
LAM Volta Aos Lucros, Mas Queda de 16,3% Nas Receitas Expõe Fragilidade da Recuperação
- A transportadora aérea nacional encerrou 2025 com um resultado líquido positivo de 5,263 mil milhões de meticais, invertendo o prejuízo de 3,920 mil milhões registado no exercício anterior. Contudo, a facturação caiu para 7,827 mil milhões de meticais, mostrando que o saneamento financeiro avançou mais depressa do que a recuperação da operação aérea.
- A LAM registou lucros de 5,263 mil milhões de meticais em 2025, contra prejuízos de 3,920 mil milhões em 2024;
- A melhoria anual do resultado líquido ascendeu a 9,183 mil milhões de meticais;
- As receitas de vendas e prestação de serviços recuaram 16,3%, para 7,827 mil milhões de meticais;
- A receita dos passageiros regionais e internacionais e respectivas sobretaxas caiu 69,4%;
- O saneamento de dívidas superiores a 5,9 mil milhões de meticais foi determinante para a inversão financeira;
- A sustentabilidade dependerá da entrada efectiva das novas aeronaves, recuperação de rotas, pontualidade e geração de resultados operacionais recorrentes.
As Linhas Aéreas de Moçambique, LAM, regressaram aos lucros em 2025, depois de vários exercícios marcados por prejuízos, problemas de tesouraria, endividamento, insuficiência de aeronaves e redução da capacidade operacional.
A companhia encerrou o exercício com um resultado líquido positivo de 5,263 mil milhões de meticais, depois de ter registado um prejuízo de 3,920 mil milhões de meticais em 2024. A variação entre os dois exercícios representa uma melhoria de 9,183 mil milhões de meticais.
Os resultados foram aprovados pelos accionistas durante a Assembleia-Geral Ordinária realizada a 29 de Junho de 2026 e surgem num contexto de saneamento de dívidas superiores a 5,9 mil milhões de meticais, recapitalização e reorganização da estrutura accionista da transportadora.
A inversão é financeiramente expressiva. Mas os próprios números mostram que o lucro não foi acompanhado por uma expansão da actividade comercial.
As receitas provenientes das vendas e prestação de serviços diminuíram de 9,350 mil milhões de meticais, em 2024, para 7,827 mil milhões em 2025. A companhia perdeu, assim, cerca de 1,523 mil milhões de meticais de facturação, correspondentes a uma contracção de 16,3%.
Esta divergência entre resultado líquido e receitas constitui o elemento central para avaliar a qualidade da recuperação da LAM.
Um Lucro Sustentado Pelo Saneamento Financeiro
O resultado líquido de uma empresa não depende apenas do volume de vendas. Pode igualmente ser influenciado por perdões, renegociações ou reconhecimento contabilístico de dívidas, alienação de activos, ganhos cambiais, ajustamentos extraordinários e redução de encargos financeiros.
No caso da LAM, o regresso aos lucros ocorreu num exercício marcado pelo saneamento de passivos superiores a 5,9 mil milhões de meticais. A informação disponível permite concluir que a reestruturação financeira teve um peso significativo na melhoria das contas, embora não apresente, de forma suficientemente detalhada, a contribuição de cada operação para o resultado final.
A Lusa, citada pelo Jornal Económico, também associa a recuperação dos resultados ao saneamento de dívida, ao mesmo tempo que confirma a redução das receitas comerciais para 7,827 mil milhões de meticais.
Isto não reduz a importância do lucro. Retirar dívida do balanço, renegociar obrigações e estabilizar a tesouraria são condições necessárias para impedir que uma companhia tecnicamente insolvente continue a acumular perdas.
Mas uma recuperação baseada em medidas extraordinárias não pode ser repetida indefinidamente.
A sustentabilidade começará quando as operações regulares — venda de bilhetes, transporte de carga, correio e outros serviços — produzirem receitas suficientes para pagar combustível, pessoal, manutenção, seguros, taxas aeroportuárias, alugueres ou financiamento de aeronaves e restantes custos da empresa.
Receitas Internacionais Sofrem Queda de 69%
A maior deterioração ocorreu no segmento regional e internacional.
