
Moçambique Gasta US$ 359 Milhões na Importação de Arroz e Recorre à Índia Para Acelerar Produção Nacional
Moçambique pretende atrair investimento e tecnologia indianos para acelerar a produção nacional de arroz e reduzir uma factura de importação que atingiu US$ 359,1 milhões em 2025, equivalente a aproximadamente 4,2% das importações de bens do País. O apelo foi apresentado pelo Secretário de Estado do Comércio, António do Rosário Grispos, durante a Conferência Internacional de Arroz, realizada entre 23 e 25 de Outubro, em Nova Deli, onde defendeu o estabelecimento de parcerias empresariais, a transferência de tecnologia e a modernização dos sistemas de produção e processamento. A aproximação à Índia, um dos principais fornecedores de arroz ao mercado moçambicano, ocorre depois de sucessivos investimentos públicos e privados na cadeia nacional do cereal, incluindo o projecto chinês da Wanbao, no Regadio do Baixo Limpopo, em Xai-Xai. Apesar dessas iniciativas, a produção doméstica continua distante das necessidades de consumo, levantando questões sobre a utilização efectiva dos regadios, os rendimentos agrícolas, os custos de processamento e a capacidade de o arroz nacional competir com o produto importado.
- Factura de Importação: Importações de arroz custaram US$ 359,1 milhões em 2025, representando aproximadamente 4,2% das importações totais de bens e 15,8% das compras de bens de consumo;
- Fornecedor Dominante: Índia forneceu cerca de US$ 155,3 milhões em arroz semibranqueado ou branqueado ao mercado moçambicano em 2025 (~40,9% do total beneficiado);
- Parceria Estratégica: Governo pretende mobilizar capital, tecnologia e parcerias empresariais indianas para acelerar a produção, o processamento e a comercialização do cereal;
- Histórico Wanbao: Projecto chinês da Wanbao, no Regadio do Baixo Limpopo, constitui uma das principais experiências de investimento estrangeiro na produção nacional de arroz;
- Expansão Agrícola: Novas iniciativas nos regadios de Chókwè e Baixo Limpopo procuram aumentar o aproveitamento das infra-estruturas de irrigação e integrar produtores familiares;
- Meta de Auto-suficiência: Objectivo governamental em três a quatro anos exige ganhos substanciais de produtividade, capacidade industrial e competitividade comercial.
Arroz Representa 15,8% das Importações de Bens de Consumo
A importância económica do arroz está associada à sua presença na alimentação das famílias, à dimensão das necessidades de abastecimento e ao volume de divisas utilizado anualmente na sua importação.
Segundo o Relatório Anual da Balança de Pagamentos e Posição de Investimento Internacional de 2025, do Banco de Moçambique, as importações de arroz atingiram US$ 359,1 milhões, perante uma factura total de importação de bens de aproximadamente US$ 8.590,8 milhões.
O cereal representou, assim, cerca de 4,2% das importações de mercadorias e 15,8% das compras externas de bens de consumo, avaliadas em US$ 2.269,6 milhões.
Arroz na Balança de Pagamentos (2025)
- Factura Anual de Importações: US$ 359,1 Milhões
- Importações Totais de Bens: US$ 8.590,8 Milhões
- Peso nas Importações Totais de Bens: 4,2%
- Peso nas Importações de Bens de Consumo: 15,8%
- Importações da Índia (Arroz Beneficiado): US$ 155,3 Milhões (~258 mil toneladas)
Fonte: Banco de Moçambique / WITS Banco Mundial / Análise O.Económico (2026).
A evolução trimestral revela um aumento da factura externa, de aproximadamente US$ 63,1 milhões nos primeiros três meses para cerca de US$ 103,2 milhões no último trimestre de 2025.
A variação reflecte alterações no valor das aquisições, embora não permita, isoladamente, concluir que houve crescimento proporcional das quantidades importadas, uma vez que os preços internacionais e a composição das compras também influenciam os montantes financeiros.
