
Moçambique Recebe 500 Mil Jovens no Mercado de Trabalho Por Ano, Mas Economia Formal Cria Apenas 25 Mil Empregos
Especialista do Instituto Africano de Políticas de Desenvolvimento alerta para o desfasamento entre o crescimento da população activa e a capacidade de criação de emprego. Com dois terços dos moçambicanos abaixo dos 25 anos, a transformação demográfica poderá ampliar o potencial económico do País, mas exige investimentos em educação, saúde, planeamento familiar, produtividade e industrialização.
- Défice de emprego: Cerca de 500 mil jovens entram anualmente no mercado de trabalho, perante uma criação estimada de apenas 25 mil empregos formais;
- Estrutura económica: Agricultura absorve aproximadamente 70% dos trabalhadores, enquanto as indústrias extractivas contribuem com cerca de 11% do PIB e apenas 1% do emprego;
- Capital humano: Apenas 18 em cada 100 jovens de uma geração concluem o ensino secundário, segundo indicadores apresentados pela AFIDEP;
- Transição demográfica: População moçambicana poderá atingir 56,1 milhões de habitantes em 2044, acrescentando aproximadamente 22 milhões relativamente a 2024;
- Desigualdades regionais: Diferenças na fecundidade, escolarização e pobreza condicionam as oportunidades de desenvolvimento entre as províncias;
- Reformas integradas: Estudo da AFIDEP, UNFPA e Ministério da Economia e Finanças mostra que a combinação de políticas económicas e investimento nas pessoas poderá produzir ganhos superiores aos de reformas económicas isoladas.
Crescimento da População Activa Supera Capacidade de Criação de Emprego Formal
Moçambique enfrenta um desfasamento estrutural entre a expansão da sua força de trabalho e a capacidade de criação de emprego formal. Todos os anos, cerca de 500 mil jovens entram no mercado laboral, enquanto a economia formal gera aproximadamente 25 mil postos de trabalho, numa relação equivalente a apenas um emprego formal por cada 20 novos participantes.
O diagnóstico foi apresentado pela directora executiva adjunta e responsável pelos programas do Instituto Africano de Políticas de Desenvolvimento (AFIDEP), Rose N. Oronje, durante a Conferência sobre População e Desenvolvimento em Moçambique, realizada a 4 de Novembro, no Centro Cultural Moçambique-China, da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo.
Na sua intervenção, subordinada ao tema do aproveitamento da transição demográfica para acelerar o desenvolvimento, a especialista identificou a criação de emprego produtivo, a qualificação do capital humano e a evolução da estrutura etária da população como factores determinantes para transformar o crescimento demográfico em prosperidade económica.
Segundo a AFIDEP, as estimativas de entrada de jovens no mercado laboral e de criação de empregos formais baseiam-se em dados do Banco Mundial e em referências do Programa Quinquenal do Governo 2025–2029.
“Todos os anos, cerca de meio milhão de jovens entram no mercado de trabalho, mas a economia formal cria apenas cerca de 25 mil empregos: um por cada vinte”, afirmou Rose Oronje, numa tradução da sua intervenção original em inglês.
A relação apresentada evidencia a limitada capacidade de absorção do emprego formal, embora não represente uma medição directa do desemprego: parte dos novos participantes encontra ocupação na economia informal, enquanto outros permanecem sem trabalho.
A especialista observou que entre 80% e 90% dos trabalhadores moçambicanos se encontram em actividades informais, o que coloca a produtividade, a protecção social e o acesso aos mercados entre as principais prioridades da política económica.

Recursos Minerais Geram Riqueza, Mas Absorvem Parcela Reduzida do Emprego
Um dos aspectos centrais da apresentação foi a diferença entre a contribuição dos sectores económicos para o Produto Interno Bruto e a sua capacidade de gerar postos de trabalho.
Segundo os dados reunidos pela AFIDEP, com base em indicadores do Banco Mundial, da Organização Internacional do Trabalho e de fontes nacionais, as indústrias extractivas representam aproximadamente 11% do PIB moçambicano, mas absorvem apenas cerca de 1% dos trabalhadores.
Em contraste, a agricultura e as pescas contribuem com aproximadamente 26% do PIB e concentram cerca de 70% do emprego.
A indústria transformadora representa aproximadamente 10% da economia e 4% dos postos de trabalho, enquanto os serviços, incluindo comércio, transportes e turismo, contribuem com cerca de 41% do PIB e 22% do emprego.
