Ecobank Coloca US$ 600 Milhões no Centro do Financiamento das Cadeias Agrícolas Africanas

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  • Grupo bancário pretende construir até 2030 uma carteira de crédito de US$ 600 milhões destinada às PME do agronegócio, financiando produtores, agregadores, processadores, logística, comerciantes e exportadores. A estratégia coloca o capital circulante, a transformação e o acesso aos mercados no centro da expansão agrícola africana.
QUESTÕES-CHAVE
  • Ecobank pretende alcançar US$ 600 milhões em crédito em carteira para PME agrícolas até 2030;
  • Financiamento abrangerá toda a cadeia, da produção à transformação, logística, comercialização e exportação;
  • Estratégia será implementada através da presença do grupo em 34 mercados africanos;
  • Parceria com a Proparco pretende catalisar até €300 milhões para cadeias agrícolas durante três anos;
  • Acordo com a AGRA acrescenta garantias, partilha de risco e financiamento misto (blended finance) ao modelo de financiamento;
  • Plataforma comercial do Ecobank conecta mais de 60 mil empresas e deverá apoiar o comércio agrícola intra-africano.

O financiamento da agricultura africana começa a deslocar-se da produção isolada para a estrutura económica que transporta o produto desde a exploração agrícola até ao consumidor. O Ecobank pretende construir, até 2030, uma carteira de US$ 600 milhões em crédito às pequenas e médias empresas agrícolas, abrangendo diferentes etapas das cadeias de valor do continente.

Segundo o Ecobank Group, a meta corresponde ao valor da carteira de empréstimos agrícolas que o banco pretende ter em aberto até 2030 e integra um compromisso financeiro mais amplo assumido pelo grupo para apoiar empresas africanas.

No agronegócio, o desenho assume particular relevância porque inclui agricultores, agregadores, processadores, operadores logísticos, comerciantes e exportadores.

A lógica económica assenta na necessidade de financiar as diferentes etapas que transformam produção agrícola em produto comercializável. A insuficiência de recursos para armazenamento, aquisição de matéria-prima, transformação, transporte, comercialização e exportação continua a criar descontinuidades nas cadeias agrícolas africanas.

É precisamente nessa ligação que o Ecobank pretende concentrar uma parte importante da nova carteira.

Capital Terá de Acompanhar o Produto Até ao Mercado

A agricultura africana enfrenta um problema recorrente de financiamento: os recursos disponíveis tendem a concentrar-se na produção, enquanto empresas que compram, armazenam, transformam, transportam e comercializam os produtos também necessitam de capital circulante.

O modelo anunciado pelo Ecobank procura financiar o percurso completo entre a exploração agrícola e o mercado.

Um produtor precisa de recursos para sementes, fertilizantes, equipamento e mão-de-obra. O agregador necessita de liquidez para adquirir produção de vários agricultores. A indústria precisa de financiar matérias-primas, equipamento e operações. Transportadores e operadores logísticos necessitam de capital para movimentar e armazenar mercadorias. Comerciantes precisam de financiar inventários, enquanto os exportadores enfrentam custos relacionados com transporte, certificação, seguros e os prazos entre a entrega da mercadoria e o pagamento.

Uma falha financeira em qualquer destas etapas pode reduzir a capacidade da cadeia de transformar produção agrícola em rendimento, valor acrescentado e comércio.

De acordo com o Ecobank, a estratégia deverá combinar capital circulante, financiamento ao comércio e investimento com mecanismos de garantia e partilha de risco proporcionados por instituições de financiamento ao desenvolvimento.

Agricultura Representa Cerca de 20% do PIB Africano

A dimensão do sector ajuda a explicar o reforço do interesse das instituições financeiras.

Dados apresentados pelo Ecobank e pela Proparco indicam que a agricultura representa cerca de 20% do PIB africano e quase metade do emprego, permanecendo, contudo, estruturalmente subfinanciada.

