OMC defende debate sobre princípio da Nação Mais Favorecida em meio a pressão por reformas

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Ngozi Okonjo-Iweala apela a discussão sobre regra central da OMC antes da conferência ministerial de Março, num contexto de tensões comerciais crescentes

Questões-Chave:
  • OMC admite necessidade de reformas estruturais profundas;
  • Princípio da Nação Mais Favorecida (MFN) entra no centro do debate;
  • EUA e União Europeia questionam adequação do modelo actual;
  • Quota do comércio global sob MFN caiu de 80% para 72%.

A Directora-Geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Ngozi Okonjo-Iweala, instou os Estados-membros a iniciarem uma discussão aberta sobre possíveis reformas estruturais da organização, incluindo o seu princípio basilar da Nação Mais Favorecida (Most Favoured Nation – MFN). A informação foi avançada pela Reuters .

Falando em Genebra, a responsável sublinhou que “o status quo não é suficiente”, defendendo que, num contexto de incerteza geopolítica e fragmentação económica, os ministros do comércio devem ter a coragem de debater inclusive os princípios fundacionais do sistema multilateral.

O apelo surge num momento particularmente sensível para a OMC, que enfrenta questionamentos quanto à sua relevância futura, à medida que acordos comerciais e decisões estratégicas passam, cada vez mais, a ser negociados fora do quadro multilateral.

O que está em causa no princípio MFN

O princípio da Nação Mais Favorecida constitui um dos pilares da OMC e estabelece que qualquer vantagem comercial concedida por um membro a outro deve ser automaticamente estendida a todos os demais membros da organização.

No entanto, os Estados Unidos, em documento de posição apresentado em Dezembro, defenderam que o MFN já não se adequa a um sistema comercial moderno, sugerindo uma transição para medidas diferenciadas e mais recíprocas. A posição norte-americana reflecte uma tendência mais ampla de reconfiguração estratégica do comércio internacional, particularmente após a imposição de tarifas generalizadas pelo Presidente Donald Trump.

Também a União Europeia tem sinalizado abertura para rever o alcance do princípio. Num artigo publicado no Financial Times em Janeiro, o comissário europeu do Comércio, Maros Sefcovic, defendeu que os países deveriam poder ajustar tarifas com maior flexibilidade quando as suas economias se encontrem ameaçadas, acrescentando que o acesso a tarifas reduzidas “não pode ser incondicional”.

Fragmentação crescente do comércio global

Dados da própria OMC indicam que a percentagem do comércio mundial realizada sob termos MFN caiu de cerca de 80% para 72% após a imposição de tarifas adicionais pelos Estados Unidos à maioria dos seus parceiros comerciais.

Este declínio ilustra uma erosão progressiva da universalidade do princípio e reforça a percepção de que o sistema multilateral atravessa um período de tensão estrutural.

A discussão deverá ganhar centralidade na conferência ministerial agendada para Março, nos Camarões, onde os membros da organização deverão analisar um programa de reformas com vista a revitalizar a instituição, que completa 30 anos.

Implicações para economias em desenvolvimento

Para economias em desenvolvimento e dependentes do comércio externo, como Moçambique, a eventual flexibilização ou revisão do MFN pode ter implicações relevantes. O princípio garante previsibilidade e igualdade formal de tratamento, factores que têm sido determinantes para países com menor poder de negociação bilateral.

A eventual transição para um sistema mais baseado na reciprocidade diferenciada poderá aumentar a complexidade do comércio internacional e reforçar assimetrias negociais, num contexto já marcado por rivalidades geopolíticas e crescente regionalização dos fluxos comerciais.

O debate que agora se abre na OMC poderá, assim, redefinir não apenas as regras formais do comércio global, mas também o equilíbrio de poder dentro do sistema multilateral.