Peso Económico e Capacidade de Criação de Emprego
| Sector | Peso no PIB | Peso no emprego |
|---|---|---|
| Agricultura e pescas | 26% | 70% |
| Serviços | 41% | 22% |
| Indústrias extractivas | 11% | 1% |
| Indústria transformadora | 10% | 4% |
Fonte: AFIDEP, com base no Banco Mundial, OIT e dados sectoriais de referência. Os valores são aproximados e não representam necessariamente o mesmo ano estatístico.
Para Rose Oronje, esta configuração revela uma das limitações estruturais da economia moçambicana: os sectores com maior dinamismo de crescimento não são necessariamente aqueles que absorvem mais trabalhadores.
A especialista observou que a indústria extractiva registou uma forte expansão em 2023, associada ao aumento da produção de gás natural, sem que esse crescimento tivesse correspondência proporcional na criação de emprego.
Por outro lado, a agricultura concentra a maioria dos trabalhadores, mas continua caracterizada por níveis relativamente baixos de produtividade.
A AFIDEP considera que a industrialização, a transformação agro-alimentar, o desenvolvimento de fornecedores locais e a expansão de serviços modernos podem contribuir para aumentar a capacidade de criação de emprego produtivo.
Apenas 18 em Cada 100 Concluem o Ensino Secundário
A insuficiência do emprego formal foi associada à fragilidade dos indicadores de educação e qualificação profissional.
Com base em dados da UNESCO e de instituições nacionais, a apresentação da AFIDEP indicou que, numa representação ilustrativa de 100 crianças de uma geração, aproximadamente 54 concluem o ensino primário, 28 completam o primeiro ciclo do secundário e apenas 18 chegam à conclusão do ensino secundário completo.
A taxa bruta de escolarização no ensino superior situa-se em cerca de 8%, de acordo com a referência utilizada pela instituição.
O Percurso Educacional em Moçambique
| Etapa | Por 100 indivíduos |
|---|---|
| Concluem o ensino primário | 54 |
| Concluem o 1.º ciclo do secundário | 28 |
| Concluem o ensino secundário | 18 |
| Taxa bruta de escolarização no ensino superior | 8% |
Fontes: UNESCO, indicadores de conclusão de 2022; estatísticas nacionais do ensino superior. Elaboração apresentada pela AFIDEP.
A especialista destacou igualmente que, de uma população estimada em 3,4 milhões de jovens com idades entre 18 e 22 anos, aproximadamente 253 mil frequentavam instituições de ensino superior em 2023 e 122 mil estavam inscritos na formação técnico-profissional em 2025.
Os indicadores utilizados apontam para uma cobertura conjunta equivalente a cerca de um em cada nove jovens daquele grupo etário, embora os números provenham de períodos e modalidades de ensino diferentes.
Rose Oronje considerou que estas limitações afectam directamente a capacidade produtiva e a competitividade da economia.
Segundo a especialista, as empresas necessitam de trabalhadores saudáveis e qualificados para crescer, enquanto a eficácia das instituições públicas também está associada à formação e às competências dos seus profissionais.
A AFIDEP recomenda, neste contexto, a melhoria da aprendizagem nos primeiros anos de escolaridade, a permanência das raparigas na escola, a modernização dos currículos e o fortalecimento da ligação entre formação profissional e necessidades das empresas.
População Poderá Atingir 56 Milhões em 2044
A dimensão do desafio económico foi ilustrada pelas projecções demográficas apresentadas durante a conferência.
Com base na revisão de 2024 das Perspectivas da População Mundial das Nações Unidas, a AFIDEP indicou que Moçambique tinha aproximadamente 34,1 milhões de habitantes no início de 2024, podendo atingir 40,3 milhões em 2030 e 56,1 milhões em 2044.
A trajectória representa um aumento de cerca de 22 milhões de habitantes entre 2024 e 2044, período abrangido pela Estratégia Nacional de Desenvolvimento.
Evolução e Projecção da População
| Ano | Milhões de habitantes |
|---|---|
| 2024 | 34,1 |
| 2030 | 40,3 |
| 2044 | 56,1 |
Fonte: Nações Unidas, World Population Prospects 2024, variante média, conforme apresentação da AFIDEP.
A expansão demográfica deverá aumentar a necessidade de escolas, unidades sanitárias, habitação, infra-estruturas e oportunidades económicas.
Segundo a especialista, o aproveitamento do dividendo demográfico exige a combinação de dois processos: uma transição voluntária e sustentada da fecundidade, que altere gradualmente a estrutura etária, e investimentos que permitam transformar uma população activa crescente em força de trabalho qualificada e produtiva.
