Petróleo Sofre Queda Semanal de Quase 10% Com Retoma Gradual dos Fluxos Pelo Estreito de Ormuz

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  • Brent fechou em US$ 71,99 e WTI em US$ 69,23 por barril, numa semana em que o mercado passou rapidamente do receio de escassez para a expectativa de maior disponibilidade física de crude.

Questões-Chave

  • O Brent desvalorizou 10,86% na semana, encerrando a US$ 71,99 por barril, enquanto o WTI caiu 9,62%, para US$ 69,23;
  • A recuperação progressiva das exportações através do Estreito de Ormuz reduziu o prémio de risco geopolítico que vinha sustentando os preços;
  • A retoma dos carregamentos no terminal saudita de Ras Tanura e a saída de navios antes retidos no Golfo reforçaram a percepção de maior oferta no curto prazo;
  • Os dados de inventários nos Estados Unidos mostraram uma queda nas reservas de crude, mas foram insuficientes para inverter a pressão vendedora;
  • A próxima semana será determinada pela segurança da navegação em Ormuz, pela absorção dos volumes que regressam ao mercado, pelos inventários norte-americanos e pelo início do novo ajustamento de produção da OPEP+ em Julho.

O mercado petrolífero encerrou a semana sob uma correcção expressiva, com os dois principais referenciais internacionais a perderem quase 10% num período de negociação marcado por rápidas mudanças na percepção de risco sobre a oferta global.

O Brent, referência para grande parte das transacções internacionais de petróleo, terminou a sexta-feira nos US$ 71,99 por barril, uma queda diária de 4,34%. O West Texas Intermediate (WTI), referência norte-americana, encerrou nos US$ 69,23, depois de recuar 3,74% na sessão. Segundo dados compilados pela Reuters, face ao fecho da quinta-feira anterior — numa semana encurtada pelo feriado nos Estados Unidos — o Brent acumulou uma perda de 10,86%, enquanto o WTI desvalorizou 9,62%.

A magnitude da queda revela uma alteração importante no sentimento do mercado. Depois de vários meses dominados pelo receio de interrupções prolongadas nos fornecimentos do Médio Oriente, os investidores passaram a concentrar-se na velocidade com que os barris antes retidos no Golfo poderão regressar às refinarias e aos mercados consumidores.

Do Risco de Escassez À Pressão de Oferta

O factor decisivo da semana foi a recuperação gradual dos movimentos de navios no Estreito de Ormuz, uma das mais importantes rotas marítimas de energia do mundo. A passagem é essencial para o escoamento de crude, condensados e produtos refinados provenientes dos países do Golfo, pelo que qualquer perturbação prolongada tende a elevar imediatamente o risco de escassez e os preços internacionais.

A reabertura parcial das rotas permitiu a saída de navios que permaneciam retidos na região e começou a libertar volumes acumulados durante o período de maior tensão. Dados de rastreamento marítimo citados pela Reuters indicavam que cerca de 90 milhões de barris de petróleo estavam bloqueados no Golfo em meados da semana, à espera de condições de segurança e circulação para seguir rumo aos mercados asiáticos e a outros destinos.

A retoma dos carregamentos no terminal saudita de Ras Tanura, depois de uma interrupção de vários meses, reforçou a leitura de que a oferta física começará a regressar de forma mais visível ao mercado. A Saudi Aramco voltou a carregar navios de grande porte no terminal, um sinal relevante para os operadores, uma vez que a capacidade logística e exportadora saudita é central para o equilíbrio do mercado global.

Esta perspectiva levou o mercado a descontar uma redução do risco de ruptura de fornecimento. A curva de futuros do petróleo chegou mesmo a entrar em contango — situação em que os contratos para entrega futura são negociados acima dos preços imediatos — pela primeira vez desde o início do conflito. Este comportamento costuma indicar que os investidores antecipam maior disponibilidade de barris no curto prazo e menor urgência em assegurar crude para entrega imediata.

Recuperação Ainda É Incompleta

Apesar da forte correcção dos preços, seria prematuro concluir que o mercado regressou à normalidade. A circulação de navios pelo Estreito de Ormuz melhorou, mas continua significativamente abaixo dos níveis anteriores ao conflito.

Na sexta-feira, o número de transacções de navios através da passagem caiu para 13, depois de ter atingido 27 na quarta-feira, o maior registo desde o início da crise. Antes do conflito, a rota movimentava, em média, cerca de 125 embarcações por dia. O dado demonstra que há uma recuperação operacional, mas também confirma a persistência de riscos de segurança, custos de seguro mais elevados e incerteza quanto às rotas autorizadas.

O incidente registado com uma embarcação comercial nas proximidades de Omã, que levou a Organização Marítima Internacional a suspender temporariamente o seu esquema voluntário de evacuação de navios retidos, recorda que a estabilidade ainda não está consolidada. A segurança marítima continuará, por isso, a ser o principal indicador a acompanhar pelo mercado.

