
Lucros Da BVM Caem 86% E Dependência Da Dívida Pública Reabre Debate Sobre Diversificação Do Mercado
- Bolsa de Valores de Moçambique encerrou 2025 com resultado líquido de 35,3 milhões de meticais, contra 252 milhões no ano anterior. A quebra das comissões e dos rendimentos financeiros deteriorou o desempenho operacional, num mercado em que o Estado continua simultaneamente a ser a principal contraparte da instituição e o maior emissor de títulos.
Questões-Chave
- O resultado líquido da Bolsa de Valores de Moçambique caiu 86% em 2025, de 252 milhões para 35,3 milhões de meticais, enquanto as receitas totais recuaram 25,7%, para 692 milhões de meticais;
- As receitas provenientes da venda de serviços diminuíram 13,9%, para 544,1 milhões de meticais, com as comissões de emissão de acções e obrigações a recuarem 19,5%, para 375,7 milhões;
- Os rendimentos financeiros caíram 55,2%, para 134,2 milhões de meticais, contribuindo decisivamente para a redução dos lucros;
- O resultado operacional passou de um lucro de 89,2 milhões de meticais em 2024 para um prejuízo operacional de 57,9 milhões em 2025, enquanto os custos com pessoal aumentaram 26,6%;
- O Estado concentrava 77% da exposição total da BVM ao risco de crédito, equivalente a 1,452 mil milhões de meticais, incluindo Bilhetes do Tesouro e créditos sobre a Direcção Nacional de Gestão da Dívida Pública;
- A predominância do soberano estende-se ao próprio mercado: dados do Banco de Moçambique mostram que as Obrigações do Tesouro representavam 85,71% da capitalização bolsista em Dezembro de 2025;
- No segundo trimestre de 2026, as Obrigações do Tesouro continuavam a representar 86,84% da capitalização da BVM, enquanto as acções correspondiam a apenas 9,93% e as obrigações corporativas a 3,10%;
Queda Dos Lucros Revela Mais Do Que Um Mau Ano Financeiro
A Bolsa de Valores de Moçambique encerrou 2025 com uma quebra de 86% nos lucros, passando de um resultado líquido de 252 milhões de meticais em 2024 para apenas 35,3 milhões de meticais.
Isoladamente, o número descreve uma forte deterioração financeira.
Mas uma leitura mais profunda das contas mostra que o desempenho de 2025 levanta uma questão mais relevante para o futuro do mercado de capitais moçambicano: até que ponto a sustentabilidade económica da própria Bolsa está dependente da actividade financeira do Estado e da emissão de dívida pública?
As receitas totais da instituição caíram 25,7%, para 692 milhões de meticais, enquanto os custos diminuíram apenas 3,4%, para aproximadamente 657 milhões.
A combinação entre receitas em forte redução e custos relativamente rígidos comprimiu significativamente a margem da instituição.
Mais expressivo ainda, o resultado operacional passou de um saldo positivo de 89,2 milhões de meticais em 2024 para um resultado negativo de 57,9 milhões em 2025.
Isto significa que o lucro líquido registado no final do exercício não resultou da actividade operacional principal da instituição.
Foram sobretudo os rendimentos financeiros que permitiram manter o resultado final em terreno positivo.
Comissões Perdem Força E Atingem O Núcleo Das Receitas
A venda de serviços continua a constituir a principal fonte de receitas da BVM.
Em 2025, esta rubrica gerou 544,1 milhões de meticais, contra 632,1 milhões no ano anterior, uma redução de aproximadamente 13,9%.
Dentro desta categoria, as comissões associadas à emissão de acções e obrigações continuam a ser particularmente relevantes.
Estas receitas diminuíram de 466,9 milhões de meticais em 2024 para 375,7 milhões em 2025, equivalente a uma redução de 19,5%.
A evolução é importante porque esta rubrica constitui uma espécie de termómetro da actividade de intermediação e estruturação de instrumentos no mercado.
Menos emissões, menor volume de operações ou menor procura pelos serviços relacionados com colocação e gestão de títulos traduzem-se directamente em menor capacidade de geração de receitas para a Bolsa.
O problema torna-se mais relevante quando se observa a composição do próprio mercado.
Segundo o Banco de Moçambique, as Obrigações do Tesouro representavam 85,71% da capitalização bolsista em Dezembro de 2025, contra 87,22% no final de 2024.