“Uma população jovem não produz automaticamente um dividendo demográfico”, salientou Rose Oronje, explicando que os resultados económicos estão associados às decisões de investimento e às políticas públicas.
Desigualdades Regionais Condicionam Aproveitamento do Dividendo Demográfico
A apresentação chamou igualmente a atenção para diferenças significativas nas condições de vida e nas oportunidades económicas entre as províncias.
Com base no Inquérito Demográfico e de Saúde 2022–2023, a AFIDEP destacou que a taxa de fecundidade se situa em aproximadamente 2,8 filhos por mulher na província de Maputo, comparativamente a 6,2 em Cabo Delgado.
Os indicadores de alfabetização apresentam igualmente disparidades importantes.
Na cidade de Maputo, a proporção de adultos que não sabem ler foi apresentada em torno de 7%, enquanto em Cabo Delgado cerca de 67% das mulheres enfrentam essa limitação.
A especialista associou estas diferenças à escolarização, ao rendimento das famílias, ao acesso aos serviços de saúde e às condições sociais e territoriais.
Segundo os dados citados pela AFIDEP, com referência a estudos do Banco Mundial e da UNICEF, crianças nas quatro províncias mais pobres — Cabo Delgado, Nampula, Niassa e Zambézia — enfrentam riscos de pobreza substancialmente superiores aos das crianças em Maputo.
A análise evidencia que as políticas de aproveitamento do dividendo demográfico necessitam de considerar as diferenças territoriais, concentrando investimentos nas regiões com maiores necessidades de educação, saúde, protecção social e oportunidades produtivas.
Planeamento Familiar e Educação Feminina Entre os Factores da Transição
A evolução da fecundidade constitui outro dos elementos centrais da proposta apresentada pela AFIDEP.
Segundo os dados do Inquérito Demográfico e de Saúde, o número médio de filhos por mulher em Moçambique diminuiu de 5,9 em 2011 para 4,9 em 2022–2023.
Apesar da redução, a especialista considerou que a transição permanece lenta e desigual entre as províncias.
A instituição destacou que cerca de 19% das mulheres em idade reprodutiva desejam evitar uma gravidez, mas não dispõem de acesso adequado a métodos contraceptivos modernos, segundo estimativas utilizadas na apresentação.
Como referência regional, Rose Oronje apontou os progressos registados no Malawi e no Quénia, onde a utilização de contraceptivos modernos entre mulheres casadas alcançou aproximadamente 66% e 57%, respectivamente, segundo os levantamentos citados.
A AFIDEP argumenta que o alargamento do acesso voluntário ao planeamento familiar, combinado com educação feminina, cuidados de saúde e prevenção das uniões prematuras, pode contribuir para melhorar as condições da transição demográfica.
A instituição recomendou a criação de uma rubrica orçamental nacional para contraceptivos, maior acesso a serviços adaptados aos adolescentes e prioridade às províncias com indicadores mais desfavoráveis.
A proposta foi enquadrada numa abordagem de direitos, assente nas escolhas individuais e no acesso informado aos serviços de saúde reprodutiva.
Modelo Económico Aponta Ganhos Superiores Com Reformas Integradas
Um dos elementos mais relevantes da apresentação foi a recuperação de um exercício de modelação económica realizado em 2015 pelo então Ministério da Economia e Finanças, em colaboração com o Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) e a AFIDEP.
O estudo utilizou o modelo DemDiv para comparar diferentes cenários de desenvolvimento económico e transição demográfica até 2051.
Segundo as projecções apresentadas, um cenário de continuidade das tendências anteriores conduziria a um PIB por habitante de aproximadamente US$ 1.837 em 2051.
A implementação isolada de reformas económicas elevaria esse indicador para US$ 4.890, enquanto a combinação de reformas económicas com investimentos em planeamento familiar, educação e saúde permitiria atingir US$ 8.443 por habitante.
PIB Por Habitante em 2051 — Cenários do Modelo DemDiv
| Cenário | PIB por habitante (US$) |
|---|---|
| Continuidade das tendências | 1.837 |
| Apenas reformas económicas | 4.890 |
| Reformas económicas + investimento nas pessoas | 8.443 |
Fonte: Ministério da Economia e Finanças, UNFPA e AFIDEP, Harnessing the Demographic Dividend in Mozambique (2015).
A diferença entre os dois cenários de reformas corresponde a US$ 3.553 por habitante, ilustrando o potencial económico da combinação entre transformação produtiva e investimento nas pessoas.