As receitas provenientes de passageiros regionais e internacionais, incluindo sobretaxas, diminuíram de 1,263 mil milhões de meticais em 2024 para 386 milhões de meticais em 2025.
A redução foi de 877 milhões de meticais, ou aproximadamente 69,4%.
O desempenho reflecte a redução das operações regionais e o cancelamento dos voos intercontinentais para Lisboa.
A perda destas rotas afecta a companhia por diferentes vias. Reduz a facturação em moeda estrangeira, limita a alimentação da rede doméstica por passageiros internacionais e enfraquece a presença da marca em mercados com maior capacidade de geração de receita.
Os voos internacionais podem apresentar custos e riscos operacionais superiores, mas também permitem vender bilhetes de maior valor, transportar carga e estabelecer acordos comerciais com outras companhias.
A recuperação não deverá, contudo, significar a reabertura indiscriminada de destinos. Cada rota terá de demonstrar procura suficiente, conectividade, utilização adequada das aeronaves e capacidade de contribuir positivamente para a rede.
Nova Estrutura Accionista Coloca Empresas Públicas No Centro
O Governo autorizou, em Fevereiro de 2025, a alienação de 91% das acções que o Estado detinha directamente na LAM, por negociação particular, envolvendo a Hidroeléctrica de Cahora Bassa, HCB, os Caminhos de Ferro de Moçambique, CFM, e a Empresa Moçambicana de Seguros, EMOSE.
A operação foi avaliada em 130 milhões de dólares e concebida para recapitalizar a companhia, reestruturar as operações e financiar a aquisição de aeronaves.
A nova configuração atribui 25,2% do capital social à HCB e 15,4% a cada uma das outras duas empresas. No conjunto, HCB, CFM e EMOSE controlam 56% do capital da transportadora.
Em Setembro de 2025, o Conselho de Ministros autorizou ainda a criação de uma sociedade detida pelas três accionistas para financiar a aquisição das participações e aprovou mecanismos específicos para gerir e liquidar a dívida da LAM garantida pelo Estado.
A operação preservou o controlo público da companhia, mas transferiu uma parte importante do esforço financeiro para empresas estatais que actuam em sectores diferentes da aviação.
Esta estrutura cria responsabilidades adicionais. As accionistas precisam de proteger os seus próprios balanços e, simultaneamente, assegurar que os recursos canalizados para a LAM sejam acompanhados por governação, metas e prestação de contas.
A recapitalização não deverá transformar-se numa transferência permanente de recursos entre empresas públicas sem evidência de viabilidade económica.
Cinco Aeronaves Pagas, Mas Integração Continua Decisiva
A renovação da frota representa uma das componentes mais visíveis da estratégia de recuperação.
As demonstrações financeiras indicam que a LAM investiu 2,2 mil milhões de meticais na aquisição de cinco aeronaves em 2025: duas Embraer ERJ-190 e três Dash 8 Q400. No final do exercício, os aparelhos encontravam-se integralmente pagos, embora os processos de registo, preparação e integração na frota ainda estivessem em curso.
Duas aeronaves Embraer, com capacidade próxima de 100 passageiros cada, foram apresentadas em Dezembro de 2025, num investimento anunciado de cerca de 25 milhões de dólares. Na ocasião, o Governo reconheceu que a chegada dos aparelhos representava apenas um passo dentro de uma reforma mais complexa.
A aquisição de aviões próprios pode reduzir a dependência de alugueres, melhorar o controlo da programação e evitar cancelamentos associados à indisponibilidade de aeronaves contratadas.
Todavia, possuir aviões não equivale automaticamente a possuir capacidade operacional.
A companhia precisa de pilotos habilitados, tripulações, manutenção, peças, seguros, certificações, sistemas de reservas e disponibilidade financeira para sustentar cada hora de voo.
A frota também deve estar ajustada à procura. Aeronaves subutilizadas continuam a gerar custos de capital, seguros, estacionamento e manutenção, mesmo quando permanecem em terra.
Recuperação Operacional Será Medida Na Regularidade Dos Voos
Para os passageiros, a recuperação da LAM não é observada inicialmente nas demonstrações financeiras. É medida pela pontualidade, previsibilidade dos horários, redução de cancelamentos, qualidade do atendimento e rapidez na resolução de reclamações.
