Sector Privado Estabiliza, Mas Pressões de Custos Ameaçam Recuperação Económica

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  • O PMI do Standard Bank regressou ao nível neutro em Junho, impulsionado por ligeiras melhorias na produção, nas novas encomendas e no emprego. Contudo, a escassez de combustível, a redução das compras e dos inventários, a subida dos preços e a revisão em baixa da previsão de crescimento revelam uma recuperação ainda frágil.

QUESTÕES-CHAVE

  • PMI do Standard Bank subiu de 49,9 em Maio para 50,0 em Junho, sinalizando estabilização da actividade privada;
  • Produção e novas encomendas voltaram a crescer, embora de forma ligeira, pela primeira vez desde Março;
  • Empresas criaram emprego pelo 13.º mês consecutivo, mas a um ritmo moderado;
  • Escassez de combustível e aumento dos custos dos materiais conduziram à maior subida dos preços de venda desde Setembro de 2022;
  • Standard Bank reviu a previsão de crescimento do PIB em 2026 para 0,7%, face aos anteriores 1,1%, e elevou a previsão de inflação para 8,9%.

A economia do sector privado moçambicano deu, em Junho, um sinal de estabilização, depois de dois meses consecutivos de contracção. Mas os dados mais recentes do PMI do Standard Bank mostram que este regresso ao equilíbrio ainda está longe de representar uma recuperação robusta. A ligeira melhoria da actividade empresarial foi acompanhada por pressões crescentes sobre os custos, redução de compras e inventários, dificuldades no abastecimento de combustível e uma perspectiva macroeconómica mais exigente para o segundo semestre.

O Índice de Gestores de Compras, compilado pela S&P Global para o Standard Bank, subiu de 49,9 pontos em Maio para 50,0 em Junho. Por definição, um valor acima de 50 indica melhoria das condições empresariais face ao mês anterior, enquanto um nível inferior aponta para deterioração. O resultado de Junho coloca, assim, a actividade privada numa situação de estabilidade, depois das ligeiras quedas registadas em Abril e Maio.

O dado deve ser lido com algum equilíbrio. A economia empresarial deixou de piorar, mas ainda não revela uma dinâmica suficientemente forte para sustentar a ideia de uma retoma consolidada. A produção e as novas encomendas aumentaram, porém a um ritmo modesto. Ao mesmo tempo, o comportamento das empresas na compra de matérias-primas e na gestão de inventários sugere prudência, constrangimentos financeiros e incerteza quanto à evolução da procura nos próximos meses.

Produção e Procura Dão Sinais de Vida

A produção empresarial aumentou em Junho, depois de dois meses consecutivos de queda. Segundo o inquérito, a recuperação esteve associada a melhores vendas, abertura de sucursais, ganhos de produtividade e alterações estratégicas em algumas empresas.

As novas encomendas também voltaram a crescer pela primeira vez desde Março. Entre os factores apontados pelas empresas estão a conquista de novos clientes, lançamento de produtos, expansão da capacidade e renovação de stocks. Ainda assim, algumas companhias continuaram a reportar dificuldades relacionadas com condições menos favoráveis nos mercados externos, limitações de disponibilidade de moeda estrangeira e escassez de combustível.

Esta recuperação da procura, embora positiva, permanece insuficiente para alterar por completo o quadro económico. O crescimento ligeiro das encomendas não se traduziu numa expansão mais firme das compras ou dos stocks, o que mostra que muitas empresas continuam a operar com cautela, procurando limitar a exposição financeira num contexto de custos crescentes e liquidez limitada.

O emprego constitui um dos poucos indicadores com uma trajectória mais consistente. As empresas aumentaram o número de trabalhadores pelo 13.º mês consecutivo, ainda que num ritmo moderado e abaixo da média histórica do inquérito. Este dado revela que, mesmo num ambiente de actividade fraca, algumas empresas continuam a antecipar necessidades de capacidade ou a preservar competências para responder a uma eventual melhoria da procura.

Combustível Transforma-se Num Factor de Pressão Generalizada

O principal elemento de fragilidade identificado pelo PMI está nos custos de produção. A escassez de combustível no mercado interno e o aumento dos preços dos materiais elevaram os encargos das empresas, pressionando tanto a produção como os preços finais praticados junto dos consumidores.

Os custos dos meios de produção registaram em Junho o aumento mais rápido desde Fevereiro. A inflação dos preços de aquisição acelerou para o nível mais elevado desde Janeiro, com maior pressão observada sobretudo na agricultura e no sector secundário. Por sua vez, os custos com pessoal voltaram a subir, reflectindo aumentos salariais, mudanças nas políticas governamentais e o aumento do custo de vida.

O efeito foi inevitavelmente transferido, pelo menos em parte, para os preços de venda. O inquérito indica que os preços de produção aumentaram ao ritmo mais elevado desde Setembro de 2022, com cerca de 10% das empresas a reportarem subidas desde Maio.

