Perda De Pradarias Marinhas Em Inhambane Expõe O Custo Invisível Da Economia Azul

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  • A Baía de Inhambane perdeu cerca de metade da cobertura de ervas marinhas em pouco mais de duas décadas. A degradação reduz a produtividade pesqueira, enfraquece a segurança alimentar e atinge sobretudo mulheres que dependem das zonas rasas para capturar, processar e comercializar marisco. O fenómeno revela que conservar o oceano exige integrar dados sociais, alternativas económicas e participação comunitária nas políticas da economia azul.
Questões-Chave:
  • A cobertura de pradarias marinhas na Baía de Inhambane caiu de cerca de 12.076 para 6.199 hectares entre 1992 e 2013, uma redução próxima de 51%;
  • As mulheres são mais afectadas porque grande parte da sua actividade pesqueira ocorre a pé, em águas rasas e directamente sobre as áreas de ervas marinhas;
  • Nas comunidades mais dependentes destes ecossistemas, mais de nove em cada dez refeições com proteína animal estão associadas aos recursos da baía;
  • A ausência das actividades femininas nos sistemas oficiais de monitoria torna parte significativa da economia pesqueira estatisticamente invisível;
  • Restrições ao uso de artes de pesca, quando aplicadas sem alternativas de rendimento, equipamento e acesso aos mercados, podem agravar a vulnerabilidade e reduzir a adesão das comunidades à conservação;
  • A recuperação dos ecossistemas pode abrir oportunidades em restauração marinha, conservação comunitária, processamento, cadeia de frio, turismo, financiamento climático e carbono azul.

“Esta é como a nossa machamba — cultivamos na baía.” A comparação feita por uma pescadora da ilha de Guiduane, na Baía de Inhambane, traduz uma realidade económica frequentemente ausente das contas nacionais: para milhares de famílias costeiras, os ecossistemas marinhos não são apenas paisagem ou património ambiental, mas activos produtivos que fornecem alimento, rendimento, emprego e segurança social.

Naquela baía, mulheres percorrem zonas rasas durante a maré baixa para recolher caranguejos, ostras, amêijoas, caracóis marinhos e camarão. Depois da captura, cozinham, secam, transportam e comercializam os produtos, utilizando os rendimentos para comprar alimentos, vestuário, material escolar e melhorar as habitações.

Uma investigação do World Resources Institute, desenvolvida com a Ocean Revolution Moçambique no âmbito do Ocean Dependence Framework, mostra, porém, que esta base produtiva está a diminuir. A degradação das pradarias marinhas está a reduzir a disponibilidade de recursos e a exercer uma pressão desproporcional sobre as mulheres, cujas actividades dependem mais directamente das zonas costeiras rasas.

O problema ultrapassa a conservação ambiental. Representa uma perda de capital natural, uma quebra de produtividade e um choque sobre cadeias de valor que sustentam a alimentação e os rendimentos de comunidades inteiras.

A Baía Está A Perder Parte Da Sua Infra-Estrutura Natural

As pradarias marinhas são ecossistemas submersos formados por plantas adaptadas à água salgada. Funcionam como zonas de alimentação, reprodução e abrigo para peixes, crustáceos, moluscos e outras espécies de elevado valor alimentar e comercial.

Também estabilizam os sedimentos, reduzem a erosão costeira, melhoram a qualidade da água e armazenam carbono. A sua degradação equivale, por isso, à deterioração de uma infra-estrutura económica: reduz a capacidade do ecossistema para produzir alimentos, proteger a costa e sustentar actividades empresariais.

Um estudo sobre a evolução da cobertura das pradarias marinhas na Baía de Inhambane concluiu que a área ocupada por estes ecossistemas caiu de aproximadamente 12.076 hectares, em 1992, para 6.199 hectares, em 2013. A redução de cerca de 51% ocorreu num período de 21 anos. 

Segundo o World Resources Institute, a perda foi influenciada por ciclones tropicais cada vez mais frequentes e severos, combinados com pressões humanas, incluindo a utilização de redes de arrasto de praia que são puxadas sobre o fundo e podem arrancar as plantas marinhas. 

Uma investigação publicada em 2023 estimou que a cobertura de ervas marinhas na Baía de Inhambane diminuiu, em média, cerca de 1,2% por ano durante as últimas três décadas. O ritmo mostra que não se trata apenas de danos ocasionais causados por eventos extremos, mas de uma deterioração acumulada do activo ecológico. 