Uma companhia pode apresentar lucro contabilístico e, simultaneamente, continuar a perder confiança comercial.
Na aviação, a confiança influencia directamente a receita. Passageiros empresariais, instituições e agências de viagens tendem a escolher operadores que ofereçam menor risco de atrasos e perturbações, mesmo quando a tarifa é superior.
A reestruturação precisa, portanto, de reconstruir a procura.
Isto envolve melhorar a utilização das aeronaves, programar horários comercialmente atractivos, coordenar ligações domésticas e regionais e comunicar alterações de forma atempada.
Também será necessário recuperar clientes que passaram a utilizar transportadoras concorrentes ou alternativas rodoviárias.
Plano de Negócio Precisa de Transformar Metas Em Indicadores
A estratégia anunciada prevê um novo Plano de Negócio para 2025–2030, incluindo racionalização de custos, optimização de rotas, reorganização dos recursos humanos, encerramento de lojas, terceirização de determinados serviços e introdução de um sistema integrado de contabilidade.
O plano deverá ser acompanhado por indicadores públicos suficientemente claros para permitir a avaliação da recuperação.
Entre os elementos relevantes encontram-se a receita por passageiro, taxa de ocupação, custo por assento disponível, pontualidade, cancelamentos, utilização diária das aeronaves, peso das despesas com pessoal, dívida e geração de caixa operacional.
Sem indicadores, a recuperação corre o risco de ser avaliada apenas através de anúncios sobre novas aeronaves, rotas ou resultados líquidos afectados por operações extraordinárias.
A disciplina também exige separar decisões comerciais de obrigações de serviço público.
Algumas ligações domésticas podem possuir importância territorial e social, mas procura insuficiente para serem rentáveis em condições comerciais. Nestes casos, o Estado deve definir claramente se pretende subsidiá-las, em que montante e mediante quais metas de serviço.
Ocultar obrigações públicas dentro das contas da companhia dificulta a avaliação da gestão e pode gerar défices permanentes.
Plano Director Reconhece Papel Central, Mas Também Fragilidade
O Plano Director da Aviação Civil 2026–2045 coloca a reestruturação da LAM entre os principais eixos do desenvolvimento aeronáutico nacional.
O diagnóstico identifica a companhia como um operador central no sistema moçambicano, mas vulnerável devido à frota envelhecida, rentabilidade insuficiente, forte dependência do mercado doméstico e crescente concorrência regional e internacional. Mais de 80% da actividade permanece concentrada nas rotas internas, limitando a geração de receitas em moeda estrangeira.
Esta concentração cria uma tensão estrutural.
A LAM desempenha uma função estratégica na integração territorial de um país extenso, mas opera num mercado doméstico com rendimento médio reduzido, procura limitada e elevados custos de combustível, manutenção e infra-estruturas.
A expansão internacional pode diversificar receitas, mas exige escala, reputação, acordos comerciais e capacidade financeira.
O modelo de recuperação precisa de equilibrar as duas dimensões: garantir conectividade nacional sem comprometer permanentemente a viabilidade empresarial.
Lucro É Um Marco, Não O Ponto de Chegada
O resultado de 2025 representa uma inversão importante para uma companhia que acumulou dificuldades durante vários anos.
O saneamento das dívidas, a entrada dos novos accionistas, a aquisição de aeronaves e a adopção de um plano de reestruturação criaram uma base diferente da existente no início do processo.
Mas a queda das receitas mostra que a actividade aérea ainda não recuperou a escala necessária.
O indicador mais importante dos próximos exercícios não será apenas a manutenção do lucro líquido. Será a capacidade de gerar caixa através da operação, aumentar a receita comercial, recuperar passageiros e utilizar produtivamente a frota.
A LAM regressou aos resultados positivos antes de recuperar plenamente os voos e a facturação. O próximo desafio é inverter essa sequência: fazer com que o desempenho operacional passe a sustentar o desempenho financeiro, reduzindo a necessidade de novos saneamentos, injecções de capital ou apoio extraordinário das empresas públicas.
A diferença entre uma recuperação contabilística e uma recuperação sustentável será determinada nos aeroportos, nas rotas e na confiança dos passageiros.
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