Esta evolução é relevante porque ameaça criar um ciclo de fragilidade: custos mais elevados reduzem margens empresariais, empresas ajustam preços, consumidores perdem poder de compra e a procura torna-se mais fraca. Num ambiente em que famílias e pequenas empresas já enfrentam limitações de rendimento e liquidez, a transmissão dos custos de combustível para bens, transporte, logística, produção e comércio pode condicionar a recuperação económica.

Empresas Cortam Compras e Consomem Inventários

O comportamento das compras revela uma dimensão menos optimista do relatório. Em Junho, as empresas reduziram as aquisições pelo quarto mês consecutivo, sendo que a percentagem de empresas que reportou queda foi aproximadamente o dobro daquelas que assinalaram aumento.

A redução esteve associada a constrangimentos de fluxo de caixa e à escassez de produtos essenciais, em particular combustível. Como consequência, os stocks de meios de produção diminuíram ao ritmo mais acentuado desde Dezembro de 2024.

Esta tendência pode ter duas leituras. A primeira é defensiva: as empresas reduzem compras porque pretendem preservar liquidez num período de incerteza e custos elevados. A segunda é operacional: a dificuldade de acesso a determinados produtos e os atrasos no abastecimento impedem uma reposição normal dos inventários.

Em ambos os casos, o efeito sobre a economia é semelhante. Menores compras hoje podem limitar a produção amanhã, sobretudo em actividades dependentes de matérias-primas importadas, energia, transporte e cadeias logísticas regulares.

Os prazos de entrega dos fornecedores melhoraram ligeiramente em Junho, pela primeira vez em três meses, mas a normalização foi limitada pelas perturbações associadas ao conflito no Médio Oriente e pelas restrições na oferta de alguns produtos. Isso confirma que o ambiente externo continua a chegar rapidamente à economia moçambicana, por via dos combustíveis, fretes, importações, disponibilidade de divisas e custos de transporte.

Optimismo Empresarial Sobe, Mas a Economia Continua Sob Pressão

Apesar das fragilidades de curto prazo, as expectativas empresariais melhoraram de forma expressiva. O índice de actividade futura atingiu, em Junho, o nível mais elevado em três anos, com os cinco sectores abrangidos pelo inquérito a registarem maior confiança em relação aos próximos 12 meses.

As empresas apontam para expectativas de expansão do mercado, crescimento de vendas e melhoria de serviços. Na leitura do economista-chefe do Standard Bank Moçambique, Fáusio Mussá, o aumento do optimismo poderá reflectir a expectativa de que os avanços em projectos de gás natural liquefeito criem maior procura agregada nos próximos meses.

Fáusio Mussá, economista-chefe do Standard Bank - Moçambique

Esta confiança é importante, mas não elimina as reservas do próprio banco quanto ao cenário macroeconómico. O Standard Bank reviu em baixa a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto para 2026, de 1,1% para 0,7%, reflectindo uma recuperação mais lenta, condicionada por pressões fiscais e por limitações de liquidez em moeda externa. Ao mesmo tempo, elevou a previsão de inflação homóloga no final do ano para 8,9%, acima dos 4,6% anteriormente estimados.

A combinação de crescimento mais baixo e inflação mais elevada torna a gestão económica particularmente delicada. Um aumento da inflação poderá exigir uma postura monetária mais restritiva, com potenciais subidas da taxa MIMO no segundo semestre. Porém, juros mais altos podem também aumentar o custo do crédito para empresas e famílias, num momento em que o investimento privado precisa precisamente de maior estímulo.

Projectos Podem Acelerar a Economia, Mas Não Substituem Reformas

O relatório do Standard Bank volta a colocar no centro do debate a natureza da economia moçambicana. Os grandes projectos, em particular no sector do gás natural, podem criar uma perspectiva relevante de expansão da procura, investimentos, contratação de serviços, desenvolvimento de fornecedores e aumento das receitas externas.

Mas a recuperação não pode depender exclusivamente da materialização desses investimentos. Como sublinha Fáusio Mussá, a estabilidade macroeconómica e um crescimento mais inclusivo dependerão do avanço das reformas e da correcta calibração das políticas fiscais, monetárias, cambiais e sectoriais.

A questão decisiva é a capacidade de criar ligações entre os grandes projectos e o tecido empresarial nacional. Sem essa ligação, o investimento pode aumentar indicadores agregados sem gerar efeitos suficientemente amplos sobre pequenas e médias empresas, emprego, produtividade, abastecimento interno e rendimento das famílias.

O PMI de Junho deixa, por isso, uma mensagem dupla. O sector privado moçambicano estabilizou e recuperou algum optimismo. Mas essa estabilização continua vulnerável a choques de custos, interrupções de abastecimento, limitações de liquidez e procura ainda insuficiente.

O segundo semestre será determinante para perceber se a melhoria das expectativas se transforma em produção, investimento e emprego mais consistentes, ou se as pressões inflacionistas e operacionais voltam a travar uma recuperação que, por agora, permanece incipiente.