
Escassez De Combustível Mantém Sector Privado Em Contração E Derruba Confiança Empresarial Para Mínimos De Uma Década
- PMI do Standard Bank Moçambique permanece abaixo dos 50 pontos pelo segundo mês consecutivo, enquanto empresários enfrentam quebras nas vendas, perturbações logísticas e expectativas económicas cada vez mais pessimistas.
Questões-Chave:
- PMI do Standard Bank Moçambique situou-se em 49,9 pontos em Maio, permanecendo em território de contração;
- Escassez de combustível continua a afectar vendas, produção e cadeias de abastecimento;
- Novas encomendas e actividade empresarial registaram nova deterioração;
- Confiança empresarial caiu para o nível mais baixo desde Novembro de 2016;
- Standard Bank admite possibilidade de subida da taxa MIMO no segundo semestre devido ao risco de aceleração da inflação.
A economia do sector privado moçambicano continuou a enfrentar dificuldades em Maio, com a escassez de combustível a afectar simultaneamente a actividade empresarial, os níveis de procura e o funcionamento das cadeias de abastecimento.
É esta a principal conclusão do mais recente PMI do Standard Bank Moçambique, divulgado esta quarta-feira, que mostra uma economia empresarial ainda incapaz de regressar a uma trajectória consistente de expansão.
O índice situou-se em 49,9 pontos, ligeiramente acima dos 49,8 registados em Abril, mas permanecendo abaixo da marca dos 50 pontos que separa crescimento de contração. Trata-se do segundo mês consecutivo de deterioração das condições de negócio no sector privado nacional.
Embora a diferença seja marginal, o indicador confirma que a recuperação observada ao longo dos meses anteriores perdeu força, num contexto marcado pela escassez de combustíveis, limitações de liquidez cambial e aumento dos custos operacionais.
Combustível Torna-Se Principal Travão À Actividade Económica
O relatório identifica a escassez de combustível como o principal factor por detrás da desaceleração da actividade económica.
Segundo as empresas inquiridas, a indisponibilidade de combustíveis afectou directamente a capacidade operacional, limitou a circulação de mercadorias, aumentou custos e reduziu o poder de compra dos consumidores.
O impacto fez-se sentir nas carteiras de encomendas, que diminuíram pelo segundo mês consecutivo. As empresas relataram uma redução dos gastos por parte dos clientes, fenómeno associado tanto à menor disponibilidade como ao aumento dos custos dos combustíveis.
A consequência natural foi uma nova redução da produção, assinalando a primeira sequência de contrações consecutivas da actividade empresarial desde Janeiro de 2025.
Os sectores dos serviços, agricultura e comércio foram os mais afectados, enquanto algumas empresas da construção e da indústria transformadora conseguiram aumentar a actividade em resposta a projectos específicos e à melhoria das vendas em determinados segmentos.
Confiança Empresarial Afunda Para Níveis Históricos
Se os indicadores correntes revelam uma economia sob pressão, os indicadores prospectivos são ainda mais preocupantes.
O PMI mostra que a confiança empresarial registou uma queda acentuada, atingindo o nível mais baixo desde Novembro de 2016 e um dos mais baixos desde o início do inquérito em 2015.
Apenas 24% das empresas acreditam que a produção aumentará ao longo dos próximos doze meses, um valor muito inferior à média histórica de 51%. A maioria dos restantes inquiridos não prevê qualquer melhoria significativa da actividade.
Esta deterioração do sentimento empresarial reflecte a conjugação de vários factores adversos, incluindo dificuldades logísticas, aumento dos custos operacionais, incertezas associadas ao mercado cambial e receios quanto à evolução dos preços dos combustíveis.
Cadeias De Abastecimento Continuam Sob Pressão
O relatório evidencia igualmente o impacto da crise de combustíveis sobre a logística empresarial.
Os prazos de entrega dos fornecedores voltaram a aumentar pelo segundo mês consecutivo, com muitas empresas a identificarem a escassez de combustível como a principal causa dos atrasos.
Ao mesmo tempo, a actividade de aquisição sofreu uma contração mais pronunciada. Muitas empresas reduziram a compra de combustíveis devido à indisponibilidade do produto e cortaram outras aquisições em consequência da redução do poder de compra e da diminuição da procura.
Este ambiente está a gerar um círculo vicioso: menor disponibilidade de combustível conduz a menores vendas, o que reduz a necessidade de aquisição de matérias-primas e enfraquece ainda mais a actividade económica.
Emprego Continua A Crescer, Mas A Ritmo Mais Lento
Apesar das dificuldades, o emprego permaneceu em terreno positivo.
Maio assinalou o décimo segundo mês consecutivo de criação líquida de postos de trabalho, embora o ritmo de contratação tenha abrandado significativamente em relação aos meses anteriores.
Segundo o economista-chefe do Standard Bank Moçambique, Fáusio Mussá, esta evolução poderá estar associada à continuação da recuperação económica pós-eleitoral e ao progresso dos trabalhos ligados ao projecto Mozambique LNG, na Área 1 da Bacia do Rovuma.
Ainda assim, o abrandamento das contratações sugere maior prudência por parte das empresas, num contexto em que as perspectivas de crescimento permanecem frágeis.
Standard Bank Admite Subida Da Taxa MIMO
Um dos aspectos mais relevantes do relatório diz respeito às implicações para a política monetária.
Fáusio Mussá considera que a escalada dos preços dos combustíveis, associada ao conflito no Médio Oriente, poderá exercer novas pressões sobre a inflação nos próximos meses.
Segundo o economista, o Banco de Moçambique já adoptou uma postura mais restritiva ao aumentar o coeficiente de reservas obrigatórias em moeda nacional de 29% para 39%, apesar de ter mantido a taxa MIMO em 9,25%.
Neste contexto, o Standard Bank admite a possibilidade de aumentos da taxa directora durante o segundo semestre de 2026, perante o risco crescente de uma inflação de dois dígitos no curto prazo.
Economia Procura Novo Equilíbrio
O PMI de Maio revela uma economia que continua a operar sob pressão, procurando adaptar-se simultaneamente aos constrangimentos internos e aos choques externos.
A escassez de combustível, as dificuldades logísticas, as limitações de liquidez cambial e o aumento dos custos energéticos internacionais estão a condicionar a recuperação do sector privado, num momento em que as empresas demonstram níveis historicamente baixos de confiança.
O comportamento do mercado de combustíveis, a evolução da inflação e a resposta da política monetária serão factores decisivos para determinar se a economia conseguirá regressar ao crescimento sustentável nos próximos meses ou se continuará a enfrentar um ambiente de actividade empresarial enfraquecida.