Do ponto de vista macroeconómico, o arroz constitui uma componente recorrente das importações alimentares, cujo financiamento exige disponibilidade de divisas.
A substituição progressiva de importações por produção doméstica competitiva poderia reduzir essa necessidade, melhorar a posição comercial externa e ampliar as oportunidades económicas na agricultura e no agro-processamento.
O benefício líquido para as contas externas teria, entretanto, de considerar a componente importada dos investimentos e dos factores utilizados na produção nacional, incluindo maquinaria, fertilizantes, combustíveis e equipamentos industriais.
Produção Nacional Permanece Insuficiente Para Satisfazer a Procura
Embora Moçambique disponha de condições agro-ecológicas favoráveis à cultura do arroz, a produção permanece abaixo das necessidades de abastecimento do mercado interno.
De acordo com o Anuário Estatístico de 2024, do Instituto Nacional de Estatística (INE), a produção nacional situou-se em aproximadamente 169,3 mil toneladas, perante 161,9 mil toneladas em 2023 e 245,3 mil toneladas em 2022.
A recuperação de 4,6% registada em 2024 não compensou a redução acumulada relativamente a 2022, demonstrando a irregularidade da evolução produtiva.
O Censo Agro-Pecuário 2023–2024, divulgado pelo INE em Maio de 2026, apresentou uma referência de cerca de 150 mil toneladas de arroz, num levantamento com período e metodologia próprios, não directamente equivalente à série anual do Anuário Estatístico.
A dimensão da dependência externa foi novamente evidenciada em Agosto de 2026, quando o Director-Geral do Instituto de Cereais de Moçambique (ICM), Luís Jobe Fazenda, afirmou que o País importa aproximadamente 600 mil toneladas de arroz por ano.
A diferença entre a produção doméstica e as quantidades importadas ilustra a dimensão do desafio de substituição de importações. Exige, porém, uma leitura estatística prudente: a produção de arroz em casca, o arroz beneficiado e as importações destinadas ao consumo não constituem grandezas directamente equivalentes.
O processamento industrial implica perdas de peso, pelo que o aumento da produção em campo tem de ser superior ao volume de arroz beneficiado que se pretende colocar no mercado.
A produtividade por hectare, a disponibilidade de água, o acesso a sementes e fertilizantes, a mecanização e a capacidade de secagem, armazenamento e processamento continuam a determinar a competitividade do produto nacional.
Índia Concentra Parcela Expressiva do Fornecimento de Arroz a Moçambique
A participação moçambicana na Conferência Internacional de Arroz, em Nova Deli, insere-se numa estratégia de aprofundamento da cooperação com um dos principais produtores e exportadores mundiais do cereal.
Durante o encontro, António do Rosário Grispos convidou empresas privadas e investidores indianos a estabelecerem parcerias estratégicas com operadores moçambicanos, visando desenvolver cadeias de valor agrícolas, aumentar a capacidade produtiva e melhorar os padrões de qualidade.
O governante destacou a importância da modernização das técnicas de cultivo, da transferência de tecnologia e do desenvolvimento de infra-estruturas de processamento e logística.
A relevância da Índia para o mercado moçambicano é evidente nas estatísticas comerciais. Segundo a base de dados WITS, do Banco Mundial, construída a partir de registos do comércio internacional, Moçambique importou da Índia aproximadamente US$ 155,3 milhões em arroz semibranqueado ou branqueado em 2025, correspondentes a cerca de 258 mil toneladas.
O valor representou aproximadamente 40,9% das importações moçambicanas dessa categoria de arroz, que atingiram US$ 379,4 milhões.
A importância comercial da Índia confere uma dimensão estratégica às negociações desenvolvidas em Nova Deli. O país asiático reúne experiência na produção em grande escala, mecanização, tecnologias de sementes, processamento industrial e organização de cadeias de distribuição.
