
Empresas Mantêm Planos De Crescimento Apesar Da Avaliação Negativa Da Economia
- Barómetro mostra que 68% dos gestores avaliam desfavoravelmente a conjuntura nacional, mas 81% esperam aumentar ou manter o volume de negócios em 2026
- Cerca de 68% dos gestores avaliam negativamente a situação da economia moçambicana e aproximadamente dois terços têm uma percepção desfavorável da conjuntura internacional;
- Apesar da prudência, 41% das empresas esperam aumentar o volume de negócios e 40% prevêem manter o actual nível de actividade;
- A maioria das organizações pretende conservar os níveis de investimento e mais de um terço admite aumentá-los ao longo de 2026;
- O acesso a divisas é apontado por 77% dos inquiridos como o principal desafio do ambiente de negócios em Moçambique;
- A estabilidade política, a volatilidade cambial, o financiamento e a morosidade administrativa surgem entre os constrangimentos mais relevantes;
- Quase metade das empresas prevê manter o número de trabalhadores e cerca de um terço admite aumentar as equipas;
- Mais de metade das organizações já possui uma estratégia de sustentabilidade implementada;
A maioria dos gestores empresariais mantém uma avaliação negativa da economia moçambicana, mas essa percepção ainda não se converteu numa retracção generalizada das expectativas de crescimento, investimento e emprego.
Os resultados preliminares do Barómetro das Empresas Moçambicanas 2026, apresentados por João Veiga, Country Senior Partner da PwC Moçambique, mostram que cerca de 68% dos gestores avaliam desfavoravelmente a situação económica nacional. Aproximadamente dois terços manifestam igualmente uma percepção negativa do enquadramento internacional.
Apesar desta leitura, 41% das empresas antecipam um aumento do volume de negócios em 2026 e 40% esperam manter o actual nível de actividade. Apenas 19% projectam uma redução.
O Barómetro foi realizado pela PwC Moçambique, em parceria com a Câmara de Comércio Portugal-Moçambique, e baseia-se num questionário respondido por 124 gestores e líderes empresariais de diferentes sectores de actividade. Os resultados, publicados no Directório Moçambique 2026 da Câmara, são apresentados de forma agregada e anónima.
Segundo João Veiga, a diferença entre a avaliação da conjuntura e as perspectivas das próprias organizações constitui uma das conclusões centrais do estudo. Os gestores reconhecem a fragilidade da economia, mas continuam concentrados na continuidade da actividade, na adaptação ao mercado e na preservação da capacidade de crescimento.
Conjuntura Cautelosa, Empresas Resilientes
O Barómetro retrata um tecido empresarial prudente perante a economia, mas relativamente mais confiante na capacidade das próprias organizações para atravessar o actual ciclo.
Enquanto a maioria classifica negativamente o ambiente económico, 81% das empresas esperam aumentar ou conservar o volume de negócios ao longo de 2026. Esta diferença indica que a leitura desfavorável da conjuntura não se traduz, necessariamente, numa expectativa equivalente de contracção empresarial.
Na interpretação apresentada por João Veiga, Country Senior Partner da PwC Moçambique, as empresas continuam orientadas para a eficiência operacional, diversificação de mercados, introdução de novos produtos e serviços e aprofundamento das relações com clientes e parceiros.
A instabilidade pós-eleitoral registada no final de 2024 e início de 2025, as limitações orçamentais do Estado e a escassez de divisas produziram, entretanto, efeitos interligados sobre a confiança, o comércio e a execução das decisões de investimento.
“Primeiro, a instabilidade pós-eleitoral no final de 2024, início de 2025, que afectou a confiança, o comércio e a execução de determinadas decisões de investimento. Depois, temos limitações a nível orçamental, que diminuem a capacidade de realizar investimento público e financiar projectos. Por último, a escassez de divisas”, explicou João Veiga.
“Estes três factores reforçam-se mutuamente. Ou seja, uma menor confiança reduz o investimento, e a redução do investimento limita o crescimento”, acrescentou.
Empresas Gerem Dois Níveis De Incerteza
Além das dificuldades domésticas, as organizações precisam de gerir riscos provenientes da economia mundial, incluindo tensões geopolíticas, conflitos armados, alterações tarifárias e perturbações nas cadeias de abastecimento.