Contudo, Rose Oronje sublinhou que as projecções foram elaboradas em 2015, utilizando dados de 2011, pelo que não devem ser interpretadas como previsões actualizadas para 2051.
A especialista recomendou a realização de novos exercícios de modelação, considerando a evolução da fecundidade, da dívida, da estrutura económica, do sector do gás natural e das prioridades estabelecidas na Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025–2044.
A AFIDEP propôs igualmente a actualização das Contas Nacionais de Transferências, instrumento que permite analisar a produção, o consumo e as transferências económicas entre diferentes grupos etários.
Agricultura, Indústria e Serviços Podem Ampliar Emprego Produtivo
A criação de empregos em escala foi apresentada como uma prioridade essencial para o aproveitamento da transição demográfica.
Segundo a AFIDEP, o crescimento da economia informal exige políticas destinadas a elevar a produtividade das pequenas actividades económicas, incluindo acesso à formação, financiamento, pagamentos digitais e mercados.
A especialista identificou igualmente a agro-indústria como uma área com potencial para aumentar a transformação local e gerar emprego, destacando actividades como processamento de cereais, oleaginosas, lacticínios, carne e materiais de construção.
Na indústria extractiva e no gás natural, a instituição recomendou o desenvolvimento de fornecedores nacionais e a criação de empregos qualificados associados às cadeias de valor.
O turismo, os serviços financeiros, as tecnologias de informação e os serviços empresariais foram igualmente identificados como áreas capazes de contribuir para a diversificação económica.
Para a AFIDEP, o desenvolvimento destas actividades deverá ser acompanhado por reformas no ensino técnico-profissional, programas de aprendizagem em contexto de trabalho e maior articulação entre instituições de formação e empregadores.
A instituição considera ainda essencial que os ganhos económicos provenientes dos recursos naturais sejam acompanhados por investimentos consistentes no desenvolvimento humano.
AFIDEP Recomenda Políticas Orçamentadas e Monitoria dos Resultados
Na parte final da intervenção, Rose Oronje salientou a necessidade de converter as estratégias de desenvolvimento em programas com financiamento definido, responsabilidades institucionais e indicadores mensuráveis.
A AFIDEP recomendou que o Governo e a Assembleia da República integrem as prioridades da transição demográfica nos instrumentos orçamentais, assegurando financiamento contínuo para intervenções comprovadamente eficazes.
A especialista defendeu igualmente maior alinhamento dos parceiros de desenvolvimento em torno de um roteiro nacional, acompanhado de produção regular de informação estatística a nível provincial e distrital.
A participação dos jovens, das comunidades, das universidades e das organizações da sociedade civil foi igualmente considerada relevante para melhorar a adequação das políticas às necessidades da população.
A instituição manifestou disponibilidade para apoiar o Instituto Nacional de Estatística e os sectores governamentais na actualização dos modelos de análise do dividendo demográfico.
O argumento central da apresentação foi sintetizado por Rose Oronje ao afirmar que “o maior recurso de Moçambique é a sua população”, salientando que o desenvolvimento económico exige investimentos deliberados e consistentes nas capacidades dos cidadãos.
Transição Demográfica Abre Oportunidade Económica, Mas Exige Mudanças Estruturais
Os indicadores apresentados pela AFIDEP evidenciam os desafios que Moçambique enfrenta para transformar o crescimento da população em ganhos económicos sustentados.
A entrada anual de aproximadamente 500 mil jovens no mercado de trabalho, perante uma criação estimada de 25 mil empregos formais, demonstra a dimensão do desfasamento entre a evolução demográfica e a capacidade de absorção da economia formal.
A concentração do emprego na agricultura de baixa produtividade, a reduzida participação laboral da indústria extractiva e as limitações de escolarização constituem factores que condicionam a transformação produtiva.
A análise da AFIDEP associa o aproveitamento do dividendo demográfico à implementação articulada de políticas de saúde, educação, planeamento familiar voluntário, formação profissional, industrialização e desenvolvimento empresarial.
O crescimento da população poderá ampliar a dimensão da força de trabalho e dos mercados consumidores, mas a sua contribuição para o rendimento e para o bem-estar estará associada à capacidade de elevar a produtividade, criar emprego e reduzir as desigualdades.
Indicadores Centrais | Dividendo Demográfico
Fonte: AFIDEP — Intervenção de Rose N. Oronje na Conferência sobre População e Desenvolvimento em Moçambique, 04/11/2026. Indicadores provenientes de fontes e períodos de referência distintos.