Uma eventual participação de empresas indianas na produção nacional permitiria alterar a natureza da relação bilateral, actualmente marcada pelo fornecimento de arroz importado, abrindo possibilidades de investimento em infra-estruturas, equipamentos, assistência técnica e agro-indústria.
A missão moçambicana incluiu uma visita à unidade de processamento da Moi Commodities India, em Kurukshetra, no estado de Haryana, onde a delegação observou processos de automação, selecção de matérias-primas, transformação, embalamento e controlo de qualidade.
Segundo o ICM, a iniciativa destinou-se a identificar soluções tecnológicas que possam contribuir para modernizar a cadeia de processamento e armazenamento de cereais em Moçambique.
Até ao final de Outubro de 2026, contudo, não tinham sido divulgados contratos de investimento nem montantes financeiros resultantes dos contactos estabelecidos durante a conferência.
Investimento Chinês da Wanbao no Baixo Limpopo Expõe Potencial e Limitações
A presença de investidores estrangeiros na produção de arroz em Moçambique tem um dos seus exemplos mais relevantes no projecto da Wanbao Africa Agriculture Development, empresa de capitais chineses estabelecida no Regadio do Baixo Limpopo, em Xai-Xai, província de Gaza.
Iniciado em 2013, o empreendimento foi concebido para desenvolver a produção mecanizada de arroz, incorporando sistemas de irrigação, equipamentos agrícolas, processamento industrial, transferência de tecnologia e mecanismos de integração de agricultores familiares.
O investimento inicialmente previsto foi estimado em aproximadamente US$ 95 milhões, associado a um projecto de exploração agrícola de grande escala. Este valor constitui uma referência histórica do plano de investimento, não correspondendo necessariamente ao montante comprovadamente desembolsado.
De acordo com o Instituto Nacional de Irrigação (INIR), a empresa dispõe de uma concessão de aproximadamente 20 mil hectares, por um período de 50 anos. Em Junho de 2026, cerca de oito mil hectares encontravam-se em operação, dos quais quatro mil destinados à produção de arroz.
Os números evidenciam a diferença entre a dimensão territorial do investimento e a área efectivamente mobilizada para o cultivo do cereal.
O projecto introduziu técnicas de mecanização, utilização de sementes melhoradas e assistência técnica aos agricultores, procurando aumentar a produtividade e criar condições para um abastecimento comercial mais regular.
Segundo informações divulgadas pela agência chinesa Xinhua, em Maio de 2025, a Wanbao produzia aproximadamente 16 mil toneladas anuais de arroz, envolvendo 353 pequenos agricultores. A adopção de novas técnicas de produção terá permitido elevar os rendimentos de uma a duas toneladas por hectare para cinco a sete toneladas em determinadas áreas abrangidas pelo projecto.
Embora estes resultados apontem para ganhos de produtividade, a dimensão da operação ainda permanece limitada quando comparada com as cerca de 600 mil toneladas de arroz que Moçambique importa anualmente.
A experiência também evidencia a vulnerabilidade das infra-estruturas agrícolas aos fenómenos climáticos. Segundo o INIR, as cheias de 2026 afectaram aproximadamente 3.500 hectares de arroz cultivados pela Wanbao antes das inundações, danificando igualmente equipamentos, instalações e infra-estruturas agrícolas.
A avaliação preliminar identificou prejuízos directos de cerca de sete milhões de meticais, admitindo que as perdas totais pudessem atingir 600 milhões de meticais quando considerados os danos em maquinaria, infra-estruturas e outros activos produtivos.
A empresa anunciou, entretanto, um plano de recuperação que contempla a reabilitação dos campos, limpeza dos canais, preparação dos solos e retoma da produção de arroz, com colheitas previstas para o final de 2026 ou início de 2027.
A experiência do investimento chinês constitui uma referência importante para a nova iniciativa de mobilização de investidores indianos. Demonstra que a introdução de tecnologia e a organização da produção podem melhorar os rendimentos agrícolas, mas também evidencia a importância da manutenção dos regadios, da resiliência climática e da continuidade operacional.
