BRICS Batem Recordes Em Energias Renováveis, Mas Também Em Combustíveis Fósseis

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Bloco registou em 2025 a maior expansão eléctrica da sua história. Enquanto China e Índia lideram uma revolução solar e eólica sem precedentes, o carvão, petróleo e gás continuam a crescer, expondo as contradições da transição energética nas principais economias emergentes.

Questões-Chave:
  • BRICS registaram em 2025 a maior expansão da capacidade eléctrica da sua história;
  • Energias renováveis adicionaram 497 GW, estabelecendo um novo recorde para o bloco;
  • Capacidade fóssil também atingiu máximos históricos, com 125 GW de novas centrais a carvão, petróleo e gás;
  • China e Índia concentram a maior parte da expansão das energias limpas;
  • Crescimento da procura energética continua a sustentar investimentos simultâneos em renováveis e combustíveis fósseis.

Os países do BRICS protagonizaram em 2025 uma das maiores expansões energéticas já registadas a nível mundial, mas os números revelam uma realidade complexa e aparentemente contraditória: o mesmo bloco que lidera a revolução global das energias renováveis continua igualmente a expandir a sua capacidade baseada em combustíveis fósseis.

Segundo um novo relatório do Global Energy Monitor (GEM), os dez países que actualmente integram o BRICS adicionaram níveis recorde de capacidade de geração em praticamente todas as principais fontes energéticas, desde o carvão e o gás natural até à energia solar e eólica.

O fenómeno ilustra os desafios enfrentados pelas economias emergentes, que procuram simultaneamente responder ao crescimento acelerado da procura de electricidade, reforçar a segurança energética e cumprir compromissos associados à transição climática.

Renováveis Crescem A Ritmo Sem Precedentes

Os dados compilados pelo Global Energy Monitor mostram que os países do BRICS adicionaram 497 gigawatts (GW) de capacidade solar e eólica em 2025, estabelecendo um novo máximo histórico para o agrupamento.

A China foi, de longe, o principal motor desta expansão. O país instalou 315 GW de energia solar e 119 GW de energia eólica num único ano, representando aproximadamente 87% de todas as novas adições renováveis registadas no conjunto do BRICS.

A Índia também alcançou resultados históricos, adicionando quase 38 GW de energia solar e mais de 6 GW de capacidade eólica, consolidando-se como a segunda principal força da transição energética no grupo.

Brasil e África do Sul continuaram igualmente a expandir a sua capacidade renovável, embora em escalas substancialmente inferiores.

No caso brasileiro, a combinação de energia solar e eólica já representa cerca de 30% da produção anual de electricidade, contribuindo para reduzir a dependência de centrais térmicas em períodos de menor produção hidroeléctrica.

Carvão Continua A Crescer Apesar Da Revolução Verde

O aspecto mais surpreendente do relatório reside no facto de a expansão das energias renováveis não estar a impedir a continuação do investimento em combustíveis fósseis.

Segundo o Global Energy Monitor, os países do BRICS adicionaram 125 GW de nova capacidade baseada em carvão, petróleo e gás em 2025, o valor mais elevado alguma vez registado pelo grupo.

Mesmo descontando as centrais encerradas durante o período, a capacidade fóssil líquida aumentou 115 GW, estabelecendo igualmente um novo recorde histórico.

A China voltou a liderar esta tendência, colocando em operação 78 GW de novas centrais a carvão, o maior volume anual desde 2007. A Índia acrescentou 10 GW e a Indonésia mais 4 GW, enquanto a África do Sul concluiu a última unidade da central de Kusile.

Paralelamente, sete países do BRICS colocaram em funcionamento novas centrais a gás ou petróleo, com destaque para a China, o Brasil e os Emirados Árabes Unidos.

Segurança Energética Explica A Dupla Estratégia

A coexistência entre investimentos massivos em energias limpas e combustíveis fósseis reflecte uma preocupação crescente com a segurança energética.

O relatório observa que a procura de electricidade continua a crescer rapidamente em várias economias do bloco, impulsionada pelo crescimento económico, urbanização, electrificação dos transportes, expansão industrial e desenvolvimento de infra-estruturas digitais.

Neste contexto, muitos governos optam por uma estratégia de diversificação, reforçando simultaneamente a capacidade renovável e as fontes convencionais capazes de assegurar estabilidade ao sistema eléctrico.

A actual crise geopolítica envolvendo o Médio Oriente reforçou ainda mais esta preocupação.

Segundo o Global Energy Monitor, os recentes confrontos entre os Estados Unidos, Israel e o Irão evidenciam a vulnerabilidade dos grandes importadores energéticos, particularmente China e Índia, perante choques externos nos mercados de petróleo e gás.

China E Índia Mostram Que O Crescimento Renovável Já Reduz O Uso Do Carvão

Apesar da continuação dos investimentos em novas centrais a carvão, os dados revelam uma tendência estrutural importante.

Na China, a produção adicional proveniente das energias solar e eólica foi suficiente para satisfazer cerca de 94% do crescimento anual da procura de electricidade em 2025. Como resultado, a geração eléctrica baseada em carvão registou uma redução próxima de 2%.

Na Índia, o fenómeno foi ainda mais evidente.

O país registou uma queda de aproximadamente 3% na produção eléctrica proveniente do carvão, graças ao crescimento recorde da energia renovável e ao abrandamento da procura energética. Foi apenas a segunda vez em duas décadas que a geração baseada em carvão diminuiu em termos anuais.

Segundo o relatório, este comportamento poderá representar o início de uma mudança estrutural na matriz energética indiana, reduzindo progressivamente o papel dominante do carvão no sistema eléctrico nacional.

Corrida Ao Futuro Favorece As Renováveis

Os indicadores relativos aos projectos em desenvolvimento sugerem que, apesar da expansão actual dos combustíveis fósseis, a trajectória de longo prazo tende a favorecer as energias renováveis.

De acordo com o Global Energy Monitor, os países do BRICS possuem actualmente uma carteira de projectos solares e eólicos de grande escala equivalente a 2.317 GW, cerca de duas vezes e meia superior aos 927 GW de projectos baseados em carvão, petróleo e gás actualmente em desenvolvimento.

Mais de 70% dos projectos renováveis em construção a nível mundial encontram-se precisamente na China e na Índia, reforçando a posição destes países como epicentro da transformação energética global.

A Grande Contradição Da Transição Energética Emergente

O relatório do Global Energy Monitor conclui que os BRICS estão a construir simultaneamente duas realidades energéticas.

Por um lado, lideram a maior expansão renovável da história, impulsionando a descarbonização dos sistemas eléctricos e reduzindo gradualmente a dependência do carvão na geração efectiva de energia.

Por outro, continuam a investir em novas infra-estruturas fósseis para responder ao crescimento da procura, reforçar a segurança energética e garantir capacidade de reserva para sistemas eléctricos cada vez mais complexos.

Esta dualidade sugere que a transição energética nas economias emergentes não seguirá necessariamente um modelo linear de substituição imediata dos combustíveis fósseis, mas sim um processo gradual em que crescimento económico, segurança energética e descarbonização coexistirão durante vários anos.