
Portos Movimentam 69 Milhões de Toneladas, Mas Indústria Transformadora Capta Apenas 2,1% do Investimento Estrangeiro
- A expansão dos corredores logísticos moçambicanos está a superar a capacidade da economia para transformar o crescimento da movimentação de mercadorias em industrialização, emprego e maior participação empresarial nacional. No Fórum de Investimento da África Lusófona, em Cabo Verde, o Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, apresentou um contraste expressivo: enquanto os portos nacionais aumentaram a carga movimentada em 43% desde 2021, a indústria extractiva absorveu 91,5% do investimento directo estrangeiro de 2025, deixando apenas 2,1% para a indústria transformadora. A estratégia governamental passa agora por desenvolver corredores que integrem produção, infra-estruturas, energia e empresas nacionais.
Questões-Chave
- Portos moçambicanos movimentaram cerca de 69 milhões de toneladas em 2025, mais 43% do que em 2021;
- Indústria extractiva concentrou 91,5% do investimento directo estrangeiro em 2025, enquanto a indústria transformadora recebeu 2,1%;
- Porto de Nacala utilizou aproximadamente 35% da sua capacidade nominal de movimentação em 2024;
- Cerca de 500 mil jovens chegam anualmente ao mercado de trabalho, perante aproximadamente 25 mil novos empregos formais, segundo os indicadores apresentados pelo Governo;
- Tânger Med, em Marrocos, demonstra o potencial de integração entre portos e plataformas industriais, com 1.500 empresas e 145 mil empregos acumulados;
- UNCTAD identifica Moçambique entre as economias onde aumentou o número de operações de financiamento internacional de projectos, numa conjuntura desfavorável para África.
O crescimento da actividade portuária e logística de Moçambique está a revelar uma das principais contradições da estrutura económica nacional: o país movimenta volumes crescentes de mercadorias através dos seus corredores de transporte, mas continua a captar uma parcela reduzida de investimento estrangeiro para a instalação de indústrias e outras actividades capazes de ampliar a transformação produtiva.
O contraste foi colocado em evidência pelo Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, durante o Fórum de Investimento da África Lusófona, realizado nesta segunda-feira, 26 de Outubro, na Ilha do Sal, em Cabo Verde.
Na intervenção dedicada ao papel dos corredores de desenvolvimento, o governante apresentou os progressos da actividade logística e a concentração do investimento estrangeiro como dois indicadores fundamentais para compreender as oportunidades e limitações da economia moçambicana.
Em 2025, os portos nacionais movimentaram aproximadamente 69 milhões de toneladas, um crescimento de 43% face a 2021. O Porto de Maputo atingiu o recorde de 32 milhões de toneladas, enquanto a Beira aumentou a sua movimentação de 13,5 milhões para 17,5 milhões de toneladas em quatro anos.
Contudo, dos cerca de US$ 5,6 mil milhões de investimento directo estrangeiro recebidos pelo país em 2025, 91,5% foram canalizados para a indústria extractiva e apenas 2,1% para a indústria transformadora, segundo os números apresentados por Salim Valá.
A diferença traduz uma concentração acentuada do investimento num conjunto limitado de actividades, apesar da expansão da capacidade logística e da disponibilidade de infra-estruturas que poderiam servir uma base produtiva mais diversificada.
O Ministro sintetizou a orientação governamental numa declaração que estabelece uma distinção entre as várias funções económicas dos corredores:
“Um corredor não vale apenas pelo que passa. Vale pelo que fica.”
A afirmação acompanha a defesa de uma estratégia que transforme portos, caminhos-de-ferro e estradas em plataformas de desenvolvimento empresarial, agro-indústria, produção industrial e emprego.
Crescimento Portuário Evidencia Ganhos Logísticos, Mas Também Limites da Estrutura Produtiva
O desempenho portuário registado nos últimos anos confirma o aumento da importância de Moçambique no sistema regional de transportes.