Ao longo da sua implementação, o projecto foi igualmente objecto de análises sobre o acesso à terra, o relacionamento com as comunidades locais e os mecanismos de integração dos pequenos agricultores.
Estes aspectos introduzem uma dimensão adicional à avaliação dos investimentos agrícolas estrangeiros: a capacidade de desenvolver explorações comerciais de grande escala preservando oportunidades económicas para os produtores familiares e assegurando uma utilização sustentável dos recursos naturais.
Novas Parcerias em Chókwè e Baixo Limpopo Procuram Ampliar Áreas Cultivadas
A experiência da Wanbao decorre em paralelo com novas iniciativas de investimento destinadas a aumentar o aproveitamento económico dos regadios existentes na província de Gaza.
Em Dezembro de 2025, o Instituto Nacional de Irrigação assinou um memorando de entendimento com o consórcio Food and Food para a exploração de aproximadamente 20 mil hectares nos regadios de Chókwè e do Baixo Limpopo.
A iniciativa contempla produção agrícola, reabilitação de infra-estruturas, actividades agro-industriais e mecanismos de integração de pequenos e médios produtores, através de modelos de fomento agrícola.
A distinção entre as duas experiências é importante. A Wanbao constitui um investimento chinês já estabelecido no Regadio do Baixo Limpopo, em Xai-Xai, enquanto o entendimento com o consórcio Food and Food representa uma iniciativa mais recente envolvendo áreas dos regadios de Chókwè e Baixo Limpopo.
O novo projecto pretende aproveitar a capacidade instalada e atrair financiamento privado para ampliar a produção comercial de arroz e outras culturas.
Contudo, a assinatura de memorandos e a disponibilização de áreas não significam que a totalidade das superfícies anunciadas se encontre já cultivada ou que os investimentos tenham sido integralmente realizados.
A evolução destes empreendimentos deverá ser acompanhada através dos hectares efectivamente explorados, volumes comercializados, rendimentos por hectare, investimentos executados e participação dos produtores locais.
A experiência dos regadios nacionais confirma ainda a importância da gestão e manutenção das infra-estruturas. Um estudo divulgado pelo Instituto Internacional de Investigação do Arroz, em 2025, identificou dificuldades operacionais em sistemas públicos de irrigação, incluindo áreas construídas cuja utilização produtiva permanecia reduzida.
Na cadeia do arroz, o investimento em canais e equipamentos de rega precisa de ser acompanhado por capacidade técnica, financiamento agrícola, processamento industrial e mecanismos comerciais que assegurem o escoamento da produção.
Governo Combina Incentivos à Produção Com Nova Gestão das Importações
A estratégia governamental para o arroz envolve duas dimensões complementares: aumentar a oferta nacional e reorganizar os mecanismos de importação enquanto a produção doméstica permanecer insuficiente.
O Governo atribuiu ao Instituto de Cereais de Moçambique novas responsabilidades na condução do processo de importação de arroz e trigo, através do Diploma Ministerial n.º 132/2025, de 31 de Dezembro.
O instrumento designou o ICM como agente do Estado responsável por conduzir o processo de importação, sem excluir a participação dos demais agentes económicos nos termos da legislação aplicável.
O regime entrou em vigor para o arroz em Fevereiro de 2026, introduzindo procedimentos de coordenação das encomendas, registo dos operadores e articulação com instituições financeiras.
Segundo o ICM, a medida visa aumentar a transparência, melhorar a previsibilidade do abastecimento e controlar os fluxos financeiros associados às importações.
A reforma decorre num mercado em que as compras externas continuam a desempenhar um papel essencial no abastecimento alimentar.
A redução da dependência externa exige, por conseguinte, que os mecanismos de gestão comercial sejam acompanhados por uma expansão sustentada da produção nacional, evitando desequilíbrios entre a disponibilidade de arroz e as necessidades dos consumidores.
