
Dólar Recua Após Dados de Inflação dos EUA Aliviarem Apostas em Novos Juros
- A inflação norte-americana continua elevada, mas uma leitura mensal abaixo das previsões reduziu as expectativas de uma subida imediata das taxas de juro pela Reserva Federal. O dólar interrompeu uma sequência de ganhos, embora mantenha suporte num cenário de consumo robusto e mercado de trabalho resiliente.
- A inflação medida pelo índice PCE avançou 4,1% em Maio face ao mesmo período do ano anterior;
- Em termos mensais, o indicador subiu 0,4%, abaixo da previsão de 0,5%;
- Os mercados reduziram a probabilidade de uma subida das taxas de juro da Reserva Federal já em Julho;
- O índice do dólar caiu 0,19%, interrompendo uma sequência de três sessões de ganhos;
- O Yen permanece próximo dos níveis mais fracos em quatro décadas face à moeda norte-americana.
O dólar norte-americano recuou na quinta-feira, 25 de Junho, depois de dados económicos divulgados nos Estados Unidos terem moderado as expectativas de uma nova subida das taxas de juro pela Reserva Federal já na reunião de Julho.
Segundo a Reuters, o índice de preços das despesas de consumo pessoal — conhecido pela sigla PCE e utilizado pela Reserva Federal como principal referência de inflação — subiu 4,1% em Maio, face ao mesmo mês do ano anterior. Trata-se da leitura anual mais elevada desde Abril de 2023, confirmando que as pressões sobre os preços continuam acima dos níveis desejados pelo banco central norte-americano.
Ainda assim, o dado mensal trouxe algum alívio aos mercados. O PCE avançou 0,4% em Maio, abaixo da estimativa de 0,5% apontada pelos economistas consultados pela Reuters. A diferença, embora limitada, foi suficiente para reduzir as apostas numa intervenção mais imediata da Reserva Federal.
O índice do dólar, que mede a força da moeda norte-americana face a um cabaz de seis divisas, caiu 0,19%, para 101,41 pontos, interrompendo uma sequência de três sessões de ganhos. O euro valorizou-se para US$ 1,1375 e a libra esterlina avançou para US$ 1,3196.
Inflação Elevada, Mas Sem Agravamento Acima do Esperado
A reacção do mercado mostra que os investidores passaram a olhar não apenas para o nível absoluto da inflação, mas também para a velocidade a que os preços continuam a subir.
A inflação anual de 4,1% continua a ser incompatível com uma postura plenamente confortável da Reserva Federal. Porém, o facto de o aumento mensal ter ficado abaixo das previsões permitiu aos mercados admitir que as pressões inflacionistas poderão estar a perder parte da intensidade observada nos meses anteriores.
De acordo com a CME FedWatch, citada pela Reuters, a probabilidade de uma subida de pelo menos 25 pontos-base na reunião de Julho caiu para cerca de 30%, contra 34,2% na sessão anterior. Para a reunião de Setembro, a expectativa de uma subida também diminuiu, passando de 65,7% para 62,1%.
Já na sessão asiática desta sexta-feira, 26 de Junho, os contratos futuros sobre a taxa dos fundos federais apontavam para uma probabilidade de 69% de manutenção das taxas na próxima reunião do Comité Federal de Mercado Aberto, a realizar-se no final de Julho.
Consumo Resiliente Mantém Reserva Federal Sob Pressão
A leitura da inflação foi acompanhada por outros dados que mostram uma economia norte-americana ainda relativamente sólida, tornando mais complexa a decisão da Reserva Federal.
As despesas dos consumidores aumentaram 0,7% em Maio, depois de um crescimento de 0,4% em Abril. O resultado superou a previsão de 0,6% e demonstra que, apesar da inflação elevada, as famílias norte-americanas continuam a sustentar a procura interna.
A Reuters reporta igualmente que o Produto Interno Bruto dos Estados Unidos cresceu a uma taxa anualizada revista em alta de 2,1% no primeiro trimestre, acima da estimativa anterior de 1,6%. Ao mesmo tempo, o crescimento das despesas de consumo nesse período foi revisto em baixa, de 1,4% para 0,5%, sinalizando uma economia em expansão, embora com uma composição menos homogénea.
O mercado de trabalho continua igualmente firme. Os novos pedidos semanais de subsídio de desemprego caíram em 12 mil, para 215 mil, abaixo da previsão de 225 mil. Este resultado reduz os receios de um abrandamento mais pronunciado da actividade, mas limita também a margem da Reserva Federal para adoptar uma postura menos exigente no combate à inflação.
Sinais Mistos Mantêm Fed em Modo de Prudência
As declarações de responsáveis da Reserva Federal ajudaram a reforçar a percepção de que a política monetária deverá permanecer cautelosa.
O presidente da Reserva Federal de Chicago, Austan Goolsbee, afirmou que os dados mais recentes revelam um sinal encorajador na inflação dos serviços. Contudo, advertiu que as pressões subjacentes sobre os preços continuam demasiado altas e evoluem numa direcção ainda preocupante.
O presidente da Reserva Federal de Nova Iorque, John Williams, também admitiu que a inflação poderá moderar ao longo do ano, mas sublinhou que os níveis actuais permanecem excessivamente elevados.
A mensagem das autoridades monetárias é, por isso, clara: o banco central reconhece algum alívio nos dados recentes, mas ainda não vê condições para abandonar uma postura firme perante a inflação.
Yen Continua Próximo de Mínimos de Quatro Décadas
Enquanto o dólar cedia face ao euro e à libra, manteve-se praticamente estável perante o Yen. Na manhã desta sexta-feira, a moeda norte-americana negociava em torno de 161,82 Yens, depois de ter atingido 161,95 na sessão anterior.
Segundo a Reuters, uma subida acima de 161,96 Yens por dólar colocaria a moeda japonesa no nível mais fraco desde 1986. O movimento reflecte a persistente divergência entre as políticas monetárias dos Estados Unidos e do Japão.
Embora alguns membros do Banco do Japão defendam aumentos graduais das taxas de juro, as condições monetárias japonesas continuam substancialmente mais acomodatícias do que as norte-americanas. Esta diferença mantém a pressão sobre o Yen e favorece a procura pelo dólar.
Analistas da Capital Economics, citados pela Reuters, consideram que a moeda norte-americana poderá atravessar uma pausa técnica no curto prazo, depois da valorização observada nas últimas sessões. Mas sustentam que a diferença entre a política monetária dos Estados Unidos e da Europa poderá voltar a favorecer o dólar durante o segundo semestre de 2026.
Mercado Reavalia Ritmo dos Juros
O recuo do dólar não significa que os mercados tenham deixado de esperar uma política monetária restritiva nos Estados Unidos. Significa apenas que diminuiu a percepção de urgência em torno de uma nova subida já em Julho.
A inflação continua elevada, o consumo mantém-se resistente e o mercado de trabalho permanece sólido. Estes elementos sustentam a ideia de que a Reserva Federal continuará a privilegiar prudência e vigilância antes de considerar qualquer mudança mais expressiva na sua orientação.
Nos próximos meses, a trajectória do dólar dependerá da evolução da inflação, da força do consumo, dos dados de emprego e da comunicação da Reserva Federal. Para já, a moeda norte-americana recuou, mas o seu suporte estrutural permanece intacto.
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