Os dados apresentados no Fórum indicam que aproximadamente sete em cada dez toneladas movimentadas nos portos nacionais têm origem ou destino em países vizinhos, reflectindo a dependência de economias como a Zâmbia, o Zimbabwe, o Malawi e a República Democrática do Congo relativamente ao acesso aos mercados marítimos.
No caso do Porto de Maputo, os 32 milhões de toneladas movimentadas em 2025 constituem um máximo histórico, confirmado pela concessionária MPDC. A empresa reportou igualmente investimentos acumulados superiores a US$ 900 milhões desde 2003, acompanhados por aumentos da capacidade de manuseamento e melhorias operacionais.
Estes resultados representam ganhos efectivos de capacidade logística, mas a sua contribuição para a transformação económica depende da natureza das mercadorias transportadas e das actividades empresariais que se desenvolvem ao longo dos corredores.
Uma elevada movimentação de matérias-primas pode sustentar receitas portuárias, transportes ferroviários, serviços de carga e actividades comerciais, sem gerar necessariamente uma expansão equivalente da indústria transformadora.
A distinção é particularmente relevante para economias em que os corredores desempenham sobretudo funções de exportação de recursos naturais e trânsito de mercadorias dos países vizinhos.
O aproveitamento dessas infra-estruturas para instalar actividades produtivas exige condições adicionais de localização industrial, energia competitiva, financiamento empresarial, disponibilidade de terrenos infra-estruturados e acesso aos mercados.
Na intervenção em Cabo Verde, Salim Valá distinguiu três gerações de corredores económicos: os de trânsito, avaliados pelos volumes transportados; os logísticos, cuja eficiência se mede pelos custos e tempos de circulação; e os de desenvolvimento, associados à criação de valor acrescentado, empresas nacionais e emprego.
O governante reconheceu que Moçambique dispõe de uma experiência consolidada na primeira categoria, está a investir na segunda e pretende acelerar a transição para a terceira.
Concentração de 91,5% do Investimento no Extractivo Limita a Diversificação Empresarial
Os dados da distribuição sectorial do investimento directo estrangeiro constituem um dos elementos mais significativos da intervenção ministerial.
Com 91,5% do investimento estrangeiro concentrado na indústria extractiva, a participação de outros sectores permanece reduzida, particularmente nas actividades transformadoras, que receberam apenas 2,1% do total em 2025.
A disparidade reflecte uma economia com forte capacidade de mobilização de capital para grandes empreendimentos intensivos em investimento, mas com dificuldades para alargar esse dinamismo à criação de novas unidades industriais.
O padrão apresenta consequências importantes para a estrutura produtiva.
Os grandes projectos extractivos caracterizam-se frequentemente por valores elevados de investimento inicial, instalações industriais especializadas e significativa dependência de equipamentos e serviços importados.
Embora possam gerar exportações, receitas públicas e oportunidades para fornecedores nacionais, o volume financeiro mobilizado não se traduz automaticamente numa absorção proporcional de mão-de-obra nem numa diversificação das actividades económicas.
A indústria transformadora apresenta, em contrapartida, oportunidades para desenvolver ligações com a agricultura, mineração, construção, energia e serviços empresariais.
A expansão destas actividades pode contribuir para aumentar o conteúdo nacional das exportações, reduzir determinadas dependências de importações e ampliar a procura de fornecedores locais.
Salim Valá apresentou um indicador adicional da fragilidade produtiva nacional: excluindo os grandes projectos, as exportações moçambicanas cobrem apenas cerca de 22% das importações.
Esta relação evidencia a limitada capacidade exportadora de grande parte do tecido empresarial doméstico e o peso das importações no abastecimento da economia.
O crescimento das exportações extractivas pode melhorar os resultados externos agregados, mas a sustentabilidade do processo de diversificação exige que outros sectores desenvolvam capacidade competitiva própria.