Esta combinação constitui um dos principais desafios económicos do continente: um dos sectores com maior peso no emprego continua a enfrentar dificuldades para obter financiamento numa escala compatível com a sua importância económica e social.

As consequências aparecem em vários pontos das cadeias agrícolas: baixa mecanização, dificuldades de armazenamento, perdas pós-colheita, limitada capacidade industrial, custos logísticos elevados e reduzida capacidade dos pequenos e médios operadores para financiarem contratos comerciais.

O financiamento das cadeias pode responder a algumas destas limitações.

Quando o capital chega simultaneamente à produção, agregação, transformação e comercialização, aumenta a capacidade de estabelecer relações comerciais mais estáveis entre agricultores, indústrias e mercados.

Proparco Acrescenta Até €300 Milhões à Arquitectura Financeira

A iniciativa de US$ 600 milhões surge depois de o Ecobank ter começado a construir uma arquitectura financeira mais ampla para o agronegócio africano.

Em Maio, o Ecobank e a Proparco estabeleceram uma parceria destinada a catalisar até €300 milhões durante três anos para responder às necessidades de financiamento da produção, transformação e comércio agrícola.

Segundo as duas instituições, uma componente importante da parceria encontra-se na redução do risco associado ao financiamento das PME agrícolas.

A Proparco deverá utilizar garantias parciais de carteira para reduzir a exposição do Ecobank aos empréstimos concedidos a estas empresas. Nesta componente, as instituições pretendem mobilizar até €100 milhões durante três anos para empresas agrícolas em 33 países africanos.

Outro segmento poderá mobilizar até €200 milhões para empresas agro-industriais e operadores envolvidos no comércio de produtos agrícolas.

O desenho procura responder a algumas das razões que historicamente condicionam a expansão do crédito agrícola: volatilidade da produção, exposição aos fenómenos climáticos, oscilações dos preços das commodities, informalidade, insuficiência de garantias e ciclos financeiros relativamente longos.

A distribuição do risco entre bancos comerciais e instituições de financiamento ao desenvolvimento pode ampliar o universo de empresas com condições para aceder ao crédito.

AGRA Entra na Equação do Risco Agrícola

No mesmo período, o Ecobank e a AGRA estabeleceram uma parceria destinada a desenvolver instrumentos financeiros para empresas do agronegócio e pequenos produtores.

Segundo as duas instituições, o acordo prevê capital circulante, financiamento de activos e trade finance, combinados com garantias, mecanismos de partilha de risco e blended finance. A AGRA deverá acrescentar assistência técnica, mobilização de beneficiários e apoio à preparação das empresas para receber financiamento.

Esta componente é relevante porque as dificuldades de acesso ao crédito agrícola não decorrem exclusivamente da disponibilidade de recursos financeiros.

Muitas PME apresentam limitações na contabilidade, governação, informação financeira, garantias e estruturação dos projectos. Para os bancos, estas fragilidades aumentam o custo da avaliação e o risco das operações.

A combinação entre crédito, garantias e assistência empresarial pode aumentar a capacidade das empresas agrícolas para aceder ao sistema financeiro formal.

US$ 450 Milhões Captados no Mercado Internacional

A estratégia agrícola do Ecobank inclui igualmente a mobilização de capital nos mercados financeiros internacionais.

Em Maio, o grupo colocou uma obrigação de US$ 450 milhões dedicada à agricultura sustentável e ao capital natural. Segundo o Ecobank, a operação começou com uma dimensão indicativa de US$ 350 milhões e recebeu ordens superiores a US$ 1,36 mil milhões, permitindo aumentar a emissão para US$ 450 milhões.

A procura correspondeu a aproximadamente 3,9 vezes o montante inicialmente pretendido.

A operação sinaliza a existência de capital institucional internacional interessado em instrumentos associados à agricultura sustentável e aos activos naturais africanos, quando existem estruturas financeiras capazes de converter esse interesse em oportunidades de investimento.

Para o continente, uma questão central reside na capacidade de fazer chegar estes recursos às empresas que efectivamente operam nas cadeias produtivas.