À medida que a cobertura diminui, os organismos marinhos perdem habitat, as capturas tornam-se menores e os pescadores concentram-se nas poucas áreas ainda produtivas. A maior concentração de pessoas e equipamentos nesses locais pode acelerar a pressão sobre o ecossistema remanescente, criando um ciclo de degradação e redução da produtividade.

O Choque Ambiental Não É Neutro Entre Homens E Mulheres

Homens e mulheres utilizam a Baía de Inhambane de formas diferentes e, por isso, não enfrentam o mesmo nível de exposição à degradação.

As mulheres dedicam-se principalmente à apanha manual de marisco e à captura de camarão com pequenas redes tradicionais conhecidas localmente como guínia. Trabalham sobretudo a pé, acima da linha da maré baixa, precisamente nas zonas onde predominam as pradarias marinhas.

Os homens tendem a operar com embarcações, armadilhas e redes maiores, em águas mais profundas. Esta mobilidade permite-lhes procurar canais alternativos e deslocar a actividade para áreas menos afectadas.

O estudo do WRI, realizado em seis comunidades da Baía de Inhambane, concluiu que, em média, mais de um quarto da área colectiva utilizada pelas apanhadoras coincidia com zonas onde as pradarias marinhas tinham desaparecido. Em algumas comunidades, a sobreposição abrangia quase toda a área tradicionalmente utilizada pelas mulheres.

Esta diferença de exposição transforma uma crise ambiental numa desigualdade económica.

Quando uma pradaria desaparece, um pescador com embarcação pode procurar outras áreas. Uma mulher limitada à pesca a pé, sem barco, capital ou equipamento alternativo, perde directamente o seu espaço de produção.

A perda de rendimento é agravada pelas responsabilidades domésticas. Muitas mulheres conciliam a pesca durante a maré baixa com a agricultura familiar e o cuidado das crianças quando a maré sobe. A possibilidade de se deslocarem para zonas mais distantes é, por isso, limitada não apenas por falta de meios financeiros, mas pela organização social do trabalho familiar.

A Degradação Chega À Mesa Antes De Aparecer Nas Estatísticas

O valor económico das pradarias marinhas não se mede apenas pela receita gerada pela venda de pescado.

Segundo a investigação conduzida pelo WRI, nas comunidades da Baía de Inhambane mais dependentes destes ecossistemas, as famílias pescadoras obtêm das pradarias marinhas mais de nove em cada dez refeições que incluem proteína animal.

A diminuição das capturas pode, portanto, reduzir simultaneamente o rendimento e a qualidade da alimentação.

Quando uma família vende menos marisco, perde capacidade para comprar arroz, óleo, vestuário, medicamentos e material escolar. Quando captura menos para consumo próprio, perde igualmente uma fonte essencial de proteína e micronutrientes.

A nível mundial, a dimensão desta economia é considerável. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, cerca de 500 milhões de pessoas dependem da pesca de pequena escala para os seus meios de subsistência. O segmento representa aproximadamente 40% das capturas globais, enquanto as mulheres constituem cerca de 40% das pessoas envolvidas nas cadeias de valor dos alimentos aquáticos. 

Uma investigação científica global publicada em 2025 concluiu igualmente que uma em cada 12 pessoas no mundo depende, pelo menos parcialmente, da pesca de pequena escala e que quase metade desse universo é constituída por mulheres. O segmento gera cerca de 44% do valor económico de todo o pescado desembarcado. 

Em Moçambique, a pesca artesanal possui um peso social superior ao que a sua participação directa no Produto Interno Bruto sugere. Uma avaliação do Banco Mundial estima que as pescas representem directamente entre 2% e 4% do PIB, mas observa que os operadores artesanais respondem por aproximadamente 90% do pescado desembarcado. 

A degradação das pradarias atinge, assim, um sistema alimentar e comercial que opera maioritariamente em pequena escala, mas do qual depende uma parte relevante da população costeira.

Quando A Estatística Não Vê, A Política Também Não Vê

Uma das fragilidades identificadas pelo WRI é a ausência de dados oficiais sobre actividades dominadas por mulheres.

A apanha manual, o uso das redes guínia, o processamento doméstico, a secagem e a venda informal de pescado não estão adequadamente reflectidos no sistema nacional de monitoria das pescas. No caso das redes guínia, a lacuna é agravada pelo seu estatuto proibido, que desencoraja o registo das utilizadoras e do equipamento.

