
Governo Aprova Novos Salários Mínimos Com Subidas Até 9,8% E Mantém Função Pública Inalterada
Executivo invoca “equilíbrio possível” entre expectativas dos trabalhadores e capacidade das empresas, num contexto económico condicionado por choques internos e externos
- Salários mínimos sobem entre 3% e 9,8% em sete sectores de actividade;
- Função pública e subsector da pesca de kapenta ficam fora dos reajustes;
- Governo aponta limitações da economia e da produtividade como factores determinantes;
- Sindicatos reconhecem avanços, mas admitem insuficiência face ao custo de vida;
- Contexto internacional e fragilidades internas condicionam margem de decisão.
Governo invoca equilíbrio entre rendimento e sustentabilidade empresarial
O Governo moçambicano aprovou novos salários mínimos para sete sectores de actividade, com aumentos que variam entre 3% e 9,8%, num exercício que o Executivo classifica como um “equilíbrio possível” entre as legítimas expectativas dos trabalhadores e a capacidade efectiva das empresas para suportar encargos salariais.
A decisão foi anunciada após a 11.ª sessão ordinária do Conselho de Ministros, tendo o porta-voz do órgão, Inocêncio Impissa, sublinhado que os reajustes reflectem a realidade económica actual, marcada por constrangimentos estruturais e por um ambiente externo adverso.
“Os reajustes aprovados representam o equilíbrio possível neste momento, alinhado com a capacidade produtiva nacional e com a realidade económica dos sectores”, afirmou o governante, acrescentando que o processo procurou não descurar as expectativas sociais, mas também não comprometer a sustentabilidade das entidades empregadoras.
Função pública e pesca artesanal fora do consenso
Apesar do acordo alcançado na maioria dos sectores, a revisão salarial não abrangeu a função pública nem o subsector da pesca de kapenta, onde não foi possível atingir consenso no seio da Comissão Consultiva do Trabalho.
No caso da função pública, o salário mínimo mantém-se inalterado desde a introdução da Tabela Salarial Única (TSU), fixado em 8.758 meticais, reflectindo as limitações orçamentais e a necessidade de maior robustez económica para suportar eventuais aumentos.
Já no subsector da pesca de pequena escala, factores como a redução da produção, a poluição das águas e constrangimentos operacionais contribuíram para a manutenção dos níveis salariais, num contexto de fragilidade da actividade.
Aumentos diferenciados reflectem realidades sectoriais
Nos sectores abrangidos, os aumentos evidenciam uma abordagem diferenciada, alinhada com os níveis de produtividade e a capacidade financeira de cada actividade.
Na agricultura, o salário mínimo passa de 6.688 para 7.072 meticais, enquanto na indústria extractiva — um dos sectores com maior capacidade de geração de valor — os salários sobem para 16.239 meticais nas grandes empresas. Já no sector financeiro, os bancos e seguradoras registam um dos níveis salariais mais elevados, com o mínimo a fixar-se acima dos 20 mil meticais.
Por outro lado, sectores como a construção civil apresentam aumentos mais modestos, situando-se nos 3%, reflectindo margens mais estreitas e maior sensibilidade aos custos.
Sindicatos reconhecem avanços, mas alertam para perda de poder de compra
Do lado dos trabalhadores, a avaliação é mista. Embora reconheçam o esforço negocial e os avanços alcançados, os sindicatos admitem que os novos níveis salariais permanecem aquém das necessidades reais, sobretudo face ao aumento do custo de vida.
O representante da Confederação Nacional dos Sindicatos Independentes e Livres de Moçambique (Consilmo), Boaventura Sibinde, afirmou que os resultados “não respondem à necessidade de poder de compra dos trabalhadores”, sublinhando que muitos empregadores enfrentam dificuldades em cumprir mesmo os níveis mínimos estabelecidos.
Contexto económico limita margem de decisão
O Executivo enquadra a decisão num contexto económico complexo, marcado por múltiplos factores internos e externos. Entre os elementos considerados estão os níveis de produtividade, a capacidade das empresas, a necessidade de proteger o emprego formal e os impactos de choques externos, como conflitos internacionais e eventos climáticos extremos.
A referência explícita ao contexto global, incluindo tensões no Médio Oriente, evidencia a crescente interdependência entre a economia moçambicana e as dinâmicas internacionais, particularmente no que diz respeito aos preços da energia e dos alimentos.
Política salarial dependente de produtividade e crescimento
O Governo reconhece que a melhoria dos rendimentos não pode ser dissociada da evolução da economia real. Segundo Inocêncio Impissa, os aumentos salariais devem ser progressivos e sustentados por ganhos efectivos de produtividade, investimento e crescimento económico.
Esta posição reforça a ideia de que a política salarial continua condicionada por fundamentos macroeconómicos, num país onde o desafio central reside em conciliar inclusão social com sustentabilidade económica.
Num contexto de pressões inflacionistas e limitações fiscais, os novos salários mínimos representam, assim, não apenas uma decisão administrativa, mas um reflexo das tensões estruturais que marcam o actual momento da economia moçambicana.
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