O preço do arroz importado constitui igualmente uma referência para os produtores nacionais. Custos elevados de energia, irrigação, transporte, financiamento e processamento podem limitar a competitividade do produto doméstico, mesmo quando exista disponibilidade de terras agrícolas.
A política de substituição de importações terá, assim, de considerar as condições económicas de toda a cadeia, desde a produção no campo até à chegada do arroz aos mercados grossistas e retalhistas.
Meta de Auto-Suficiência Exige Aumento Substancial da Produção
O Governo tem defendido a possibilidade de Moçambique alcançar a auto-suficiência na produção de arroz num horizonte de três a quatro anos, mediante um crescimento anual de aproximadamente 50 mil toneladas.
Em Dezembro de 2025, António do Rosário Grispos apresentou esta perspectiva, considerando que o País dispõe de condições agro-climáticas, técnicas e humanas para acelerar a produção.
“Se nós conseguirmos aumentar a nossa produção de arroz em cerca de 50 mil toneladas por ano, nós conseguimos, daqui a três ou quatro anos, atingir a auto-suficiência”, afirmou o governante.
A dimensão das necessidades de importação, contudo, aconselha uma avaliação mais detalhada desta perspectiva.
Considerando a referência de aproximadamente 600 mil toneladas de arroz importado anualmente, um acréscimo de 50 mil toneladas de produção por ano permitiria aumentar a produção anual em 150 mil toneladas ao fim de três anos e 200 mil toneladas ao fim de quatro anos, relativamente ao nível inicial.
Estes incrementos representariam avanços relevantes, mas seriam insuficientes, isoladamente, para substituir a totalidade das quantidades actualmente importadas.
A comparação exige ainda distinguir arroz em casca de arroz beneficiado, uma vez que o processamento industrial reduz o peso comercializável do cereal.
A viabilidade da meta governamental pressupõe, portanto, aumentos de produtividade, ampliação das áreas efectivamente cultivadas, investimentos na irrigação e no processamento, redução das perdas e melhoria da organização comercial.
É neste enquadramento que as parcerias com empresas indianas poderão adquirir relevância, sobretudo se contribuírem para acelerar a introdução de tecnologias, melhorar os rendimentos por hectare e aumentar a capacidade industrial.
Competitividade do Arroz Nacional Exige Ligação Entre Produção, Indústria e Mercados
O aumento da produção agrícola representa uma das condições para reduzir as importações, mas a competitividade do arroz nacional envolve factores que ultrapassam a capacidade de cultivo.
Nos principais regadios moçambicanos, o custo da água, da energia, da mecanização, dos fertilizantes e do financiamento influencia directamente o preço final do cereal.
Às despesas agrícolas acrescem os custos de secagem, descasque, classificação, armazenamento, embalamento e distribuição.
A localização dos principais centros produtores também introduz desafios logísticos.
O arroz produzido nos regadios de Gaza, Zambézia e outras regiões agrícolas precisa de chegar aos mercados consumidores em condições competitivas de preço, qualidade e regularidade.
As dificuldades de transporte e comercialização podem reduzir as vantagens da produção local, especialmente quando os importadores conseguem abastecer os mercados urbanos através de cadeias internacionais de fornecimento com grande escala comercial.
A experiência da Wanbao, no Baixo Limpopo, mostra que a mecanização e as tecnologias agrícolas podem contribuir para elevar a produtividade. Contudo, os investimentos também estão expostos aos custos de manutenção, às condições climáticas e à necessidade de assegurar mercados para os volumes produzidos.
A cooperação com a Índia poderá acrescentar experiência em processamento industrial, mecanização e gestão integrada de cadeias produtivas, áreas particularmente relevantes para reduzir os custos unitários e melhorar a qualidade comercial do arroz nacional.
A capacidade de atrair investidores para unidades de descasque, classificação, embalamento e armazenamento poderá igualmente contribuir para diminuir as perdas e desenvolver um produto nacional com maior presença nos mercados.
