Industrialização Verde Pode Mobilizar USD 3 Mil Milhões e Reposicionar Moçambique na Nova Economia Global

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  • Workshop sobre “Green Manufacturing in Mozambique” defende modelo de transformação económica baseado em energia limpa, minerais críticos, manufactura sustentável e mecanismos rigorosos de execução, monitoria e mobilização de investimento privado.
Questões-Chave:
  • Pacto de Crescimento Moçambique–Reino Unido prevê mobilização de até 3 mil milhões de dólares em investimento;
  • Estratégia aposta em industrialização verde, valor acrescentado e integração de Moçambique nas cadeias globais emergentes;
  • Modelo de implementação introduz mecanismos de “delivery”, dashboards trimestrais e monitoria permanente de investimentos prioritários;
  • Energia, manufactura, agro-indústria sustentável e minerais críticos surgem como pilares da nova agenda industrial moçambicana;
  • Workshop reconhece que potencial económico, por si só, não gera riqueza sem execução consistente, reformas e capacidade institucional.

Moçambique está a procurar posicionar-se como plataforma regional de industrialização verde e manufactura sustentável, num momento em que a reorganização da economia mundial e a transição energética global estão a alterar profundamente as cadeias internacionais de investimento, produção e comércio.

A visão foi consolidada esta quinta-feira, em Maputo, durante o Workshop Final subordinado ao tema “Green Manufacturing in Mozambique – Reposicionando a Economia Moçambicana na Nova Era Industrial”, realizado no âmbito do Pacto de Crescimento Económico Inclusivo entre Moçambique e o Reino Unido.

O encontro serviu não apenas para apresentar oportunidades ligadas à industrialização verde, mas também para estruturar o modelo operacional do chamado “Growth Compact”, mecanismo concebido para mobilizar até 3 mil milhões de dólares de investimento directo estrangeiro britânico em sectores considerados estratégicos para a transformação económica do País.

Mais do que um simples acordo de cooperação, os documentos apresentados no workshop revelam a intenção de construir uma plataforma integrada de execução económica, centrada em resultados concretos, desbloqueio de investimentos e coordenação institucional contínua.

Industrialização Verde Assume-se Como Resposta Estratégica à Nova Economia Mundial

Ao longo da sessão, foi defendido que a actual reorganização da economia global está a criar uma rara janela de oportunidade para países capazes de combinar recursos energéticos, minerais estratégicos, estabilidade institucional e capacidade industrial.

Na sua intervenção, o Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Cripton Valá, afirmou que “o mundo está a reposicionar-se” e que economias avançadas e emergentes “competem pela atracção de indústrias verdes”.

Segundo o governante, Moçambique possui “condições excepcionais” para participar nesta transformação económica global, sobretudo devido à combinação entre potencial energético, recursos minerais críticos e posição geográfica estratégica.

Valá defendeu que a industrialização verde deve ser entendida não apenas como agenda ambiental, mas como estratégia económica voltada para eficiência, competitividade, redução da dependência externa e integração nas novas cadeias globais de valor.

Salim Cripton Valá

“O nosso propósito é transformar Moçambique numa economia moderna, competitiva e resiliente, capaz de agregar valor internamente aos recursos, integrar cadeias globais de alto valor acrescentado e criar oportunidades económicas para a juventude moçambicana”, declarou.

Recursos Naturais e Energia Surgem Como Base da Nova Estratégia Industrial

Os documentos e intervenções apresentados no workshop identificam energia limpa, minerais críticos, mobilidade eléctrica, agro-indústria sustentável, reciclagem industrial, fertilizantes verdes, hidrogénio verde e manufactura intensiva em energia como sectores prioritários para a nova estratégia industrial.

O workshop destacou particularmente o potencial hidroeléctrico, os recursos de gás natural, a disponibilidade de energia solar e eólica e as reservas de grafite, mineral considerado estratégico para baterias e tecnologias associadas à mobilidade eléctrica.

“O objectivo consiste em agregar valor localmente, integrar cadeias de valor de baterias e posicionar o país como fornecedor estratégico em cadeias globais de mobilidade eléctrica e energia limpa”, sustentou o ministro.

A posição geográfica de Moçambique foi igualmente apontada como vantagem competitiva relevante, sobretudo pela proximidade aos mercados da África Austral e pela existência de corredores logísticos e infra-estruturas portuárias com capacidade de integração regional.

Workshop Reconhece Que Potencial Sem Execução Não Gera Desenvolvimento

Apesar do optimismo relativamente às oportunidades existentes, uma das mensagens mais fortes da sessão foi precisamente o reconhecimento de que potencial económico, por si só, não garante transformação estrutural.

“Mas sabemos, por experiência própria, que ter potencial, apenas ter oportunidades e vantagens competitivas e comparativas… sem as explorar efectivamente, não gera riqueza, empregos e mais renda para as famílias”, afirmou Salim Valá.

A formulação procurou introduzir um tom mais pragmático e realista no debate, sublinhando que a transformação económica dependerá fundamentalmente da capacidade de execução, coordenação institucional e implementação efectiva das reformas.

Segundo o ministro, a materialização da visão industrial exige “executar com disciplina, consistência e sentido de urgência”.

Valá reconheceu igualmente que o País continua confrontado com desafios estruturais relevantes, incluindo necessidade de previsibilidade regulatória, simplificação administrativa, melhoria das infra-estruturas energéticas e logísticas e fortalecimento das instituições públicas orientadas para resultados.

Modelo de Governação Procura Combater Fragmentação Institucional

Um dos elementos mais relevantes dos documentos discutidos no workshop reside precisamente na arquitectura de governação concebida para operacionalizar o pacto.

Segundo o modelo apresentado, o mecanismo não será tratado como um programa tradicional de ajuda externa ou fundo de financiamento, mas como uma “plataforma conjunta de entrega orientada para resultados”.

A lógica de funcionamento parte da identificação de oportunidades reais de investimento e dos principais constrangimentos que atrasam ou inviabilizam projectos estratégicos, mobilizando instrumentos políticos, diplomáticos, técnicos e institucionais para acelerar a sua implementação.

O mecanismo prevê fóruns anuais de alto nível, reuniões trimestrais de monitoria, grupos conjuntos de trabalho e dashboards executivos destinados a acompanhar capital mobilizado, pipeline de investimentos e bloqueios regulatórios.

Entre os constrangimentos identificados nos documentos figuram dificuldades de repatriação cambial, atrasos no reembolso do IVA, questões tarifárias no sector energético e desafios regulatórios que continuam a afectar previsibilidade para investidores privados.

Independência Económica Surge Como Eixo Central da Narrativa

Ao longo do workshop, a industrialização verde foi constantemente enquadrada como instrumento de independência económica e não apenas como agenda sectorial.

Segundo Salim Valá, Moçambique enfrenta actualmente uma escolha histórica entre permanecer “espectador” ou tornar-se “protagonista” da nova revolução industrial verde global.

“A visão está definida. O compromisso está assumido. Os instrumentos estão aprovados. As oportunidades estão identificadas. O trabalho agora consiste em executar com determinação, rigor e sentido de propósito nacional”, afirmou.

O ministro concluiu defendendo que a industrialização deve deixar de significar apenas extracção e exportação de matérias-primas, passando a representar produção de valor acrescentado, inovação, conhecimento e competitividade económica sustentável.

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