
Super El Niño Pode Agravar Crise Alimentar, Escassez De Água E Incêndios Florestais À Escala Global
- Especialistas alertam que o fenómeno climático poderá ser um dos mais intensos das últimas décadas, coincidindo com um contexto de aquecimento global recorde e perturbações nos mercados energéticos e alimentares, ampliando riscos para África Austral e outras regiões vulneráveis.
- Cientistas admitem a possibilidade crescente de um “Super El Niño” em 2026;
- África Austral figura entre as regiões mais expostas ao risco de seca e escassez hídrica;
- Produção agrícola poderá sofrer impactos significativos devido ao calor e à irregularidade das chuvas;
- Incêndios florestais tendem a intensificar-se em diversas regiões do mundo;
- Alterações climáticas e perturbações geopolíticas podem amplificar os efeitos do fenómeno.
O mundo poderá estar prestes a enfrentar um dos episódios climáticos mais severos dos últimos anos. Segundo uma análise publicada pelo World Resources Institute (WRI), cresce a probabilidade de formação de um chamado “Super El Niño”, caracterizado por temperaturas do Oceano Pacífico superiores a dois graus Celsius acima da média, condição susceptível de desencadear fenómenos extremos em diferentes regiões do planeta.
Embora o fenómeno El Niño seja recorrente e ocorra geralmente a cada dois a sete anos, os especialistas consideram que o contexto actual apresenta características particulares. O aquecimento global atingiu níveis sem precedentes, com os últimos onze anos a figurarem entre os mais quentes de que há registo, enquanto as perturbações nos mercados energéticos e de fertilizantes continuam a afectar a capacidade de resposta dos sistemas alimentares mundiais.
Neste contexto, os impactos de um eventual Super El Niño poderão ser substancialmente mais profundos do que os observados em episódios anteriores.
África Austral Entre As Regiões Mais Vulneráveis À Escassez De Água
Entre os efeitos mais imediatos está o risco acrescido de seca em várias partes do mundo. De acordo com Liz Saccocia, especialista em segurança hídrica do WRI, as regiões que poderão enfrentar maior redução da disponibilidade de água incluem a África Austral, partes da América Central, Caraíbas, Índia, Indonésia, Filipinas e Austrália.
Para países como Moçambique, onde uma parcela significativa da agricultura depende da precipitação e onde persistem desafios estruturais de acesso à água, um agravamento das condições de seca poderá afectar simultaneamente a produção agrícola, a segurança alimentar e a geração hidroeléctrica.
A especialista adverte que um Super El Niño poderá intensificar os extremos climáticos, provocando secas mais severas em algumas regiões e precipitações excessivas noutras. A consequência poderá traduzir-se em maior pressão sobre reservatórios, sistemas de irrigação e aquíferos subterrâneos.
Produção Agrícola Sob Dupla Pressão
Os riscos para a agricultura constituem uma das maiores preocupações dos especialistas.
Segundo Mike Badzmierowski, gestor de políticas agrícolas do WRI, os fenómenos El Niño historicamente alteram os padrões de precipitação e temperatura, influenciando directamente a produção de alimentos em diversas regiões do mundo. A África Austral surge entre as áreas que tradicionalmente registam perdas na produção cerealífera durante episódios de El Niño devido às condições mais quentes e secas.
Contudo, o cenário actual apresenta um agravante adicional: o fenómeno desenvolver-se-á num planeta significativamente mais quente.
Temperaturas mais elevadas aumentam a evaporação da humidade dos solos, aceleram o stress hídrico das culturas e reduzem a capacidade das plantas suportarem períodos prolongados de calor extremo. Mesmo em regiões que possam receber mais precipitação, os benefícios poderão ser limitados, uma vez que chuvas mais intensas tendem a escoar rapidamente sem recarregar adequadamente os solos e os reservatórios.
Para os especialistas, isso significa que a disponibilidade efectiva de água para a agricultura poderá não acompanhar o aumento da precipitação observado em determinadas áreas.
Guerra E Custos De Produção Agravam Vulnerabilidades
O relatório do WRI chama igualmente a atenção para a interacção entre factores climáticos e geopolíticos.
As perturbações nos mercados energéticos e de fertilizantes associadas ao conflito entre os Estados Unidos e o Irão estão a reduzir a resiliência dos sistemas alimentares globais. A menor disponibilidade e o aumento dos custos dos fertilizantes limitam a capacidade dos agricultores responderem aos choques climáticos, precisamente num momento em que poderão enfrentar secas, inundações ou ondas de calor mais frequentes.
Segundo os especialistas, caso os preços dos combustíveis e fertilizantes permaneçam elevados, muitos produtores poderão reduzir a utilização de insumos agrícolas, comprometendo os rendimentos das culturas e ampliando os riscos de insegurança alimentar.
A preocupação é particularmente relevante para países em desenvolvimento, onde a agricultura continua a desempenhar um papel central na geração de rendimento e emprego.
Incêndios Florestais Podem Atingir Níveis Recorde
Os impactos não deverão limitar-se aos sectores da água e da agricultura.
Especialistas do WRI alertam que um Super El Niño poderá aumentar significativamente o risco de incêndios florestais em várias regiões do planeta. O fenómeno tende a provocar temperaturas mais elevadas e condições mais secas, criando um ambiente favorável à propagação do fogo.
A Amazónia é apontada como uma das áreas mais vulneráveis. Os investigadores recordam que os fortes episódios de El Niño registados em 2015–2016 e 2023–2024 estiveram associados a temporadas recorde de incêndios no Brasil, com mais de 2,3 milhões de hectares de floresta afectados em cada um desses períodos.
Os especialistas admitem que a actividade de incêndios poderá aumentar já durante 2026, mas alertam que os impactos mais severos tendem a manifestar-se com algum desfasamento temporal. Por essa razão, algumas das consequências mais intensas poderão ocorrer apenas em 2027, sobretudo na América do Sul.
Preparação Antecipada Será Determinante
Face ao cenário traçado, os especialistas defendem a adopção de medidas preventivas antes da intensificação do fenómeno.
Experiências anteriores demonstram que intervenções antecipadas, como a reabilitação de sistemas de irrigação, o reforço de infra-estruturas de protecção contra cheias, a distribuição de sementes resistentes à seca e o fortalecimento dos sistemas de alerta precoce, podem reduzir significativamente os impactos económicos e sociais dos eventos climáticos extremos.
Para países vulneráveis como Moçambique, onde a agricultura, os recursos hídricos e a segurança alimentar permanecem fortemente dependentes das condições climáticas, a evolução do fenómeno deverá ser acompanhada com particular atenção.
Mais do que um episódio meteorológico, o eventual Super El Niño surge como um teste à capacidade de adaptação das economias e dos sistemas produtivos num mundo cada vez mais marcado pela convergência entre alterações climáticas, insegurança alimentar e instabilidade geopolítica.
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