A actual queda dos preços resulta menos de uma normalização plena e mais da expectativa de que os volumes antes represados começarão a chegar ao mercado num curto espaço de tempo. A velocidade dessa libertação será decisiva: uma entrada muito rápida de crude poderá manter a pressão sobre as cotações; uma recuperação irregular ou novos incidentes podem voltar a elevar o prémio de risco.

Inventários Nos EUA Oferecem Sinal Misto

Os dados mais recentes da Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos introduziram uma leitura mais equilibrada. Na semana terminada a 19 de Junho, os inventários comerciais norte-americanos de crude diminuíram em 6,1 milhões de barris, para 412,1 milhões de barris, ficando cerca de 7% abaixo da média dos últimos cinco anos para esta época do ano.

À primeira vista, a redução dos inventários poderia sustentar uma recuperação das cotações, por sugerir procura firme ou menor disponibilidade interna. Contudo, o mercado interpretou os dados no contexto mais amplo da libertação de volumes no Golfo e da perspectiva de maior oferta exportável nas semanas seguintes.

As reservas de gasolina aumentaram em 2,1 milhões de barris e os inventários de destilados cresceram 3,1 milhões. Estes números mostram que a procura por combustíveis continua desigual, num momento em que o mercado procura avaliar se a capacidade de consumo, sobretudo na Ásia, será suficiente para absorver rapidamente os volumes que voltam a circular.

Assim, a descida dos inventários de crude nos Estados Unidos funcionou como um factor de suporte limitado, mas não teve força para contrariar a percepção predominante de maior disponibilidade física no mercado internacional.

OPEP+ Inicia Novo Ajustamento em Julho

A oferta será também influenciada pela OPEP+, que inicia em Julho um novo ajustamento de produção. Os sete países que mantêm cortes voluntários — Arábia Saudita, Rússia, Iraque, Kuwait, Cazaquistão, Argélia e Omã — acordaram uma reposição adicional de 188 mil barris por dia.

A decisão integra o processo gradual de reversão dos cortes voluntários anteriores, mas a organização manteve a possibilidade de pausar ou reverter os ajustamentos caso as condições do mercado se alterem. Esta flexibilidade é relevante num contexto em que a recuperação efectiva da produção e das exportações ainda depende da estabilidade logística e marítima na região do Golfo.

O efeito imediato da medida poderá ser moderado, porque os volumes anunciados em quotas nem sempre correspondem a volumes efectivamente entregues ao mercado. Ainda assim, a entrada em vigor do ajustamento em Julho reforça a expectativa de que a oferta global poderá aumentar, sobretudo se os fluxos pelo Estreito de Ormuz continuarem a recuperar.

A Semana Começa Sob Volatilidade Elevada

A tendência imediata para o petróleo permanece inclinada para preços mais baixos, desde que a circulação de navios pelo Estreito de Ormuz prossiga e os volumes acumulados consigam chegar aos mercados consumidores sem novos entraves. O mercado passou de uma preocupação com barris em falta para uma preocupação com a rapidez com que os barris libertados poderão ser absorvidos.

Porém, esta leitura não elimina o risco de movimentos bruscos em sentido contrário. Qualquer incidente de segurança, ameaça à navegação, atraso nos carregamentos ou deterioração do entendimento que permitiu a reabertura parcial da rota poderá devolver rapidamente um prémio geopolítico às cotações.

A divulgação semanal dos inventários norte-americanos, prevista para quarta-feira, 1 de Julho, será um indicador importante para aferir a resistência da procura e o comportamento das reservas numa fase de maior disponibilidade internacional. No dia seguinte, os mercados estarão também atentos ao relatório de emprego dos Estados Unidos referente a Junho, cuja leitura poderá influenciar o dólar, as expectativas de crescimento e o apetite global por activos de risco.

Para Moçambique, a queda do crude representa, em princípio, um alívio potencial sobre os custos de importação de combustíveis e sobre as pressões inflacionistas externas. Mas esse efeito dependerá igualmente do comportamento do metical, dos preços dos produtos refinados, dos custos logísticos e da velocidade com que as alterações internacionais são transmitidas ao mercado doméstico.

O petróleo entra, assim, na nova semana menos pressionado pelo medo de escassez, mas ainda longe de uma situação de previsibilidade. O verdadeiro teste será verificar se a oferta que começa a sair do Golfo encontra procura suficiente para ser absorvida sem provocar uma nova deterioração dos preços.

A queda dos inventários norte-americanos de crude para 412,1 milhões de barris e a manutenção de níveis abaixo da média quinquenal oferecem algum suporte fundamental, mas o mercado priorizou a expectativa de maior oferta física. A OPEP+ inicia em Julho uma reposição adicional de 188 mil barris por dia, mantendo, contudo, margem para rever a decisão se as condições se alterarem.