Ou seja, mesmo com uma ligeira redução da sua participação relativa, o mercado continuava esmagadoramente dominado por títulos do Estado.
Rendimentos Financeiros Caíram Para Menos De Metade
A segunda grande explicação para a redução dos lucros encontra-se nos rendimentos financeiros.
A BVM obteve 134,2 milhões de meticais provenientes essencialmente de juros de aplicações financeiras, depósitos a prazo e outros instrumentos, contra aproximadamente 300 milhões de meticais em 2024.
A queda foi de 55,2%.
O número é particularmente relevante porque mostra até que ponto o resultado líquido anterior beneficiava de receitas que não resultavam directamente do negócio operacional da Bolsa.
Em 2025, mesmo os 134,2 milhões de meticais de rendimentos financeiros foram suficientes para compensar o prejuízo operacional e permitir que a instituição terminasse o exercício com lucro.
Mas a dependência desta componente coloca uma questão de qualidade dos resultados.
Para uma infraestrutura de mercado, a capacidade de gerar receitas recorrentes através de negociação, custódia, liquidação, novas admissões à cotação, serviços a emitentes e desenvolvimento de novos instrumentos é estruturalmente mais importante do que depender de juros provenientes de aplicações financeiras.
A forte queda desta rubrica em 2025 tornou mais visível essa diferença.
Custos Com Pessoal Aumentam Num Ano De Receitas Em Queda
Do lado dos custos, o comportamento foi igualmente assimétrico.
Os gastos com pessoal aumentaram 26,6%, para 425,9 milhões de meticais, enquanto o número médio de trabalhadores passou de 63 para 71.
Os fornecimentos e serviços de terceiros cresceram 8,9%, para 137,3 milhões de meticais.
A administração associa parte desta evolução ao processo de transformação institucional da BVM de empresa pública para sociedade anónima.
O processo implicou igualmente uma reorganização patrimonial e um aumento significativo do capital social, que passou de apenas 1,5 milhões para 646,5 milhões de meticais.
Estes custos podem, portanto, conter uma componente extraordinária relacionada com a transição institucional.
Ainda assim, a conjugação entre despesas operacionais crescentes e receitas decrescentes mostra que a nova estrutura societária terá de ser acompanhada por uma ampliação efectiva da capacidade comercial e da profundidade do mercado.
Caso contrário, a instituição poderá enfrentar maior rigidez de custos sem expansão proporcional da base de receitas.
Estado É Ao Mesmo Tempo Cliente, Emitente E Principal Risco De Crédito
É neste ponto que os dados sobre exposição ao Estado ganham particular significado.
No final de 2025, o Estado moçambicano representava 77% da exposição total da BVM ao risco de crédito, correspondente a aproximadamente 1,452 mil milhões de meticais.
Este montante incluía 853,2 milhões de meticais em Bilhetes do Tesouro e 599,1 milhões de meticais de créditos sobre a Direcção Nacional de Gestão da Dívida Pública.
A segunda componente mais do que duplicou relativamente aos 292,5 milhões de meticais registados em 2024.
Os créditos sobre clientes, no conjunto, aumentaram cerca de 117%, de 284,7 milhões para 618,8 milhões de meticais.
Mais revelador ainda: a Direcção Nacional de Gestão da Dívida Pública representava 94,7% da carteira bruta de clientes da BVM no final de Dezembro de 2025.
Importa distinguir duas dimensões.
Uma coisa é a exposição financeira da própria BVM ao Estado.
Outra é a composição dos títulos negociados e capitalizados no mercado.
Mas ambas convergem para a mesma conclusão: o soberano ocupa uma posição dominante no ecossistema bolsista moçambicano.
Dívida Pública Continua A Definir A Dimensão Do Mercado
A própria estrutura da capitalização confirma esta concentração.
Dados do Banco de Moçambique indicam que o mercado de valores mobiliários terminou 2025 com capitalização de aproximadamente US$3,5 mil milhões, acima dos US$3,3 mil milhões registados no final de 2024.
Contudo, o crescimento não significou necessariamente uma diversificação proporcional do financiamento empresarial.
A maior parte da capitalização continuou associada às Obrigações do Tesouro.
E a tendência permanece visível em 2026.
Segundo dados oficiais da própria BVM, no segundo trimestre deste ano a capitalização bolsista atingiu cerca de 234,95 mil milhões de meticais, equivalente a aproximadamente 21,29% do PIB.