É neste contexto que a política de corredores de desenvolvimento se articula com a transformação estrutural: criar condições para que o investimento em transporte e logística estimule actividades industriais e comerciais ao longo dos respectivos eixos.
Nacala Demonstra Que Capacidade Disponível Não Significa Procura Logística Consolidada
A utilização da capacidade portuária constitui outro elemento essencial na avaliação da competitividade dos corredores.
Segundo Salim Valá, o Porto de Nacala dispõe de capacidade para movimentar aproximadamente 10 milhões de toneladas por ano, mas registou apenas 3,5 milhões de toneladas em 2024.
A utilização corresponde a cerca de 35% da capacidade nominal anunciada.
O indicador revela uma margem operacional significativa para aumentar a movimentação, embora a capacidade disponível não signifique necessariamente que existam mercadorias, operadores ou ligações de transporte suficientes para a utilizar.
A procura de serviços portuários é uma procura derivada: resulta das necessidades de transporte associadas à produção, ao consumo e ao comércio internacional.
Por isso, a expansão física de um porto tem resultados limitados quando não é acompanhada por investimentos produtivos nas regiões servidas, corredores terrestres eficientes e condições comerciais competitivas.
A análise é particularmente relevante para Nacala, cuja posição geográfica e profundidade natural oferecem vantagens para o comércio regional, mas cuja utilização depende da articulação com o interior de Moçambique e os países vizinhos.
A disponibilidade de capacidade ociosa pode representar uma oportunidade para atrair novos investimentos industriais e comerciais. Contudo, a sua utilização exige superar custos de transporte, limitações de conectividade, obstáculos administrativos e condições de concorrência com outros corredores regionais.
O Governo apresentou a concessão integrada de Nacala, associada à zona económica especial e aos portos secos, como parte das iniciativas destinadas a aproveitar estas complementaridades.
Tânger Med Mostra Como o Porto Pode Sustentar Uma Plataforma Industrial
A experiência internacional permite compreender a diferença entre crescimento logístico e transformação produtiva.
Durante a intervenção em Cabo Verde, Salim Valá destacou Tânger Med, em Marrocos, como referência de um modelo que articula actividade portuária, zonas industriais, logística e investimento empresarial.
Os dados oficiais mais recentes do complexo marroquino revelam a dimensão dessa integração.
Segundo o grupo Tanger Med, as zonas de actividade ligadas ao complexo acolhiam aproximadamente 1.500 empresas, distribuídas por três mil hectares, tendo atraído US$ 1,88 mil milhões de investimento privado em 2025.
No mesmo ano foram anunciados 106 novos projectos, enquanto o emprego total acumulado nas plataformas industriais e logísticas atingiu cerca de 145 mil postos.
A experiência demonstra como a articulação entre infra-estruturas portuárias, localização industrial e serviços logísticos pode criar condições para o estabelecimento de empresas internacionais e fornecedores especializados.
Contudo, a reprodução deste modelo em Moçambique exige considerar diferenças relevantes.
Marrocos dispõe de uma localização próxima do mercado europeu, relações comerciais e industriais consolidadas com esse espaço económico e uma rede de fornecedores desenvolvida ao longo de vários anos.
Em Moçambique, a transformação dos corredores deverá responder à estrutura da procura regional, ao potencial agrícola e mineral, à dimensão do mercado interno e à capacidade de competir nos mercados internacionais.
O elemento transferível da experiência marroquina reside sobretudo na integração do planeamento portuário com a política industrial, a formação profissional, os incentivos empresariais e a criação de infra-estruturas de suporte.
Agro-Indústria Pode Ampliar a Base Produtiva dos Corredores
A agricultura constitui uma das actividades com maior potencial para ampliar a utilização económica dos corredores e distribuir os benefícios do investimento por diferentes regiões.
O problema reside na articulação entre produção, armazenamento, transformação e acesso aos mercados.
