
Moçambique Supera Meio Milhão De Pontos De Acesso, Mas 93% Dependem Da Moeda Electrónica
- A rede nacional de acesso financeiro atingiu 505.316 pontos no primeiro trimestre de 2026, mantendo a expansão observada no ano anterior. Contudo, o crescimento continua excessivamente concentrado nos agentes de moeda electrónica, enquanto os ATM e os terminais POS diminuem e o crédito à economia permanece limitado. Os dados mostram um País mais conectado ao sistema financeiro, mas ainda distante de uma inclusão territorialmente equilibrada e capaz de financiar plenamente famílias e empresas.
- Os pontos de acesso aumentaram cerca de 4,8% face ao final de 2025, passando de 482.359 para 505.316;
- Os 467.622 agentes de moeda electrónica representam 92,5% de toda a rede nacional;
- A rede de ATM diminuiu 5,6% e os POS recuaram 2,5%, prolongando a retracção dos canais bancários físicos;
- As agências de bancos, microbancos e cooperativas permaneceram praticamente estagnadas, com apenas mais duas unidades;
- O acesso cresce, mas o Índice de Inclusão Financeira continua em 36,4 pontos e o crédito à economia representa apenas 19% do PIB.
A Rede Cresce, Mas O Modelo Torna-se Mais Concentrado
Moçambique ultrapassou a marca de meio milhão de pontos de acesso a serviços financeiros no primeiro trimestre de 2026, confirmando a continuidade da expansão digital que marcou o ano anterior.
O mapa divulgado pelo Banco de Moçambique contabiliza 505.316 pontos no final de Março, contra 482.359 no encerramento de 2025. A diferença corresponde a mais 22.957 pontos e a um crescimento trimestral próximo de 4,8%, segundo cálculos do O.Económico com base nos dados oficiais disponibilizados pela autoridade monetária.
A comparação exige alguma prudência metodológica. O mapa trimestral apresenta as agências bancárias e as agências de microbancos e cooperativas em categorias separadas, além de incluir 314 agentes bancários cuja nota indica dados referentes ao quarto trimestre de 2024. Mesmo retirando estes agentes do cálculo, contudo, a expansão da rede permanece próxima de 4,7%.
A leitura essencial mantém-se: quase todo o aumento resultou dos agentes não bancários das instituições de moeda electrónica.
O número destes agentes avançou de 446.604 no final de 2025 para 467.622 no primeiro trimestre deste ano, um aumento de 21.018 unidades. Sozinhos, explicam mais de 91% da expansão líquida observada no período.
Noventa E Três Em Cada Cem Pontos São Agentes De Moeda Electrónica
Os agentes das instituições de moeda electrónica representam actualmente cerca de 92,5% dos pontos de acesso financeiro existentes em Moçambique.
A proporção mostra a capacidade das carteiras móveis para alcançar zonas onde a abertura de uma agência bancária seria dispendiosa ou economicamente inviável. Um agente instalado num pequeno comércio necessita de menos capital, infra-estrutura e custos operacionais do que um balcão convencional.
Este modelo tornou possível expandir rapidamente os serviços de depósitos e levantamentos, transferências, compra de recargas e pagamento de algumas obrigações.
Mas a mesma concentração cria um desafio. Um sistema financeiro apoiado quase exclusivamente em agentes móveis pode ampliar o acesso transaccional sem oferecer, na mesma escala, crédito, poupança remunerada, seguros, investimento, aconselhamento financeiro e financiamento empresarial.
O próprio Relatório de Inclusão Financeira 2025 conclui que a moeda electrónica se consolidou como principal motor do acesso, enquanto persistem desigualdades regionais, limitações no uso efectivo dos serviços e dificuldades de protecção dos consumidores.
A notícia de base partilhada também sublinha que Niassa, Nampula, Zambézia e Cabo Delgado continuam a apresentar fraca cobertura relativa, apesar da expansão geral da rede.
ATM E POS Continuam A Perder Espaço
Enquanto a rede de agentes móveis cresce, a infra-estrutura bancária tradicional permanece praticamente estagnada ou em contracção.
