
Exportações de alumínio disparam antes da suspensão da Mozal e expõem vulnerabilidade estrutural da economia moçambicana
Receitas externas atingem 702,7 milhões de dólares no primeiro semestre de 2025, mas paralisação da fundição prevista para 15 de Março levanta riscos para o PIB, emprego e balança comercia.
- Exportações de alumínio atingiram 702,7 milhões de dólares no primeiro semestre de 2025, um crescimento expressivo face aos 479,9 milhões registados no mesmo período de 2024;
- A actividade exportadora é totalmente dependente da produção da fundição Mozal, uma das maiores indústrias do país;
- A suspensão da actividade da empresa, prevista para 15 de Março, poderá ter impacto relevante na balança comercial e no crescimento económico;
- O FMI considera o impasse nas negociações sobre tarifas de energia um risco significativo para as perspectivas económicas de Moçambique;
- A Mozal representa cerca de 4% do PIB nacional e emprega directamente mais de mil trabalhadores.
Exportações crescem antes da paralisação da fundição
As exportações de alumínio de Moçambique registaram uma subida significativa no primeiro semestre de 2025, atingindo 702,7 milhões de dólares, num aumento expressivo face aos 479,9 milhões de dólares registados no mesmo período de 2024, segundo dados compilados a partir do mais recente relatório do Banco de Moçambique citados pela Agência Lusa.
O crescimento das receitas foi impulsionado simultaneamente pela subida dos preços internacionais do alumínio e pelo aumento do volume exportado, constituído essencialmente por barras de alumínio produzidas pela fundição Mozal.
Este desempenho confirma o peso da empresa na economia nacional, sendo responsável por uma parcela relevante das exportações industriais do país.
Contudo, os números positivos surgem num momento particularmente sensível para o sector, uma vez que a actividade da fundição deverá ser suspensa a partir de 15 de Março de 2026, caso não seja alcançado um entendimento sobre o novo contrato de fornecimento de energia eléctrica.
Impasse energético coloca indústria estratégica em risco
O principal ponto de divergência prende-se com as tarifas de electricidade a fornecer à fundição, cuja operação é altamente intensiva em energia.
A empresa australiana South32, principal accionista da Mozal, anunciou que a unidade industrial deverá entrar em regime de manutenção e conservação caso não seja possível garantir um fornecimento de energia eléctrica “suficiente e acessível”.
Segundo o director-executivo da empresa, Graham Kerr, as negociações com o Governo moçambicano, a Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) e a empresa sul-africana Eskom continuam em curso, mas o actual acordo de fornecimento expira em Março e ainda não foi alcançada uma solução definitiva.
A Mozal consome uma parcela significativa da energia produzida no país, adquirida sobretudo à HCB, o que torna o preço da electricidade um factor decisivo para a sustentabilidade económica da operação.
FMI alerta para riscos macroeconómicos
O Fundo Monetário Internacional identificou o diferendo em torno das tarifas de energia como um dos riscos relevantes para as perspectivas económicas de Moçambique.
Num relatório de avaliação aprovado em Fevereiro no âmbito das consultas regulares ao país, a instituição sublinha que os riscos para a economia moçambicana são actualmente “fortemente negativos”, apontando explicitamente a situação da Mozal como um factor de preocupação.
De acordo com o FMI, a fundição representa cerca de 4% do Produto Interno Bruto, além de desempenhar um papel relevante na geração de exportações e receitas externas.
Neste contexto, uma paralisação prolongada da actividade poderá afectar não apenas a produção industrial, mas também o desempenho da balança comercial e o ritmo de crescimento económico do país.
Sindicatos alertam para impacto social e económico
O potencial encerramento da actividade já está a gerar preocupação entre organizações laborais.
A Organização dos Trabalhadores de Moçambique (OTM-CS) advertiu que a suspensão da produção na Mozal poderá representar um verdadeiro “terramoto nacional”, dada a relevância da empresa na economia e no mercado de trabalho.
Segundo o secretário-geral da central sindical, Damião Simango, a fundição contribui significativamente para o Produto Interno Bruto, impulsiona as exportações nacionais e sustenta milhares de postos de trabalho directos e indirectos.
A empresa emprega directamente mais de mil trabalhadores e já iniciou um processo de consulta relativo a despedimento colectivo, no contexto da suspensão prevista da actividade.
Dependência da Mozal evidencia fragilidade estrutural
O caso da Mozal evidencia uma fragilidade estrutural da economia moçambicana: a forte dependência de um número reduzido de grandes projectos industriais e extractivos.
Durante mais de duas décadas, a fundição tem desempenhado um papel central no sector exportador, contribuindo de forma significativa para o desempenho da balança comercial e para a captação de receitas externas.
A eventual paralisação da unidade industrial poderá, por isso, traduzir-se numa redução substancial das exportações industriais e numa maior volatilidade das contas externas do país.
Ao mesmo tempo, o episódio reacende o debate sobre a necessidade de diversificação da base produtiva nacional, bem como sobre o equilíbrio entre competitividade energética para atrair investimento industrial e a valorização económica dos recursos energéticos do país.
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