“Os riscos internacionais chegam a uma economia que já enfrenta algumas fragilidades estruturais e, consequentemente, as empresas têm de gerir dois níveis de incerteza. Por um lado, a instabilidade da economia global e, por outro, os constrangimentos específicos do País”, afirmou João Veiga.
A sobreposição destes riscos aumenta o grau de exigência sobre a gestão financeira, o investimento, o emprego e o planeamento empresarial. As decisões passam a considerar, simultaneamente, o comportamento do mercado interno, o custo do financiamento, a evolução cambial, a segurança das cadeias logísticas e as políticas comerciais das principais economias.
Neste ambiente, a previsibilidade regulatória ganha maior importância. Quando as empresas enfrentam incerteza internacional, a estabilidade das regras internas torna-se um elemento decisivo para manter operações ou comprometer novo capital.
Acesso A Divisas Lidera Preocupações
O acesso a moeda estrangeira constitui o maior constrangimento identificado pelos gestores. Segundo o Barómetro, 77% dos inquiridos apontam a disponibilidade de divisas como um desafio para a actividade empresarial em Moçambique.
A estabilidade da política interna surge na segunda posição, referida por 70% dos participantes. Seguem-se a taxa de câmbio e a volatilidade do metical, com 59%, e o acesso ao financiamento e a morosidade dos processos administrativos, ambos com 58%.
A inflação e as taxas de juro são indicadas por 52% dos gestores, a mesma percentagem atribuída à segurança e estabilidade no norte do País. As infra-estruturas e os custos logísticos preocupam 44%, enquanto o ambiente legal e regulatório é mencionado por 40%.
Os incentivos à produção nacional também são apontados por 40% dos participantes. Seguem-se as políticas fiscais e o aumento das obrigações, com 35%, as políticas públicas de atracção de investimento, com 34%, e a transparência na contratação pública, com 31%.
O licenciamento de importações e exportações preocupa 27% dos gestores, enquanto o fornecimento e o custo da energia são assinalados por 23%. A obtenção de vistos é mencionada por 18%, a transição energética por 10% e o licenciamento industrial e as tarifas comerciais dos Estados Unidos por 8%.
Na leitura de João Veiga, os resultados mostram que o ambiente de negócios é condicionado por uma combinação de restrições financeiras, cambiais, administrativas, logísticas e regulatórias, e não por um único problema isolado.
Escassez De Moeda Afecta Sectores E Empresas
Quando os participantes distinguem os desafios dos respectivos sectores das dificuldades específicas das suas organizações, a escassez de moeda estrangeira permanece em primeiro lugar.
Cerca de 52% identificam a falta de divisas como o maior desafio para o sector em que operam, enquanto 58% a classificam como o principal problema para a própria empresa.
As políticas fiscais e o aumento das obrigações são apontados por 36% como desafio sectorial e por 33% como problema empresarial. A inflação e as taxas de juro são referidas, respectivamente, por 32% e 36%.
A atracção e retenção de talento preocupa 32% dos gestores na perspectiva sectorial e 21% quando a avaliação incide sobre a própria organização. A qualidade das competências dos trabalhadores é mencionada por 25% como desafio do sector e por 27% como dificuldade empresarial.
As políticas públicas de atracção de investimento são citadas por 23% dos gestores na análise sectorial e por 25% na perspectiva das empresas. A complexidade regulatória é indicada por 19% e 23%, respectivamente.
De acordo com João Veiga, a escassez de divisas, o financiamento, os custos, o enquadramento fiscal e a disponibilidade de competências deverão continuar a influenciar a actividade empresarial no curto prazo.
Investimento Mantém-se, Mas Torna-se Mais Selectivo
A maioria das organizações prevê conservar os níveis actuais de investimento e mais de um terço admite aumentá-los ao longo de 2026.
Num ambiente caracterizado por crescimento reduzido, dificuldades de financiamento e restrições cambiais, o investimento torna-se mais selectivo. As empresas tendem a concentrar capital em projectos considerados essenciais para a continuidade da actividade, expansão, modernização de processos, eficiência operacional e transformação tecnológica.