As actividades pós-captura são ainda menos visíveis. Muitas mulheres vendem pescado nas ruas, de porta em porta ou em mercados informais, sem registos sistemáticos do volume transaccionado, do rendimento gerado ou do emprego sustentado.

Esta invisibilidade produz um problema económico concreto: o investimento público tende a seguir aquilo que é contado.

Se os sistemas estatísticos não registam as mulheres, as infra-estruturas, linhas de financiamento, programas de formação e decisões de gestão podem ser desenhados como se aquela actividade não existisse.

O risco é criar políticas tecnicamente orientadas para a conservação, mas socialmente incapazes de compreender quem perderá rendimento, alimento ou acesso ao mercado.

A baixa representação feminina nos Conselhos Comunitários de Pesca reforça esse desequilíbrio. Quando as decisões são tomadas predominantemente por homens, práticas, conhecimentos e necessidades específicas das mulheres podem permanecer fora das prioridades de investimento e gestão.

Proibir Sem Alternativas Pode Deslocar O Problema

A utilização de redes guínia coloca as autoridades perante uma escolha difícil.

Por terem malha pequena, estas redes podem capturar juvenis antes de atingirem a maturidade reprodutiva, enfraquecendo a reposição dos recursos pesqueiros. A sua restrição possui, portanto, uma justificação ecológica.

Mas a aplicação da proibição sem alternativas economicamente viáveis pode transferir os custos da conservação para famílias que já se encontram entre as mais vulneráveis.

O WRI refere que a extensão do período de defeso do camarão à Baía de Inhambane, entre 2022 e 2023, afectou de forma desproporcional as mulheres que dependiam da captura para alimentar as famílias e pagar despesas escolares. A medida enfrentou incumprimento generalizado e acabou por não alcançar os resultados pretendidos.

Uma situação semelhante foi observada no Parque Nacional das Quirimbas, onde regras de zoneamento afastaram mulheres que capturavam polvo na Ilha do Ibo das suas áreas tradicionais e reduziram o acesso aos compradores, depois de embarcações comerciais terem sido impedidas de entrar em determinadas zonas.

Estes casos não significam que as restrições devam ser abandonadas. Mostram que a conservação necessita de uma estratégia de transição.

A retirada de uma arte de pesca deve ser acompanhada por equipamentos alternativos, formação, acesso a financiamento, criação de fontes complementares de rendimento e participação das utilizadoras na definição das regras.

Sem essa arquitectura, a política pode gerar três efeitos indesejados: incumprimento, perda de legitimidade das autoridades e maior pressão clandestina sobre os mesmos recursos que pretende proteger.

A Desigualdade Continua Depois Da Captura

As diferenças entre homens e mulheres estendem-se ao processamento, transporte e comercialização.

Grande parte das mulheres vende produtos em mercados informais, nas ruas ou directamente às famílias. Os homens possuem maior presença nos hotéis, restaurantes e mercados com preços mais elevados, em parte porque dispõem de melhores meios de transporte, incluindo veículos refrigerados, maior capital e níveis de escolaridade que facilitam a negociação em português ou inglês.

Esta segmentação limita o preço recebido pelas mulheres.

Sem gelo, conservação adequada, embalagem, transporte e acesso a informação comercial, a vendedora precisa de escoar rapidamente o produto, mesmo que o preço oferecido seja baixo. O poder negocial desloca-se para intermediários com capacidade de armazenar, transportar ou escolher o momento da venda.

A perda de pradarias marinhas agrava esta fragilidade. Menores capturas aumentam o custo unitário da recolha e reduzem os volumes disponíveis para comercialização, enquanto a falta de conservação eleva as perdas pós-captura.

A resposta não pode limitar-se a aumentar a produção. Deve melhorar a produtividade de toda a cadeia.

Pequenas unidades de frio alimentadas por energia solar, secadores mais eficientes, instalações de processamento, embalagens adequadas, transporte colectivo e plataformas de informação sobre preços podem elevar o valor do mesmo volume capturado, reduzindo simultaneamente a pressão para retirar mais recursos do mar.

Economia Azul Não Pode Crescer Destruindo O Capital Que A Sustenta

Moçambique adoptou a Estratégia de Desenvolvimento da Economia Azul 2024–2033, estruturada em seis pilares: pescas e aquacultura; energias renováveis e indústria extractiva marinha; capital natural, ambiente e economia circular; turismo e cultura; transportes marítimos, portos e logística; e segurança marítima. 

A estratégia reconhece que o crescimento das actividades marítimas deve ocorrer sem destruir os ecossistemas e sem excluir as comunidades que deles dependem.