As agências de bancos somavam 650 no primeiro trimestre, às quais se acrescentavam 80 agências de microbancos e cooperativas de crédito. O total combinado, de 730 unidades, representa apenas mais duas do que as 728 registadas no final de 2025.
Os ATM diminuíram de 1.383 para 1.306, uma queda de 77 unidades, equivalente a 5,6%. Os terminais POS recuaram de 32.236 para 31.433, menos 803 equipamentos ou 2,5%.
A redução pode reflectir racionalização de terminais inactivos, custos de manutenção, alterações nos hábitos de pagamento e substituição gradual por soluções móveis. Porém, também reduz alternativas para clientes que dependem de numerário, cartões bancários ou serviços que não podem ser executados através de uma carteira electrónica.
O declínio dos POS merece atenção particular. O número de terminais diminui num momento em que a política pública procura promover pagamentos digitais e reduzir a dependência do dinheiro físico.
A contradição sugere que a digitalização está a avançar sobretudo através de transferências entre carteiras e operações de levantamento, e não necessariamente pela criação de um ecossistema amplo de pagamentos electrónicos nos estabelecimentos comerciais.
Ter Agentes Não Significa Poder Pagar Em Qualquer Lugar
A expansão das contas e dos agentes só produzirá uma economia verdadeiramente digital quando os utilizadores puderem manter os recursos dentro do sistema e utilizá-los para adquirir bens e serviços.
Em 2025, as transferências aumentaram para 48% das transacções de moeda electrónica, mas os pagamentos diminuíram para apenas 8%. Isto sugere que as carteiras são amplamente usadas para receber e enviar dinheiro, mas ainda de forma limitada como instrumento de pagamento comercial.
Um estudo do Banco Mundial realizado junto de mais de dois mil comerciantes em cinco províncias apurou que 22% ainda não aceitavam pagamentos digitais. Entre as barreiras identificadas estavam os custos, a conectividade instável, a limitada procura dos clientes, o receio de fraude e a percepção de que as contas empresariais são mais complexas ou dispendiosas.
Sem aceitação generalizada, o dinheiro recebido digitalmente tende a ser levantado imediatamente, preservando a centralidade do numerário e aumentando a pressão sobre os próprios agentes.
A evolução dos pontos de acesso deve, por isso, ser analisada em conjunto com o número de pagamentos efectuados, a interoperabilidade entre bancos e carteiras, o custo das operações e a proporção de contas efectivamente activas.
Os Totais Absolutos Escondem A Desigualdade Territorial
A Cidade de Maputo concentrava 85.225 pontos de acesso no primeiro trimestre, enquanto a Província de Maputo registava 68.572. Em conjunto, as duas jurisdições representavam cerca de 30,4% do total nacional.
Nampula contabilizava 73.826 pontos, Sofala 57.057 e Zambézia 45.011. Niassa apresentava o menor total provincial, com 18.476.
Os números absolutos não medem, isoladamente, a qualidade da cobertura, porque províncias mais populosas tendem naturalmente a possuir mais agentes. A desigualdade torna-se mais evidente quando os pontos são comparados com a população adulta e a extensão territorial.
Os dados de 2025 indicavam 9.609 pontos por cada 100 mil adultos na Cidade de Maputo, contra apenas 1.292 na Zambézia. A cobertura relativa da capital era, portanto, mais de sete vezes superior.
Niassa, Cabo Delgado, Nampula e Zambézia também mantinham baixas taxas de bancarização e menor disponibilidade de serviços convencionais, apesar da rápida expansão dos agentes móveis.
Esta diferença revela que a proximidade de um agente não resolve, por si só, problemas associados à qualidade da rede de telecomunicações, disponibilidade de liquidez, identificação civil, rendimento, confiança e acesso a produtos financeiros mais sofisticados.
A Expansão Do Microcrédito Traz Oportunidades E Riscos
O número de operadores de microcrédito aumentou de 3.426 para 3.632 entre o final de 2025 e o primeiro trimestre de 2026, um crescimento de aproximadamente 6%.
A expansão pode beneficiar microempreendedores, comerciantes informais e famílias que não conseguem cumprir os requisitos exigidos pelos bancos.