Na interpretação de João Veiga, este comportamento traduz uma tentativa de equilibrar prudência financeira com a necessidade de preservar projectos críticos e capacidade de crescimento.
A diferença entre a avaliação negativa da economia e a manutenção dos planos de investimento pode ser explicada pelo horizonte temporal das decisões. Os gestores reconhecem as dificuldades presentes, mas procuram preparar as empresas para uma eventual recuperação da procura e para as oportunidades associadas aos grandes investimentos.
A retoma dos projectos de gás natural, o crescimento da indústria extractiva e o desenvolvimento dos corredores logísticos continuam a sustentar expectativas de novas oportunidades para fornecedores, prestadores de serviços e investidores.
Emprego Resiste À Fragilidade Da Economia
O Barómetro identifica igualmente estabilidade nas perspectivas de emprego. Quase metade das empresas espera manter o actual número de trabalhadores, enquanto cerca de um terço admite aumentar as respectivas equipas.
O resultado é relevante numa conjuntura de crescimento económico reduzido, por indicar que a maioria das organizações não antecipa uma contracção expressiva da sua força de trabalho.
A conservação e eventual expansão do emprego estarão, porém, ligadas à disponibilidade de competências adequadas. A atracção e retenção de profissionais qualificados, assim como a qualidade das competências dos trabalhadores, figuram entre as preocupações identificadas pelos gestores.
A articulação entre empresas, instituições de ensino e centros de formação será determinante para responder às necessidades associadas à energia, logística, indústria, transformação digital e prestação de serviços especializados.
Clientes Permanecem No Centro Da Decisão
Para o Secretário de Estado do Comércio de Portugal, João Rui Ferreira, a existência de oportunidades não é suficiente para garantir o sucesso das empresas. A transformação do potencial em negócios depende da capacidade de identificar clientes e conhecer directamente o mercado.
“Nós podemos ter o melhor produto do mundo. Se não tivermos clientes, a nossa empresa não vai ter sucesso. Portanto, o maior desafio que temos é sempre encontrar clientes”, declarou.
O governante destacou também a importância do contacto entre agentes económicos, mesmo num período caracterizado pela expansão das plataformas digitais e da inteligência artificial.
“É impossível conhecermos a realidade de um mercado, de uma cultura, de um país ou de uma região sentados, por mais IA que nós tenhamos. Não há nada que substitua o contacto entre as pessoas e o conhecimento humano.”
As missões empresariais, feiras, conferências e encontros bilaterais desempenham, neste sentido, uma função que ultrapassa a representação institucional. Estes mecanismos podem reduzir assimetrias de informação, facilitar o conhecimento dos mercados e aproximar empresas com interesses complementares.
Relação Bilateral Procura Produção Conjunta
O Embaixador de Portugal em Moçambique, Jorge Monteiro, considera que a agenda económica bilateral deve evoluir da análise tradicional das trocas comerciais para uma relação centrada no investimento, produção conjunta e criação de valor.
“A questão que nos devemos colocar hoje não é saber qual é o valor das trocas comerciais, quanto é que comerciamos, mas quanto podemos investir juntos, quanto podemos produzir juntos e quanto valor podemos criar juntos. Esta é, de facto, a agenda económica que eu vejo para a próxima década”, afirmou.
A mudança implica uma maior participação de empresas portuguesas em projectos produtivos desenvolvidos em Moçambique, assim como o estabelecimento de parcerias com empresas nacionais, transferência de conhecimento e integração de fornecedores locais.
Mais de 500 empresas portuguesas operam actualmente em Moçambique. Esta presença constitui uma base importante para o aprofundamento das relações económicas, embora o seu impacto dependa do volume de investimento, do emprego criado e das ligações estabelecidas com o tecido empresarial nacional.
Moçambique Procura Parceiros De Longo Prazo
O Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, defende que a presença empresarial externa deve contribuir para a inovação, produção nacional e transformação estrutural da economia.
“Não procuramos apenas empresas que venham para Moçambique. Procuramos parceiros que inovem e que produzam com Moçambique numa perspectiva de longo prazo”, declarou.
