União Europeia e Países Baixos Lançam €60 Milhões Para Impulsionar Cadeias Agrícolas em Moçambique

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Programa Green Value for Growth pretende alcançar 38 mil pequenos produtores e apoiar mais de 3.500 empresas, combinando produção sustentável, agro-processamento, acesso a mercados e atracção de investimento europeu.

Questões-Chave:
  • A União Europeia e os Países Baixos formalizaram o programa Green Value for Growth, avaliado em 60 milhões de euros;
  • A iniciativa prioriza as cadeias de valor da soja, caju e café, com foco nos corredores da Beira e de Nacala;
  • O programa prevê alcançar cerca de 38 mil pequenos produtores e apoiar mais de 3.500 empresas, entre micro, pequenas, médias e grandes;
  • A missão à Gorongosa colocou o café agroflorestal no centro da discussão sobre conservação, rendimento comunitário e diversificação económica;
  • O desafio será converter o financiamento em produtividade, processamento local, ligações comerciais duradouras e investimento privado efectivo.

A União Europeia e o Reino dos Países Baixos formalizaram um novo impulso financeiro para a agricultura comercial sustentável em Moçambique, através do programa Green Value for Growth (GV4G), avaliado em 60 milhões de euros. A iniciativa coloca no centro das prioridades três cadeias de valor com elevado potencial económico — soja, caju e café — e pretende combinar ganhos de produtividade, transformação local, conservação ambiental e acesso a mercados.

O programa foi apresentado no quadro do Fórum de Negócios Moçambique–União Europeia Global Gateway 2026, realizado em Maputo nos dias 9 e 10 de Junho. Segundo informação divulgada pela Embaixada do Reino dos Países Baixos em Moçambique, o financiamento integra 50 milhões de euros mobilizados pela União Europeia e 10 milhões de euros assegurados pelos Países Baixos.

A ambição é alcançar cerca de 38 mil pequenos produtores e apoiar mais de 3.500 empresas, desde micro e pequenas unidades de produção até negócios de maior dimensão, com uma concentração geográfica nos corredores da Beira e de Nacala. Estes dois eixos logísticos são determinantes para ligar zonas produtivas aos centros de consumo, às infra-estruturas de processamento e aos mercados de exportação.

Da Produção Isolada À Cadeia de Valor Integrada

A relevância do Green Value for Growth reside, antes de mais, na sua abordagem. O programa não se limita à produção agrícola, procurando actuar sobre as diferentes etapas que determinam o valor económico de uma cultura: acesso a insumos, assistência técnica, produtividade, armazenamento, processamento, certificação, logística, financiamento e ligação a compradores.

Em Moçambique, uma parte significativa dos produtores permanece exposta à volatilidade dos preços, à baixa produtividade, às limitações de acesso ao crédito e à fraca ligação entre as zonas rurais e os mercados mais remuneradores. O desafio, por isso, não consiste apenas em produzir mais, mas em garantir que uma parcela crescente do valor gerado pelas cadeias agrícolas permaneça nas comunidades produtoras e nas empresas nacionais.

A lógica do GV4G enquadra-se nesta necessidade. Ao privilegiar soja, caju e café, o programa procura actuar em sectores com perfis complementares. A soja possui relevância crescente na ligação entre agricultura, alimentação animal e agro-indústria. O caju mantém peso histórico na economia rural e no potencial exportador de Moçambique. Já o café surge como uma cadeia emergente, particularmente associada a modelos de produção diferenciada, qualidade, origem e sustentabilidade ambiental.

A Comissão Europeia tem sublinhado que o Fórum Moçambique–UE foi concebido para aproximar investidores, empresas, instituições financeiras e decisores públicos em torno de oportunidades concretas nos sectores do agronegócio, agro-processamento, energia, conectividade e turismo. Neste contexto, o novo programa agrícola representa uma tentativa de transformar o diálogo sobre investimento em intervenções directamente ligadas à economia produtiva.

Gorongosa Como Referência de Produção Com Conservação

A etapa exploratória realizada nas províncias de Manica e Sofala, a 12 de Junho, trouxe uma dimensão prática à iniciativa. Uma delegação neerlandesa de 11 membros, liderada por Marchel Gerrmann, responsável pela área de desenvolvimento económico sustentável e comércio no Ministério dos Negócios Estrangeiros dos Países Baixos, visitou o Parque Nacional da Gorongosa, com atenção particular ao modelo de produção de café.

Segundo o Parque Nacional da Gorongosa, a visita permitiu à delegação conhecer os sistemas agroflorestais desenvolvidos na Serra da Gorongosa, onde o café é cultivado à sombra de árvores nativas. Este modelo procura conciliar a produção comercial com a protecção dos solos, dos recursos hídricos e da biodiversidade, ao mesmo tempo que cria fontes de rendimento para as comunidades locais.