Comércio Intra-Africano Entra na Estratégia

A expansão do financiamento agrícola está igualmente relacionada com as oportunidades criadas pela Zona de Comércio Livre Continental Africana.

Segundo o Ecobank, o grupo pretende utilizar o seu Single Market Trade Hub, plataforma que já conecta mais de 60 mil empresas, para aproximar produtores, fornecedores e compradores instalados em diferentes mercados africanos.

A estratégia combina esta plataforma com sistemas de pagamentos transfronteiriços e instrumentos de financiamento ao comércio destinados a facilitar transacções entre empresas de diferentes países.

O grupo anunciou igualmente um compromisso de US$ 3 mil milhões em trade finance durante três anos, abrangendo agronegócio, indústria transformadora e comércio.

Esta componente pode assumir importância crescente para a agricultura africana.

Produzir alimentos ou commodities agrícolas num país e identificar procura noutro não garante que a transacção seja concretizada. As empresas precisam de financiar stocks, transporte, seguros, pagamentos e o intervalo existente entre a expedição e o recebimento.

O financiamento comercial constitui, assim, uma componente essencial para o funcionamento das cadeias regionais.

Transformação Pode Aumentar o Valor Retido em África

O modelo anunciado coloca a transformação agro-industrial no centro da estratégia.

Esta dimensão tem implicações económicas importantes. A exportação de produtos agrícolas com reduzido processamento significa que parte da actividade industrial, do emprego, das margens comerciais e do valor acrescentado associado à transformação é realizada noutros mercados.

O financiamento dos processadores cria condições para que uma parcela maior da produção seja transformada localmente antes de chegar aos mercados domésticos, regionais ou internacionais.

Os efeitos podem estender-se à embalagem, transporte, armazenamento, serviços financeiros, seguros, certificação e outras actividades associadas.

A expansão destas ligações permite reforçar a contribuição da agricultura para a industrialização e diversificação das economias africanas.

Moçambique Pode Encontrar Espaço nas Novas Cadeias

Moçambique, pode perspectivar esta abordagem, que  ganha particular relevância,  perante o desafio de converter o potencial agrícola em cadeias de valor com maior produtividade, transformação local e acesso aos mercados. O financiamento articulado entre produção, agregação, processamento, logística e comercialização pode contribuir para ampliar o valor acrescentado gerado internamente e reforçar a integração dos pequenos produtores na economia formal.

O país enfrenta vários dos constrangimentos que a nova arquitectura financeira procura enfrentar: acesso limitado ao crédito, reduzida capacidade de processamento, dificuldades de armazenamento, custos logísticos e ligações ainda insuficientes entre produtores, indústria e mercados.

A possibilidade de aproveitar instrumentos desta natureza está relacionada com a capacidade de estruturar cadeias financiáveis.

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Neste modelo, o financiamento agrícola passa a considerar simultaneamente o produtor, a empresa que compra a produção, a unidade que a transforma, o operador que a transporta e o comerciante ou exportador responsável pela colocação no mercado.

Agricultura Como Sistema Económico

A iniciativa do Ecobank aponta para uma abordagem de financiamento agrícola assente na integração das diferentes etapas da cadeia de valor.

A produção gera o produto agrícola. O financiamento assegura os recursos necessários à sua circulação. A transformação aumenta o valor acrescentado. A logística estabelece a ligação física entre os diferentes intervenientes. O comércio permite alcançar mercados e ganhar escala.

O desafio até 2030 estará na execução: dimensão efectiva da carteira alcançada, distribuição geográfica dos financiamentos, participação das PME, qualidade do crédito, capacidade das garantias para reduzir o risco e volume de comércio gerado pelas empresas financiadas.

A evolução destes indicadores permitirá observar em que medida os US$ 600 milhões previstos pelo Ecobank contribuem para construir cadeias agrícolas africanas mais integradas e para estabelecer ligações mais sólidas entre produção, transformação, financiamento e mercados.