Contudo, mais operadores não significam necessariamente crédito mais barato, produtivo ou responsável. Será necessário acompanhar as taxas efectivas, os encargos, a transparência contratual, a qualidade das avaliações de risco e o nível de endividamento dos clientes.
Num mercado com baixa literacia financeira, a rápida expansão do microcrédito pode aumentar o acesso, mas também criar práticas abusivas ou múltiplas dívidas quando a supervisão e a informação ao consumidor são insuficientes.
O desafio será fazer com que o crédito de pequena dimensão financie capital circulante, equipamento, produção e actividades geradoras de rendimento, e não apenas consumo de curto prazo.
Mais Pontos Não Estão A Gerar Mais Crédito À Economia
A principal limitação do actual modelo aparece quando o acesso é comparado com a intermediação financeira.
Em 2025, os depósitos bancários aumentaram para 51% do PIB, mas o crédito à economia diminuiu para 19%. Isto significa que o sistema captava um volume crescente de recursos, sem os converter proporcionalmente em financiamento às empresas e famílias.
O Índice de Inclusão Financeira permaneceu em 36,4 pontos. O segmento das instituições de moeda electrónica melhorou de 42,4 para 45,8 pontos, enquanto o índice dos bancos recuou de 30,3 para 28,1.
A diferença confirma que Moçambique está a avançar mais rapidamente na inclusão transaccional do que na inclusão creditícia, empresarial e patrimonial.
Existem quase quatro contas de moeda electrónica por cada conta bancária quando os indicadores são comparados por mil adultos. Porém, o acesso a financiamento, seguros e produtos de investimento permanece muito inferior.
A Estratégia Nacional de Inclusão Financeira 2025–2031 reconhece esta limitação ao estabelecer como prioridades não apenas a expansão do acesso, mas também o uso efectivo, o crédito, a poupança, o investimento, os seguros, a literacia e a protecção dos consumidores.
A Dimensão De Género Continua A Exigir Políticas Específicas
A moeda electrónica tem ajudado a reduzir parte da desigualdade entre homens e mulheres. Em 2025, as contas detidas por mulheres aumentaram 24%, mais rapidamente do que as dos homens.
Ainda assim, as mulheres possuíam apenas 214 contas bancárias por cada mil adultas, contra 449 entre os homens. No crédito concedido a particulares com informação de género disponível, a participação feminina era de 34%, comparativamente a 66% dos homens.
A GSMA observa que a diferença de género na posse de contas de moeda móvel em Moçambique diminuiu 12 pontos percentuais desde 2021. Contudo, apenas cerca de 46% dos adultos possuíam uma conta deste tipo na medição do Global Findex, indicando que uma parcela elevada de homens e mulheres continuava excluída.
A expansão dos agentes deve, portanto, ser acompanhada por maior acesso das mulheres a telemóveis, identificação, competências digitais, crédito, propriedade de activos e fontes regulares de rendimento.
O Próximo Salto Terá De Ser Qualitativo
Os números do primeiro trimestre confirmam que a infra-estrutura financeira continua a crescer, mas também mostram que o modelo de expansão está cada vez mais dependente de um único canal.
A moeda electrónica oferece a plataforma mais eficaz para alcançar rapidamente a população. O desafio consiste agora em transformar essa plataforma numa porta de entrada para outros produtos.
Isto exigirá interoperabilidade efectiva entre bancos e carteiras, custos mais baixos, aceitação comercial, produtos de poupança, microseguros, histórico transaccional utilizável na avaliação de crédito e mecanismos rápidos de resolução de reclamações.
Será igualmente necessário melhorar a qualidade dos dados. O mapa trimestral inclui categorias e períodos de referência que não são totalmente comparáveis aos utilizados no relatório anual. A harmonização das classificações permitiria acompanhar com maior rigor se o País está efectivamente a ganhar novos pontos ou apenas a reorganizar a forma de os contabilizar.
Os cdados evidenciam capacidade do Pais para expandir a rede, com a referência de que o próximo indicador decisivo não será ultrapassar 600 mil pontos de acesso, mas, transformar esses pontos em fonte de poupanças, financiamento e renda.
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