A delegação interagiu com produtores e visitou a unidade de processamento de café, observando como o produto é preparado para entrar nos mercados. A experiência da Gorongosa é particularmente relevante porque demonstra que a criação de valor na agricultura não depende apenas da expansão da área cultivada. Depende, igualmente, da qualidade do produto, do processamento, da organização dos produtores, da diferenciação comercial e da conservação dos recursos naturais que sustentam a própria actividade agrícola.

A mensagem associada à visita foi clara: é possível produzir café de qualidade, preservar a floresta e gerar rendimento comunitário. Porém, a replicação deste modelo exigirá mais do que financiamento inicial. Exigirá serviços de extensão rural consistentes, sistemas de certificação, ligação a mercados especializados, capacidade de processamento e mecanismos que garantam uma remuneração adequada aos produtores.

Corredores Económicos Como Plataformas de Competitividade

A escolha dos corredores da Beira e de Nacala não é casual. Ambos concentram infra-estruturas portuárias, ferroviárias e rodoviárias fundamentais para o escoamento da produção agrícola, servindo não apenas Moçambique, mas também economias do interior da África Austral.

No caso do Corredor da Beira, a integração entre Manica, Sofala, Tete e os mercados regionais pode criar condições para ampliar a comercialização agrícola e fortalecer a agro-indústria. No Norte, o Corredor de Nacala oferece uma ligação estratégica entre zonas de produção, centros urbanos, portos e mercados externos, com potencial para dinamizar cadeias ligadas ao caju, ao café e a outros produtos de exportação.

Mas a existência de corredores, por si só, não garante competitividade. É necessário reduzir custos logísticos, melhorar a qualidade das estradas rurais, reforçar a armazenagem, criar serviços de frio onde forem necessários, facilitar o acesso a energia e assegurar que produtores e pequenas empresas tenham condições para cumprir exigências de qualidade, rastreabilidade e regularidade de fornecimento.

É nesta articulação entre infra-estrutura, produção, transformação e mercado que o GV4G poderá ter maior impacto. O programa terá de demonstrar que é possível transformar corredores logísticos em verdadeiros corredores económicos, capazes de gerar emprego, investimento, exportações e oportunidades empresariais ao longo da cadeia de valor.

Investimento Europeu Exige Capacidade Local

A atracção de investimento europeu constitui um dos objectivos declarados da iniciativa. Contudo, a qualidade desse investimento dependerá da capacidade de criar parcerias equilibradas entre empresas estrangeiras, produtores locais, cooperativas, processadores nacionais e instituições públicas.

O impacto não deve ser medido apenas pelo montante financeiro mobilizado. Deve ser avaliado pela ampliação da capacidade produtiva local, pelo número de empregos criados, pelo aumento do rendimento dos produtores, pela incorporação de valor no território e pela criação de empresas capazes de se manter competitivas após o término do apoio externo.

A presença de entidades como TechnoServe, Resilience BV, Nitidæ e Agência do Zambeze na implementação do programa indica uma aposta numa combinação entre assistência técnica, desenvolvimento empresarial e ligação a mercados. Essa arquitectura poderá ser relevante para aproximar o conhecimento técnico das necessidades concretas dos produtores e das pequenas e médias empresas.

Ainda assim, o sucesso dependerá de uma coordenação estreita com as autoridades nacionais, governos provinciais, instituições de pesquisa, operadores financeiros e organizações de produtores. Sem este alinhamento, existe o risco de multiplicação de projectos sem escala suficiente ou sem continuidade após a fase de financiamento.

Uma Oportunidade Para Reposicionar o Agronegócio

O Green Value for Growth surge num momento em que Moçambique procura reforçar a sua base produtiva, diversificar exportações e acelerar a industrialização assente nos recursos nacionais. A agricultura continua a ser um dos sectores com maior capacidade para gerar emprego, reduzir pobreza rural e criar novas oportunidades de negócio, desde que deixe de ser tratada apenas como actividade de subsistência.

O programa de 60 milhões de euros representa, por isso, mais do que um novo pacote de cooperação. Pode constituir uma oportunidade para testar uma abordagem de desenvolvimento agrícola baseada em valor acrescentado, sustentabilidade ambiental e inserção comercial.

A missão à Gorongosa mostrou uma imagem concreta dessa possibilidade: uma cadeia de café que combina floresta, comunidade, processamento e mercado. O desafio agora será levar essa lógica para uma escala maior, adaptando-a às realidades da soja, do caju e de outras cadeias com potencial de transformar a economia rural moçambicana.