
Crise cambial no Zimbabué: Nova moeda Digital (ZiG) sob pressão cinco meses após o seu lançamento
A tentativa do Zimbabué de estabilizar a sua economia através da introdução de uma moeda digital, o ZiG (Zimbabwe Gold-Backed Digital Token), está a enfrentar grandes dificuldades cinco meses após a sua implementação. A moeda, que foi inicialmente lançada com o objetivo de conter a inflação e estabilizar o mercado cambial, já perdeu 80% do seu valor no mercado paralelo, destacando os desafios que o país continua a enfrentar em restaurar a confiança na sua política monetária.
Introduzido com uma taxa oficial de 13,6 ZiG por dólar americano, o ZiG foi projectado para funcionar como uma moeda digital respaldada por ouro, uma medida inovadora no cenário económico do país. Contudo, a sua taxa de câmbio no mercado negro subiu rapidamente, e agora varia entre 20 e 26 ZiG por dólar, reflectindo uma perda significativa de confiança pública. As tentativas do governo de expandir o uso do ZiG enfrentam resistência, com muitos zimbabueanos e comerciantes a preferirem transacionar em dólares norte-americanos.
Problemas de confiança e falta de aceitação
Apesar dos esforços do Banco de Reserva do Zimbabué (RBZ) para aumentar a aceitação do ZiG, a falta de confiança no sistema monetário continua a ser um grande obstáculo. O Governador do Banco Central, John Mushayavanhu, afirmou que o banco pode intervir utilizando as suas reservas de divisas e ouro para proteger o ZiG de grandes flutuações no mercado. Contudo, as intervenções ainda não surtiram o efeito desejado, com a maioria dos comerciantes, como Carol Munjoma, a afirmar que transacionam exclusivamente em dólares americanos, uma vez que “o ZiG teria de ser estável para ser aceite”.
Este comportamento reflecte a crise de confiança crónica que o Zimbabué enfrenta, exacerbada pela memória colectiva de crises económicas anteriores, como a hiperinflação de 2008, que dizimou o valor do antigo dólar zimbabueano. O economista Prosper Chitambara comentou que a desvalorização do ZiG é um sinal de que os zimbabueanos ainda têm relutância em aceitar a nova moeda, e que a aceitação por parte do público tem sido muito lenta.
Medidas e reacções do Governo
O Governo tem tentado várias abordagens para aumentar a utilização da nova moeda, incluindo incentivos fiscais e a possibilidade de aumentar o uso do ZiG na cobrança de impostos. Persistence Gwanyanya, membro do Comité de Política Monetária do RBZ, mencionou que ainda é cedo para declarar o ZiG um fracasso e que o governo está a explorar maneiras de injetar mais moeda estrangeira no mercado para estabilizar a situação.
No entanto, o mercado paralelo continua a desafiar a autoridade da taxa de câmbio oficial, refletindo uma pressão inflacionária crescente e uma escassez de divisas. De acordo com o “Pricecheck”, uma plataforma que monitora a a taxa de câmbio, o ZiG encontra-se numa posição de fragilidade contínua, apesar das promessas do governo de restaurar a sua estabilidade.
Perspectivas e desafios futuros
A trajectória do ZiG está a tornar-se cada vez mais incerta, uma vez que o País enfrenta não apenas uma crise de confiança, mas também um contexto económico mais amplo de instabilidade. O colapso da moeda digital não afecta apenas o mercado interno, mas também compromete a capacidade do Zimbabué de atrair investimentos estrangeiros, cruciais para revitalizar a sua economia.
Para muitos analistas, como o economista Tony Hawkins, o futuro do ZiG depende da capacidade do governo de implementar reformas económicas mais amplas, melhorar a gestão das reservas cambiais e restaurar a confiança interna. Sem estas mudanças estruturais, o Zimbabué poderá continuar a lutar para estabilizar a sua economia, correndo o risco de novas crises cambiais e de hiperinflação, com consequências desastrosas para a sua população.
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