Na intervenção ministerial, Salim Valá destacou que, em algumas cadeias alimentares africanas, os custos de abastecimento podem representar até 45% do preço dos produtos, enquanto as perdas pós-colheita atingem proporções elevadas.
A existência de estradas e caminhos-de-ferro é importante, mas as oportunidades de comercialização também exigem armazéns, silos, cadeias de frio, instalações de processamento e serviços de distribuição.
Neste contexto, o Plano Quinquenal do Governo 2025–2029 prevê aumentar o número de infra-estruturas de agro-processamento de 18 para 101 e o de infra-estruturas de armazenamento agrário de 316 para 1.257.
A concretização destas metas poderá contribuir para reduzir perdas, alargar a capacidade de conservação e criar maior regularidade no fornecimento de matérias-primas às indústrias.
Salim Valá sintetizou a orientação pretendida ao defender que os corredores utilizados no transporte de carvão também devem servir o escoamento de milho, açúcar e caju.
A lógica económica consiste em aproveitar as infra-estruturas existentes para aumentar a densidade da actividade produtiva nos territórios abrangidos.
Uma unidade de processamento de produtos agrícolas localizada próximo de um corredor pode beneficiar de menores custos de aquisição de matérias-primas, maior facilidade de distribuição e acesso a mercados externos. Mas a sua viabilidade também exige volumes regulares de produção, fornecimento de energia, financiamento e capacidade de cumprir padrões comerciais.
Esta articulação deverá ocupar um lugar importante na selecção dos investimentos, especialmente nas regiões Centro e Norte, onde a produção agrícola apresenta potencial de ligação às infra-estruturas de transporte.
Fronteiras Lentas e Ferrovias Subutilizadas Acrescentam Custos à Economia
A eficiência das infra-estruturas constitui outro condicionamento ao desenvolvimento industrial.
Salim Valá reconheceu que algumas operações de atravessamento de fronteiras continuam a exigir mais de 24 horas, enquanto o sistema ferroviário do Centro, com mais de 1.100 quilómetros de extensão, transportou apenas cerca de dois milhões de toneladas em 2025.
Estes indicadores apontam para limitações que ultrapassam a disponibilidade física das instalações.
O transporte internacional depende de procedimentos aduaneiros, fiscalização, interoperabilidade tecnológica, coordenação entre operadores e previsibilidade dos serviços.
A permanência prolongada de camiões nas fronteiras aumenta os custos dos operadores, reduz a produtividade dos veículos e dificulta o cumprimento dos prazos de entrega.
Os atrasos também podem elevar a necessidade de inventários das empresas, uma vez que o abastecimento se torna menos previsível.
Na indústria, esta situação representa custos adicionais de capital circulante e aumenta o risco de interrupções produtivas.
O Governo identificou a modernização dos postos fronteiriços de Ressano Garcia, Machipanda e Cassacatiza como parte da resposta a estes problemas, acompanhada pela digitalização e simplificação dos procedimentos.
A abertura das redes ferroviárias a operadores privados também integra as reformas anunciadas, com o objectivo de aumentar a utilização da capacidade existente.
O argumento económico é particularmente relevante: melhorar a produtividade de infra-estruturas instaladas pode proporcionar ganhos de competitividade sem exigir, em todos os casos, investimentos equivalentes à construção de novas instalações.
A condição é que as reformas de gestão sejam acompanhadas por critérios transparentes de acesso, manutenção, tarifas e qualidade dos serviços.
Investimento Estrangeiro Aumenta, Mas Emprego Formal Continua Limitado
A relação entre investimento e emprego constitui uma das preocupações centrais da estratégia apresentada pelo Ministro.
Segundo os indicadores referidos na intervenção, cerca de 500 mil jovens chegam anualmente ao mercado de trabalho moçambicano, perante aproximadamente 25 mil novos empregos formais.
A dimensão da diferença demonstra a dificuldade de transformar o crescimento económico em oportunidades de emprego compatíveis com a evolução demográfica.