Desse montante, 86,84% correspondia a Obrigações do Tesouro.
As acções representavam apenas 9,93%, as obrigações corporativas 3,10% e o papel comercial 0,13%.
A BVM contabilizava igualmente apenas 11 empresas cotadas no segundo trimestre de 2026.
Os números mostram que uma Bolsa pode aumentar a sua capitalização sem necessariamente aprofundar, na mesma proporção, a função de financiamento do sector privado.
Uma Bolsa Dominada Pelo Estado Tem Menor Capacidade De Diversificar Risco
A presença significativa de dívida pública numa bolsa não constitui, por si só, uma anomalia.
Os títulos soberanos são normalmente fundamentais para desenvolver curvas de rendimento, fornecer activos de referência ao sistema financeiro e criar instrumentos de gestão de liquidez.
O problema surge quando a dívida pública se torna suficientemente dominante para limitar o desenvolvimento de alternativas.
Num mercado em que os títulos soberanos oferecem taxas de juro relativamente elevadas e apresentam menor risco percebido do que empresas privadas, investidores institucionais podem ter poucos incentivos para assumir risco corporativo.
Este mecanismo é próximo do conhecido efeito de crowding out financeiro: uma forte procura de financiamento pelo Estado pode absorver liquidez que, em circunstâncias diferentes, poderia procurar obrigações empresariais, acções ou outros instrumentos privados.
Para a BVM, isto cria também um paradoxo.
A emissão de dívida pública gera actividade, comissões e capitalização.
Mas uma Bolsa excessivamente dependente deste fluxo fica simultaneamente mais exposta a qualquer alteração da estratégia de financiamento do próprio Estado.
A administração reconhece esta realidade no relatório, advertindo que uma parcela relevante das receitas permanece associada à emissão, colocação, registo e gestão de títulos públicos e que uma redução dessas emissões poderá afectar as receitas futuras da instituição.
Diversificação Passa Por Transformar Empresas Em Emitentes Regulares
A resposta estratégica identificada pela BVM passa pela diversificação das fontes de receita e pelo aprofundamento do mercado de capitais.
A instituição aponta para a dinamização do mercado accionista, incentivo às obrigações corporativas, introdução de novos instrumentos financeiros e desenvolvimento dos serviços prestados aos participantes.
Esta agenda é particularmente importante porque o desafio do mercado moçambicano já não consiste apenas em aumentar o número de instrumentos formalmente disponíveis.
É necessário criar condições para que mais empresas utilizem efectivamente a Bolsa como alternativa recorrente de financiamento.
Isso implica oferta e procura.
Do lado das empresas, são necessárias governação corporativa, demonstrações financeiras credíveis, transparência, dimensão mínima, capacidade de cumprir obrigações perante investidores e disposição dos accionistas para abrir capital.
Do lado dos investidores, é necessária maior diversidade de participantes, liquidez, investigação financeira, formação e confiança nos mecanismos de protecção dos investidores.
Sem estes elementos, novos produtos podem existir juridicamente sem gerar actividade suficiente para alterar a estrutura do mercado.
2026 Mostra Que A Questão Continua Em Aberto
Os primeiros dados de 2026 sugerem que a transformação ainda será gradual.
No segundo trimestre, a BVM contava com 11 empresas cotadas, 83 valores mobiliários admitidos e um volume de transacções de aproximadamente 3,74 mil milhões de meticais.
A capitalização bolsista alcançou 234,95 mil milhões de meticais, mas os títulos públicos continuavam próximos de 87% do total.
Isto significa que a dimensão nominal da Bolsa está a crescer mais rapidamente do que a diversificação da sua estrutura.
A queda de 86% dos lucros da BVM em 2025 deve, por isso, ser lida para além da demonstração de resultados.
O que está em causa é o modelo de crescimento da própria instituição.
A transformação em sociedade anónima, o aumento do capital social e o desenvolvimento de novos instrumentos podem modernizar a infra-estrutura.
Mas a sustentabilidade económica de longo prazo dependerá sobretudo de uma transformação mais difícil: passar de um mercado predominantemente utilizado pelo Estado para um mercado em que empresas privadas também encontrem na Bolsa uma fonte regular, competitiva e atractiva de capital.
A verdadeira diversificação da BVM começará quando o crescimento da capitalização bolsista deixar de significar, essencialmente, mais dívida pública e passar também a representar mais empresas, mais capital privado e mais alternativas de financiamento da economia real.
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