transição viável é a que assegura energia para todos, em todas as formas possíveis”.
A sua intervenção reforçou a ideia de um “realismo energético”, em que a urgência climática é equilibrada com a necessidade económica e social.

“Não é tempo de ilusões. É tempo de soluções práticas e realistas. O mundo precisa de mais energia, não de menos”, declarou Al-Jaber.

O American Petroleum Institute (API), representado pelo seu CEO Mike Sommers, acrescentou que “o petróleo e o gás continuarão a ser indispensáveis para o funcionamento da economia global”, apelando a uma política energética pragmática e não ideológica.

Estas posições refletem o reposicionamento estratégico dos produtores de energia, que pretendem liderar o diálogo sobre o futuro da transição, em vez de serem meros alvos das pressões ambientais internacionais.

A Inteligência Artificial Como Motor da Nova Procura

Um dos factores centrais nesta viragem é a explosão da procura energética impulsionada pela inteligência artificial.
Segundo estimativas divulgadas durante a ADIPEC, a IA e a computação avançada poderão multiplicar por quatro o consumo de energia dos data centers até 2030, pressionando redes eléctricas e exigindo novas fontes de abastecimento.

“Cada clique de IA consome energia. A revolução digital é também uma revolução energética”, observou Sultan Al-Jaber, sublinhando que a adopção tecnológica global está a acelerar mais depressa do que a capacidade de geração limpa.

O conceito de “adição energética”, neste contexto, surge como resposta à crescente divergência entre ambição climática e realidade de consumo.

Entre Ambição Climática e Pragmatismo Económico

Embora a “adição energética” seja vista como um discurso de moderação estratégica, críticos alertam que ela pode enfraquecer o impulso da descarbonização.
Organizações ambientais consideram que o novo termo é uma reformulação política do statu quo, usada para justificar o prolongamento do investimento em combustíveis fósseis.

Por outro lado, economistas do sector energético defendem que o realismo pragmático é inevitável: a procura global de energia aumentará 25% até 2045, e os combustíveis fósseis ainda representarão mais de 50% do consumo total.

O dilema, portanto, não está apenas entre fósseis e renováveis, mas entre crescimento económico e sustentabilidade — um equilíbrio que cada país tentará alcançar à sua própria escala.

O Desafio: Reforço ou Substituição Energética?

A nova narrativa global questiona o próprio conceito de transição.
Enquanto uns defendem que a “adição” permite inclusão e segurança energética, outros receiam que adiar a substituição dos combustíveis fósseis possa comprometer as metas climáticas de 2050.

“Precisamos de mais energia e de menos emissões — ambas as coisas ao mesmo tempo”, sintetizou Haitham Al Ghais.

No centro desta tensão, a era da adição energética inaugura um ciclo em que a competição entre fontes dá lugar à coexistência, e em que o pragmatismo energético substitui o idealismo climático.

Um Novo Léxico Para a Política Global da Energia

Mais do que um slogan, “adição energética” é a tentativa de redefinir a narrativa global da energia.
Reflecte o esforço dos produtores para reposicionar o petróleo e o gás como parte da solução, e não como inimigos do clima.
Mas também expõe uma realidade incómoda: a transição verde, nos moldes actuais, não está a acompanhar o ritmo da procura mundial.

A conferência de Abu Dhabi deixou claro que o debate energético global entra numa nova fase, em que a segurança energética volta ao centro das decisões e o discurso sobre a neutralidade carbónica se torna mais pragmático, gradual e politicamente realista.

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