Os investimentos extractivos e as infra-estruturas de grande dimensão podem gerar emprego durante a construção, mas a sua capacidade de absorção permanente de trabalhadores varia consideravelmente segundo a tecnologia e a intensidade de capital utilizadas.
A indústria transformadora, o agro-processamento, os serviços logísticos e as actividades de manutenção e fornecimento apresentam oportunidades de emprego com perfis diferentes.
A expansão destas actividades pode, por isso, aumentar o número de empresas e profissões associadas aos corredores.
Contudo, a absorção de mão-de-obra depende das qualificações disponíveis, da competitividade das empresas, dos custos de produção e da continuidade da procura.
A integração das pequenas e médias empresas nacionais constitui um elemento importante neste processo.
Salim Valá defendeu que o apoio público ao investimento seja acompanhado por compromissos empresariais concretos, afirmando:
“O apoio do Estado não é um direito adquirido. É um contrato com metas.”
O Ministro identificou três compromissos esperados dos investidores: integração de fornecedores nacionais, formação e emprego de quadros moçambicanos e criação de valor acrescentado no país.
Esta orientação abre espaço para uma política de incentivos associada a resultados verificáveis, em vez de benefícios concedidos exclusivamente com base no montante financeiro dos investimentos anunciados.
O seu alcance dependerá, contudo, da capacidade de estabelecer metas mensuráveis, acompanhar o respectivo cumprimento e assegurar que as exigências sejam compatíveis com a competitividade das empresas.
UNCTAD Identifica Um Sinal Favorável Para Moçambique Num Contexto de Contracção Africana
A análise apresentada por Salim Valá encontra um elemento adicional de contextualização no relatório Global Investment Trends Monitor n.º 51, divulgado pela UNCTAD em 25 de Outubro.
Segundo a instituição, os fluxos mundiais de investimento directo estrangeiro cresceram 37% no primeiro semestre de 2026, mas o número de novos projectos anunciados diminuiu 15%.
Nas economias em desenvolvimento, as operações internacionais de financiamento de projectos recuaram 25%, enquanto em África a contracção atingiu 33%.
Apesar desta tendência, a UNCTAD identifica Moçambique, juntamente com a Índia e a Indonésia, entre os países que registaram aumento no número de operações desta natureza.
A referência é particularmente relevante porque indica que Moçambique conseguiu contrariar uma tendência regional desfavorável numa categoria de financiamento utilizada em grandes empreendimentos de infra-estruturas, energia e outras actividades intensivas em capital.
Contudo, o relatório não especifica o número de operações moçambicanas, os respectivos montantes ou os sectores beneficiários. Também não permite estabelecer uma ligação directa entre esse aumento e os investimentos nos corredores de desenvolvimento.
A informação deve, por isso, ser interpretada como um sinal favorável de actividade financeira internacional, e não como demonstração de uma diversificação efectiva da estrutura produtiva nacional.
Global foreign direct investment up in the first half of 2026.pdf
O contraste com a distribuição sectorial do investimento estrangeiro apresentada pelo Ministro é particularmente elucidativo.
Moçambique figura entre as economias onde aumentaram as operações de financiamento internacional de projectos, mas continua a canalizar a maior parte do investimento estrangeiro para a indústria extractiva.
A questão económica reside na possibilidade de transformar a mobilização de capital em investimentos complementares que aumentem a capacidade produtiva de outros sectores.
A própria UNCTAD, no World Investment Report 2026, chama a atenção para a crescente concentração internacional do investimento e para a necessidade de ampliar os seus efeitos sobre a produção, o emprego e a transferência de tecnologia.
Os Corredores Precisam de Uma Política de Desenvolvimento Industrial
A transição de corredores de trânsito para corredores de desenvolvimento exige uma articulação consistente entre investimento público, infra-estruturas e decisões empresariais privadas.