O caso de Inhambane demonstra por que razão esta abordagem integrada é necessária.

Pescas, turismo, conservação, adaptação climática e inclusão financeira não são sectores separados. A deterioração das pradarias reduz o pescado, fragiliza a segurança alimentar, diminui a atractividade ambiental, aumenta a erosão e enfraquece a resiliência perante tempestades.

Em sentido inverso, a restauração pode gerar benefícios simultâneos: recuperação da biodiversidade, aumento das capturas, protecção da costa, criação de empregos comunitários e armazenamento de carbono.

O Programa das Nações Unidas para o Ambiente observa que a recuperação das pradarias marinhas em Maputo e Inhambane pode aumentar o sequestro de carbono e reforçar a protecção contra a erosão costeira. 

O Banco Mundial também identifica potencial para Moçambique incorporar os ecossistemas de carbono azul — mangais, pradarias marinhas e zonas húmidas costeiras — nas suas políticas climáticas e na mobilização de financiamento para conservação e adaptação. 

Contudo, qualquer mecanismo de carbono azul deverá assegurar que as comunidades não percam acesso aos recursos sem compensação e que uma parte clara dos benefícios financeiros permaneça nos territórios que protegem os ecossistemas.

Restaurar O Ecossistema Pode Criar Uma Nova Cadeia De Valor

A restauração das pradarias não deve ser encarada exclusivamente como despesa pública ou actividade de organizações ambientais.

Pode constituir uma cadeia económica emergente.

O mapeamento das áreas degradadas exige serviços de investigação, cartografia, monitoria por satélite, mergulho, recolha de dados e análise ambiental. A recuperação pode empregar comunidades na produção de viveiros, replantação, vigilância e avaliação dos resultados.

A conservação pode igualmente ser ligada ao turismo de natureza, à certificação de produtos pesqueiros sustentáveis, à educação ambiental e a mecanismos de pagamento por serviços dos ecossistemas.

Para as empresas, surgem oportunidades em tecnologias de conservação, cadeia de frio, processamento, logística, energias renováveis descentralizadas, seguros climáticos, microfinanças e plataformas de comercialização.

Para as instituições financeiras, a questão central será transformar iniciativas dispersas em projectos financiáveis, com receitas identificáveis, indicadores ambientais verificáveis e regras transparentes de partilha de benefícios.

Os grupos comunitários de poupança já utilizados por muitas mulheres constituem uma base importante. Além de oferecerem uma almofada financeira perante choques, podem servir para financiar equipamentos, pequenos negócios de processamento, agricultura complementar e soluções colectivas de transporte.

A experiência das comunidades deve, porém, ser integrada desde a concepção. O Ocean Dependence Framework procura precisamente mapear não apenas onde estão os recursos, mas quem depende deles, para quê, em que grau e com que capacidade de adaptação. 

Esse tipo de informação permite distinguir uma área apenas biologicamente relevante de uma área que é simultaneamente essencial para alimentação, rendimento, cultura e coesão social.

A Baía Deve Entrar No Balanço Económico

A mulher que descreve a Baía de Inhambane como uma machamba está, na prática, a atribuir-lhe um valor produtivo.

Numa exploração agrícola, a perda de metade da terra cultivável seria imediatamente tratada como uma crise económica. No mar, a redução de pradarias pode permanecer invisível porque o activo não possui proprietário individual, preço diário ou registo contabilístico convencional.

Mas a ausência de preço não significa ausência de valor.

O custo aparece na redução das capturas, no aumento do tempo de trabalho, na perda de rendimento, na desnutrição, no abandono escolar, na maior exposição a ciclones e na necessidade de apoio público às famílias afectadas.

Uma economia azul sustentável exige que estes efeitos sejam incorporados na avaliação dos projectos e das políticas. Cada decisão sobre turismo, infra-estruturas, pesca, conservação ou desenvolvimento costeiro deve contabilizar os impactos sobre o capital natural e sobre os grupos que dele dependem.

Na Baía de Inhambane, essa mudança começa por reconhecer que as mulheres não são apenas beneficiárias de programas sociais. São produtoras, comerciantes, detentoras de conhecimento ecológico e gestoras quotidianas de uma cadeia alimentar.

Torná-las visíveis nos dados, nos Conselhos Comunitários de Pesca, nos instrumentos financeiros e nos projectos de restauração não é apenas uma questão de equidade. É uma condição para que as políticas funcionem, os investimentos produzam retorno e a economia azul preserve a base natural da qual depende.