Países Africanos Enviam Hoje Mais Recursos à China do que Recebem em Novos Empréstimos

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Dados revelam inversão histórica no financiamento chinês, com África a registar um défice líquido de US$22 mil milhões em fluxos financeiros com Pequim.

Questões-Chave:
  • África passou de um influxo líquido de US$30 mil milhões para uma saída líquida de US$22 mil milhões em cinco anos;
  • China deixa de ser financiador líquido e torna-se receptor líquido de pagamentos da dívida;
  • Instituições multilaterais assumem liderança no financiamento líquido global;
  • Novo contexto agrava restrições fiscais e pressiona financiamento do desenvolvimento em África.

Os países africanos estão hoje a transferir mais recursos financeiros para a China em pagamentos da dívida do que aqueles que recebem em novos empréstimos, sinalizando uma mudança estrutural no papel de Pequim como financiador do desenvolvimento, segundo uma análise divulgada pela iniciativa ONE Data.

China Passa de Financiador Líquido a Receptor de Pagamentos

Durante a última década, a China reduziu de forma acentuada a concessão de novos empréstimos a países de baixo e médio rendimento, enquanto os pagamentos associados a créditos anteriores continuaram a aumentar. Como resultado, muitos países — com destaque para África — passaram a registar fluxos financeiros líquidos negativos na sua relação com Pequim.

“Há menos novos empréstimos a entrar, mas a dívida anterior continua a ter de ser paga — é daí que surgem os fluxos de saída”, explicou David McNair, director executivo da ONE Data.

África Regista a Maior Inversão de Fluxos Financeiros

A África foi a região mais afectada por esta inversão. Entre 2015–2019, o continente registou um influxo líquido de cerca de US$30 mil milhões em financiamento chinês. Já no período 2020–2024, esse valor transformou-se numa saída líquida de US$22 mil milhões, representando uma inversão de US$52 mil milhões.

Este movimento ocorre num contexto em que vários países africanos enfrentam níveis elevados de endividamento, constrangimentos fiscais e menor acesso a financiamento concessionário.

Instituições Multilaterais Assumem Papel Central

Em paralelo com a retração do financiamento bilateral chinês, as instituições multilaterais reforçaram significativamente o seu papel. Segundo o relatório, estas entidades aumentaram o financiamento líquido global em 124% na última década, passando a representar 56% dos fluxos líquidos globais, equivalentes a US$379 mil milhões entre 2020 e 2024.

Esta mudança reposiciona actores como bancos multilaterais de desenvolvimento como os principais financiadores líquidos do desenvolvimento, após considerados os fluxos de serviço da dívida.

Ajuda Externa Sob Pressão a Partir de 2025

A análise não inclui ainda os cortes que começaram a produzir efeitos em 2025, nomeadamente o encerramento da USAID e a redução de dotações de outros países desenvolvidos. Segundo McNair, quando os dados de 2025 estiverem disponíveis, deverão revelar uma queda acentuada da Ajuda Pública ao Desenvolvimento, com impactos particularmente severos em África.

Para os governos africanos, a tendência representa um “resultado líquido negativo”, dificultando o financiamento de serviços públicos e investimento, embora possa também reforçar a necessidade de maior responsabilização interna e mobilização de recursos domésticos.

Cinturão e Rota Registam Novo Pico em 2025

Apesar da redução do financiamento líquido, a actividade externa chinesa voltou a ganhar fôlego em 2025, segundo um estudo do Griffith Asia Institute. Os projectos associados à Belt and Road Initiative atingiram um valor recorde de US$213,5 mil milhões, incluindo US$128,4 mil milhões em contratos de construção e US$85,2 mil milhões em investimentos.

A África emergiu novamente como maior destino destes projectos, reflectindo uma mudança na natureza do envolvimento chinês: menos crédito soberano directo e mais contratos, investimentos e parcerias estruturadas.

Novo Paradigma no Financiamento do Desenvolvimento Africano

Lançada em 2013 pelo Presidente Xi Jinping, a Iniciativa Cinturão e Rota foi inicialmente concebida para ligar a Ásia Oriental à Europa, mas expandiu-se rapidamente para África, América Latina e Oceânia, consolidando a influência económica e geopolítica da China.

Os dados agora divulgados sugerem, contudo, que o modelo de financiamento chinês entrou numa nova fase, com implicações profundas para a gestão da dívida, a estratégia de investimento público e a arquitectura financeira do desenvolvimento africano.

Para África, o desafio passa por adaptar-se a um ambiente de financiamento externo mais restritivo, reforçando a sustentabilidade da dívida e diversificando fontes de financiamento num contexto global cada vez mais fragmentado.

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