A existência de portos eficientes pode reduzir determinados custos logísticos e tornar uma região mais atractiva para o investimento. Contudo, a instalação de unidades produtivas exige um conjunto mais amplo de condições económicas.
A disponibilidade de energia competitiva, a qualificação da mão-de-obra, o acesso ao crédito, as condições regulatórias e a existência de mercados para os produtos finais influenciam a localização das empresas.
Estes factores explicam por que razão economias com infra-estruturas portuárias desenvolvidas podem apresentar resultados diferentes em matéria de industrialização.
Na estratégia apresentada em Cabo Verde, o Governo identifica os corredores como espaços prioritários para o desenvolvimento de parques industriais e zonas económicas especiais, articulados com os instrumentos nacionais de planificação.
O Programa Integrado de Investimento 2026–2030, a Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025–2044 e o Plano Quinquenal do Governo 2025–2029 constituem as principais referências programáticas indicadas pelo Ministro.
A sua execução deverá exigir mecanismos de coordenação entre entidades responsáveis pelos transportes, energia, indústria, agricultura, ordenamento territorial e promoção do investimento.
O objectivo económico é estabelecer complementaridades capazes de reduzir os custos de instalação de novas empresas e melhorar a utilização das infra-estruturas disponíveis.
Neste contexto, a selecção dos investimentos industriais deverá considerar a proximidade de matérias-primas, a disponibilidade de serviços logísticos, o custo da energia e a viabilidade comercial dos produtos.
A instalação de empresas ao longo dos corredores poderá aumentar a procura de transporte ferroviário e portuário, melhorar a utilização dos activos existentes e gerar novas necessidades de serviços especializados.
Forma-se, assim, uma relação económica potencialmente cumulativa: maior actividade industrial aumenta a procura logística, enquanto melhores serviços de transporte podem favorecer a expansão da produção.
O Crescimento Portuário Coloca Uma Nova Exigência à Política Económica
A evolução dos portos moçambicanos revela que o país conseguiu aumentar a sua participação na circulação regional de mercadorias, beneficiando da localização geográfica e dos investimentos realizados em infra-estruturas logísticas.
O Porto de Maputo estabeleceu um novo máximo de movimentação de carga, a Beira aumentou a sua actividade e Nacala dispõe de capacidade para absorver volumes adicionais.
Estes resultados representam uma base importante para a expansão dos corredores.
Mas o contraste entre os 69 milhões de toneladas movimentadas em 2025 e a reduzida participação da indústria transformadora no investimento estrangeiro revela que o crescimento logístico continua a superar a transformação da base produtiva.
A concentração de 91,5% do investimento na indústria extractiva demonstra que as condições de atracção de capital variam consideravelmente entre sectores.
O enquadramento apresentado por Salim Valá propõe uma nova orientação: utilizar os corredores para estabelecer relações mais densas entre produção, logística, investimento e desenvolvimento empresarial.
A experiência de Tânger Med demonstra que esta integração pode produzir resultados industriais e empresariais expressivos quando acompanhada por políticas consistentes de localização industrial, formação e atracção de empresas.
Em Moçambique, a oportunidade é particularmente relevante perante a existência de capacidade logística disponível e de uma base produtiva que necessita de maior diversificação.
Os portos nacionais movimentaram mais 20,8 milhões de toneladas em 2025 do que em 2021, mas a indústria transformadora continua a captar uma fracção reduzida do investimento estrangeiro. A próxima etapa de desenvolvimento dos corredores exigirá que uma parcela crescente desse movimento de mercadorias esteja associada à produção, transformação e comercialização de bens gerados pelas empresas instaladas no território nacional.
A evolução do número de unidades industriais ao longo dos corredores, da utilização da capacidade ferroviária, da participação de fornecedores nacionais e do emprego formal permitirá avaliar, com maior precisão, se a expansão logística está a criar condições para uma transformação sustentada da estrutura económica moçambicana.
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