
Reformas De Facilitação Do Comércio Avançam, Mas Falhas Na Monitoria Continuam A Travar Ganhos De Competitividade
- Estudo da UNCTAD conclui que o progresso reportado pelos países nem sempre corresponde à realidade observada nas fronteiras. Em 89% dos casos analisados, a implementação efectiva das reformas ficou aquém do que havia sido oficialmente comunicado à Organização Mundial do Comércio, evidenciando fragilidades que podem afectar a competitividade, as exportações e a resiliência das cadeias de abastecimento.
- UNCTAD alerta para discrepâncias entre reformas reportadas e realidade nas fronteiras;
- Em 89% dos casos avaliados, a implementação efectiva foi inferior ao reportado à OMC;
- Monitoria e avaliação continuam a ser uma das maiores fragilidades institucionais;
- Comités Nacionais de Facilitação do Comércio assumem papel crescente na gestão de crises e cadeias logísticas;
- Falhas de monitoria podem reduzir competitividade e limitar acesso aos mercados;
- Experiência do Quénia demonstra ganhos significativos quando existe coordenação institucional eficaz.
Num contexto marcado por crescentes tensões geopolíticas, perturbações logísticas e reconfiguração das cadeias globais de abastecimento, a facilitação do comércio tornou-se um dos mais importantes instrumentos para aumentar a competitividade das economias e fortalecer a resiliência dos fluxos comerciais.
Contudo, um novo estudo da UN Trade and Development (UNCTAD) sugere que o progresso registado na implementação das reformas de facilitação do comércio pode ser menos robusto do que os números oficiais indicam.
Segundo a análise divulgada pela UNCTAD, embora as reformas continuem a avançar em várias regiões do mundo, os sistemas de monitoria e avaliação permanecem insuficientes, criando uma diferença significativa entre os progressos reportados pelos governos e a realidade efectivamente observada nas fronteiras, portos e corredores logísticos.
A conclusão tem implicações importantes para países em desenvolvimento como Moçambique, cuja competitividade externa depende cada vez mais da eficiência logística, da rapidez dos procedimentos aduaneiros e da integração regional.
Os Números Oficiais Podem Estar A Sobrevalorizar O Progresso
Segundo a base de dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), a implementação global do Acordo de Facilitação do Comércio ultrapassou 87% até ao final de 2025.
No entanto, uma avaliação conduzida pela UNCTAD em 26 países em desenvolvimento e menos desenvolvidos revelou uma realidade menos optimista.
O estudo comparou as notificações oficiais submetidas pelos governos à OMC com diagnósticos nacionais realizados através dos sistemas de monitoria da própria UNCTAD. O resultado foi expressivo: em 89% dos casos analisados, os dados reportados não reflectiam integralmente a situação observada no terreno. Na maioria dos países, a implementação efectiva encontrava-se abaixo do nível oficialmente comunicado.
Segundo a UNCTAD, esta discrepância demonstra as limitações dos actuais mecanismos de reporte e evidencia a necessidade de reforçar os sistemas nacionais de monitoria.
Monitoria Continua A Ser O Elo Mais Fraco
Um dos principais alertas do relatório está relacionado com a capacidade institucional para acompanhar a execução das reformas.
Segundo a UNCTAD, cerca de dois terços dos Comités Nacionais de Facilitação do Comércio declararam realizar actividades de monitoria em 2025, recorrendo a ferramentas digitais, missões de campo em fronteiras e portos, bem como inquéritos internacionais.
Apesar disso, os próprios comités identificaram a monitoria e a medição do progresso como uma das suas maiores lacunas institucionais.
A ausência de sistemas robustos de avaliação não afecta apenas a qualidade da informação. Segundo a UNCTAD, pode igualmente comprometer a tomada de decisões baseada em evidências, dificultar o acesso à assistência técnica internacional e permitir que estrangulamentos operacionais persistam sem serem devidamente identificados e corrigidos.
Facilitação Do Comércio Passa A Ser Ferramenta De Resiliência
A análise mostra igualmente uma evolução do papel desempenhado pelos Comités Nacionais de Facilitação do Comércio.
Segundo a UNCTAD, cerca de metade dos comités participantes reportou actividades relacionadas com congestionamentos logísticos, atrasos operacionais e resposta a choques externos, evidenciando uma transição progressiva de uma abordagem focada exclusivamente na eficiência para uma visão mais ampla de resiliência económica e preparação para crises.
Esta transformação ganhou força após a pandemia da Covid-19 e foi reforçada pelas recentes perturbações nas cadeias globais de abastecimento, conflitos geopolíticos e volatilidade dos mercados internacionais.
Segundo o relatório, os comités estão a assumir um papel cada vez mais estratégico na coordenação de respostas operacionais ao longo das fronteiras e dos corredores comerciais.
O Exemplo Do Quénia Mostra O Potencial Das Reformas
A experiência do Quénia é apresentada pela UNCTAD como um exemplo concreto dos benefícios que podem resultar de uma coordenação institucional eficaz.
Segundo o relatório, o tempo médio de permanência das cargas nos portos quenianos caiu de cerca de 11 dias para apenas três a quatro dias, enquanto os tempos de permanência dos navios registaram melhorias significativas.
Os resultados foram atribuídos ao trabalho do Grupo de Trabalho para Portos e Comércio de Trânsito, integrado no Comité Nacional de Facilitação do Comércio do país, que reforçou a coordenação entre instituições e implementou mecanismos conjuntos de monitoria de desempenho.
Segundo a UNCTAD, estas melhorias permitiram reduzir disrupções logísticas e aumentar a fiabilidade do comércio de trânsito.
O Que Isto Significa Para Moçambique
As conclusões do estudo têm particular relevância para Moçambique.
Nos últimos anos, o país tem investido na modernização dos corredores logísticos, digitalização aduaneira, implementação de postos fronteiriços de paragem única e melhoria da eficiência portuária.
Contudo, a experiência internacional sugere que o sucesso destas reformas depende não apenas da sua aprovação ou implementação formal, mas sobretudo da capacidade de medir resultados concretos e corrigir rapidamente os constrangimentos identificados.
Num país que procura posicionar-se como plataforma logística da África Austral, a monitoria efectiva dos tempos de trânsito, custos logísticos, procedimentos aduaneiros e desempenho fronteiriço poderá tornar-se tão importante quanto os próprios investimentos em infra-estruturas.
Competitividade Exige Mais Do Que Reformas No Papel
Segundo a UNCTAD, a incapacidade de monitorar adequadamente o impacto das perturbações globais sobre as cadeias nacionais de abastecimento pode resultar em perda de acesso aos mercados, redução da competitividade dos exportadores e menores perspectivas de crescimento económico.
A principal mensagem do relatório é clara: reformas de facilitação do comércio produzem resultados apenas quando são efectivamente implementadas, acompanhadas e avaliadas.
Num ambiente económico global cada vez mais competitivo e sujeito a choques frequentes, os países que conseguirem transformar as reformas em ganhos operacionais concretos estarão melhor posicionados para atrair investimento, expandir exportações e integrar-se de forma mais eficiente nas cadeias globais de valor.
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