
Mercados Globais Sob Forte Pressão: Tarifas, Volatilidade e Recuo do Apetite pelo Risco
- Wall Street registou a maior queda diária em três meses, com perdas superiores a 2% no S&P 500 e no Nasdaq, após novas ameaças tarifárias dos Estados Unidos à Europa;
- A volatilidade disparou, com o índice VIX a ultrapassar os 20 pontos, enquanto o ouro atingiu novos máximos históricos, sinalizando uma forte fuga para activos de refúgio;
- As bolsas europeias reagiram em baixa, penalizadas pelo risco de agravamento das tensões comerciais transatlânticas e pela fragilidade do crescimento económico;
- Na Ásia, os mercados adoptaram uma postura de prudência, influenciados pela instabilidade global e por tensões no mercado obrigacionista japonês;
- Em África, os dados revelam pressão cambial, subida das yields soberanas e alargamento dos spreads dos eurobonds, confirmando um ambiente financeiro defensivo.
Os mercados financeiros internacionais registaram, no início desta semana, um agravamento significativo do sentimento de risco, com Wall Street a sofrer a maior queda diária em três meses, num movimento que rapidamente se propagou à Europa, à Ásia e, de forma mais selectiva, aos mercados africanos. O catalisador foi a reintrodução de ameaças tarifárias pelo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, agora dirigidas a vários países europeus, num contexto já marcado por elevada sensibilidade dos investidores a choques políticos e geoeconómicos.
Estados Unidos: Wall Street afunda e quebra níveis técnicos
Nos Estados Unidos, os três principais índices bolsistas encerraram a sessão de terça-feira com quedas acentuadas, registando o pior desempenho diário desde 10 de Outubro de 2025.
O Dow Jones Industrial Average recuou 1,76%, para 48.488,59 pontos; o S&P 500 caiu 2,06%, para 6.796,86 pontos; e o Nasdaq Composite perdeu 2,39%, encerrando em 22.954,32 pontos. Tanto o S&P 500 como o Nasdaq desceram abaixo da média móvel de 50 dias, um sinal técnico amplamente interpretado como negativo pelo mercado.
A sessão marcou a primeira reacção plena dos investidores às declarações feitas por Donald Trump durante o fim-de-semana, uma vez que Wall Street esteve encerrada na segunda-feira devido ao feriado de Martin Luther King Jr. Day. Segundo a Reuters, Trump anunciou a intenção de aplicar novas tarifas de 10% a partir de 1 de Fevereiro sobre importações provenientes de Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Países Baixos, Finlândia e Reino Unido, com um agravamento para 25% a partir de 1 de Junho, caso não seja alcançado um acordo envolvendo a Gronelândia.
Volatilidade dispara e activos de refúgio ganham força
O movimento de venda generalizada traduziu-se num claro cenário de “risk-off”. O índice de volatilidade VIX subiu para 20,09 pontos, o nível de fecho mais elevado desde Novembro de 2025, reflectindo o aumento abrupto da incerteza nos mercados.
Em paralelo, o ouro beneficiou da procura por activos de refúgio, atingindo novos máximos históricos, enquanto os Treasuries norte-americanos sofreram pressão vendedora, com subida das yields, sinalizando um aumento do custo de financiamento. O movimento foi amplificado por tensões no mercado obrigacionista japonês, que acabaram por contaminar a dívida soberana de outras economias avançadas. Nem os activos alternativos escaparam ao ajustamento: o bitcoin recuou mais de 3% na sessão.
Europa: bolsas penalizadas pelo risco comercial
Na Europa, as principais praças bolsistas acompanharam o sentimento negativo vindo dos Estados Unidos. Os investidores reagiram de forma particularmente sensível ao facto de vários países europeus estarem directamente visados pelas novas ameaças tarifárias norte-americanas.
Os principais índices registaram quedas generalizadas, com destaque para as perdas nos sectores industrial, automóvel e exportador, tradicionalmente mais expostos a tensões comerciais transatlânticas. O euro manteve-se relativamente estável face ao dólar, mas sem força suficiente para contrariar o pessimismo instalado nos mercados accionistas.
Ásia: prudência reforçada num ambiente de incerteza
Na Ásia, o impacto foi sobretudo indirecto, mas ainda assim relevante. As bolsas japonesas ressentiram-se do duplo efeito da volatilidade global e das perturbações no mercado de dívida do Japão, enquanto os mercados chineses continuaram condicionados por preocupações estruturais ligadas ao crescimento económico e ao sector imobiliário.
O sentimento dominante na região foi de cautela, com investidores a reduzirem exposição a activos de risco e a aguardarem maior clareza sobre a evolução da política comercial dos Estados Unidos.
África: pressão cambial e subida do custo da dívida
Nos mercados africanos, o impacto foi diferenciado, mas os dados confirmam um ambiente claramente defensivo. Na África do Sul, o JSE All Share Index oscilou entre -0,4% e +0,2%, enquanto o rand negociou acima de 19,00 ZAR/USD. As yields soberanas a 10 anos subiram para 10,4%–10,6%.
No plano continental, os spreads dos eurobonds africanos alargaram-se entre 20 e 40 pontos base, reflectindo o endurecimento das condições financeiras globais e a persistência de um dólar forte.
Mercados testam a resiliência perante novos choques geoeconómicos
O episódio desta semana confirma que os mercados globais permanecem altamente vulneráveis a choques de natureza política e comercial. A reintrodução das tarifas como instrumento de pressão diplomática reacende receios de uma nova vaga de fragmentação do comércio internacional, num momento em que o crescimento global já revela sinais de fragilidade.
Para os investidores, a questão central passa agora por avaliar se o movimento observado representa apenas uma correcção pontual, ou se poderá marcar o início de um período mais prolongado de volatilidade elevada, maior selectividade e redução estrutural do apetite pelo risco nos mercados financeiros internacionais.
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