A orientação estabelece uma diferença entre empresas que operam apenas como fornecedoras externas e investidores dispostos a criar capacidade produtiva, desenvolver competências e estabelecer relações com organizações moçambicanas.
O Presidente da Câmara de Comércio Portugal-Moçambique, Rui Moreira de Carvalho, considera igualmente que a relação bilateral deve assentar numa lógica de benefícios partilhados.
“Se um ganhar, os dois ganham. Se um perder, o outro também vai perder. E, portanto, esta perspectiva é trabalhar a longo prazo”, afirmou.
A sustentabilidade destas relações dependerá da capacidade de distribuir valor entre investidores, fornecedores, trabalhadores, Estado e comunidades, reduzindo a vulnerabilidade das parcerias às oscilações económicas de curto prazo.
Sustentabilidade Entra Na Agenda Dos Gestores
Mais de metade das empresas abrangidas pelo Barómetro já dispõe de uma estratégia de sustentabilidade implementada. Outra parcela significativa prevê avançar com a sua adopção.
Segundo João Veiga, a sustentabilidade está progressivamente a integrar as prioridades dos gestores, associada à responsabilidade corporativa, gestão de riscos, eficiência na utilização de recursos, relacionamento com investidores e clientes e preparação para futuras exigências do mercado.
Os níveis de maturidade, contudo, ainda variam. Algumas organizações possuem práticas consolidadas, enquanto outras enfrentam limitações relacionadas com os custos, tecnologia, regulação e capacidade de execução.
A transição energética e a descarbonização ainda aparecem abaixo dos problemas financeiros e operacionais mais imediatos. No entanto, deverão ganhar relevância à medida que bancos, investidores e grandes cadeias internacionais introduzam critérios ambientais mais exigentes na selecção de projectos e fornecedores.
Gás Melhora Perspectivas, Mas Não Elimina Constrangimentos
As perspectivas da economia moçambicana continuam influenciadas pela entrada em produção dos grandes projectos de gás natural. A retoma destes investimentos poderá ampliar as exportações, a disponibilidade de moeda externa e a procura por serviços empresariais.
O cenário de curto prazo permanece, entretanto, moderado. O Directório Moçambique 2026 cita uma projecção de crescimento real de 0,5% para 2026 atribuída ao Fundo Monetário Internacional e uma estimativa de 0,9% do Banco Mundial.
As pressões fiscais, a escassez de divisas, as vulnerabilidades associadas à dívida e as perturbações climáticas continuam a influenciar o investimento, a gestão financeira, o emprego e o planeamento empresarial.
A entrada em produção do gás poderá melhorar os indicadores macroeconómicos, mas não substituirá a necessidade de resolver os problemas que afectam diariamente as empresas. O investimento privado continuará dependente da previsibilidade regulatória, disponibilidade de financiamento, eficiência administrativa e estabilidade cambial.
Barómetro Identifica Uma Reserva De Confiança
Os resultados apresentados por João Veiga mostram um tecido empresarial prudente perante a conjuntura, mas ainda orientado para a continuidade e o crescimento.
A percepção negativa da economia coexiste com planos de manutenção do investimento, estabilidade do emprego e expectativa de aumento das receitas. Esta diferença constitui uma reserva de confiança que poderá ser convertida em maior investimento se forem melhoradas as condições operacionais.
O acesso a divisas, a estabilidade política, o financiamento, a burocracia e a previsibilidade fiscal surgem como áreas prioritárias. Uma resposta consistente a estes constrangimentos poderá produzir efeitos mais imediatos sobre a confiança empresarial do que a simples promoção das oportunidades futuras.
Para as relações económicas entre Moçambique e Portugal, o Barómetro oferece uma base objectiva para redefinir prioridades. A agenda bilateral precisa de passar do contacto institucional para projectos produtivos, financiamento, desenvolvimento de fornecedores e criação conjunta de mercados.
O principal sinal do estudo não reside apenas na prudência dos gestores. Encontra-se na disposição de uma parte expressiva das empresas para preservar operações, conservar trabalhadores e continuar a investir, apesar de um ambiente económico ainda exigente.
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