Substituição de Importações Poderá Reduzir Necessidades de Divisas
O impacto macroeconómico da expansão da cultura do arroz pode ser ilustrado pela dimensão das importações registadas em 2025.
Com uma factura anual de US$ 359,1 milhões, uma substituição hipotética de 25% do valor das importações corresponderia a aproximadamente US$ 89,8 milhões em compras externas evitadas.
Uma redução de 50% equivaleria a cerca de US$ 179,6 milhões, enquanto uma substituição de 75% representaria aproximadamente US$ 269,3 milhões.
Potencial Ilustrativo de Substituição de Importações (Base: US$ 359,1M)
- Cenário de Substituição a 25%: US$ 89,8 Milhões de importações evitadas
- Cenário de Substituição a 50%: US$ 179,6 Milhões de importações evitadas
- Cenário de Substituição a 75%: US$ 269,3 Milhões de importações evitadas
Fonte: Simulações O.Económico baseadas em dados de 2025 do Banco de Moçambique.
Os valores demonstram a relevância financeira potencial da substituição de importações, mas não correspondem automaticamente a poupanças líquidas para a economia.
A expansão da produção exigirá investimentos, parte dos quais poderá envolver a importação de equipamentos, maquinaria, fertilizantes e outros factores produtivos.
Ainda assim, uma redução sustentada das importações de arroz poderia diminuir a necessidade recorrente de divisas para aquisição de alimentos, estimular a actividade agro-industrial e criar oportunidades para produtores, transportadores, processadores e distribuidores nacionais.
O efeito sobre a balança de pagamentos seria particularmente relevante num contexto de restrições à disponibilidade de moeda estrangeira e de necessidades de financiamento externo.
Experiência Chinesa e Aproximação à Índia Abrem Nova Etapa
A participação de Moçambique na Conferência Internacional de Arroz, em Nova Deli, coloca novamente em evidência as oportunidades de investimento numa cultura de importância estratégica para a segurança alimentar e as contas externas.
A experiência do investimento chinês da Wanbao demonstra que o País já dispõe de antecedentes relevantes de participação de capital estrangeiro na produção mecanizada de arroz, incluindo infra-estruturas de irrigação, processamento e transferência de tecnologia.
Os resultados observados, contudo, também revelam limitações de escala e vulnerabilidades que ajudam a explicar a persistência da dependência externa, apesar dos investimentos realizados.
A iniciativa mais recente nos regadios de Chókwè e Baixo Limpopo, associada ao consórcio Food and Food, acrescenta uma nova oportunidade de mobilização de capital e aproveitamento das áreas irrigáveis.
A aproximação à Índia poderá contribuir para ampliar estas experiências, sobretudo através da modernização tecnológica, do financiamento produtivo e do desenvolvimento de unidades de processamento.
Até ao momento, porém, os contactos estabelecidos em Nova Deli ainda não tinham resultado em anúncios públicos de investimentos contratualizados ou compromissos financeiros específicos.
A dimensão do desafio económico permanece expressa nos indicadores de 2025: Moçambique gastou US$ 359,1 milhões na importação de arroz, enquanto a produção doméstica continua a representar uma parcela limitada das necessidades de abastecimento.
A experiência da Wanbao, os novos projectos nos regadios de Gaza e as negociações com empresas indianas mostram que a disponibilidade de investidores e de terras agrícolas tem sido acompanhada por dificuldades persistentes de expansão da oferta.
A relação com a Índia apresenta, entretanto, uma oportunidade particularmente relevante: um dos maiores fornecedores de arroz ao mercado moçambicano poderá passar a participar também no desenvolvimento da capacidade produtiva nacional.
A evolução desta cooperação poderá alterar progressivamente a estrutura de abastecimento do mercado, hoje fortemente dependente de importações. Para já, o contraste permanece evidente: enquanto os investimentos agrícolas procuram ganhar escala, a factura externa do arroz continua a absorver centenas de milhões de dólares por ano.














